Meu filho é gay | Pais de filhos gays


Assumir a homossexualidade nem sempre é fácil. Veja alguns casos bem sucedidos, e outros nem tanto, de pessoas que assumiram para os pais.

Comigo aconteceu assim: minha mãe havia encontrado um bilhetinho de um ex-namorado. Guardou aquilo com ela até o dia que ficou encorajada para conversar comigo. Depois de 4 meses, numa noite, ela chegou com o papel e perguntou: “Você pode me dizer o que significa isso?!”. Engoli seco aquela posição e rapidamente pensei: “Não vou mentir”. A conversa durou horas, até amanhecer. Teve choro sim, mas teve mais conversa. Minha mãe não é de imposição, mas precisou entender aquela ideia durante um tempo. Após um ano aproximadamente passou a conviver com a minha realidade. Hoje, vive mais de perto meus relacionamentos. Já conheceu o “B”, meu namorado. Fomos almoçar juntos na Feijoada da Lana, em Pinheiros, e sempre pergunta dele. Temos uma “relação normal”, como qualquer família. Mas, sim, foi uma conquista.

Com meu pai, ele encontrou algumas fotos “estranhas” no micro. Nunca foi de fuçar as coisas dos outros, cada um tinha a sua pasta no micro, mas resolveu mexer nos meus arquivos. Chegou para a minha mãe e queria uma conversa comigo. Engoli seco também e fui ter a conversa: franca, direta e sem mentiras. Falei abertamente, objetivamente, sem reticências. Ao final da conversa ele lança: “Bem que sempre achei que pessoas que fazem arquitetura, publicidade, artes, são todos viados”. Meu pai, hoje, não se envolve, não quer saber, mas tem a sua relação comigo, de pai para filho. Os limites e inseguranças dele são outros, que vão mais além da questão da minha sexualidade. Não busca se envolver, nem ter conhecimento mais profundo sobre o assunto, mas é assim com muitos outros temas também. Meu pai é uma pessoa que conquistou suas coisas mas se esquivou de muitas responsabilidades. A omissão quanto a esse tema não seria muito diferente.

Quando “L” assumiu sua homossexualidade para os pais.

L foi o meu primeiro namorado. Mantenho uma boa amizade com ele, há aproximadamente 10 anos. Desse tempo, 2 anos fomos namorados e 8 amigos. Somos muito mais amigos hoje do que qualquer outra coisa.

Quando L assumiu, a relação que era mais distante com seu pai se aproximou. Naquele começo, para a mãe, foi mais difícil. Sempre que ligava para L e a mãe atendia, seu tom de voz era de mal humor ou de dureza. O tempo passou e seus pais amadurecem bastante a ideia. Quando tem almoço de família, o que é frequente na casa de L, vou sem problemas. Os pais superaram, buscaram compreender e abraçaram a ideia. Hoje, L está casado, num relacionamento que desenvolve há três anos.

Quando “D” assumiu sua homossexualidade para os pais.

D é um ex-namorado que mora no interior de São Paulo. Os pais são separados e tanto D quanto seu irmão moram com a mãe. D assumiu sua homossexualidade enquanto namorávamos. Tinha 17 ou 18 anos e, a princípio, sua mãe se encheu de acusações, alegando que estava influenciando seu filho. É importante deixar claro: os prazeres e envolvimentos sexuais não tem influência, mas podem ter referência. Se a pessoa compra a ideia é porque gosta; as pessoas experimentam e vivenciam o que lhes despertam prazer. Ficamos nesse clima durante um tempo. De lá para cá, mantive uma amizade com o D. A mãe superou suas questões e enxerga tudo com bastante naturalidade.

Quando “DD” assumiu sua homossexualidade para os pais.

Quando conheci DD, um ex-namorado, os pais já sabiam de sua sexualidade. Resolvidos as suas medidas: a mãe espalhafatosa, erguendo a bandeira até exageradamente. O pai, discreto, educado, mas nunca tratou do tema diretamente.

Quando “R” assumiu sua homossexualidade para os pais.

O R é um ex-namorado mais passivo para as coisas da vida. Foi bastante mimado, daqueles que na adolescência recebia 700 reais para gastar no shopping. Quem cresce assim, como comentado em outros posts, acaba ficando passivo as coisas da vida, do externo, das atitudes perante as pessoas. Costumam ser pessoas omissas. No seu caso, enquanto namorávamos, a mãe lhe questionou se eu era seu namorado. Respondeu apenas que sim e não mais trataram do assunto. Sua mãe e irmã, que tem conhecimento de sua sexualidade, sempre me trataram com educação. Seu pai e seu irmão, desconhecem da realidade assumida, verbalizada, mas ao meu entender sabem bem. Só que existe uma diferença entre assumir e desconfiar. Nesse plano da desconfiança, não existe a necessidade da atitude, as pessoas ficam acomodadas. Coloco o R como o indivíduo mais imaturo de todas as relações citadas aqui. Ao meu ver, sua mãe saber porque tomou a atitude de questionar, e seu pai não porque R não se encoraja para falar, deixa a situação pendente, mal resolvida, em aberto. Isso, pessoalmente, me incomoda bastante. Mas, certamente, é confortável para R. Mas não se evolui. Certo ou errado, bem ou mal, situações pendentes desse tipo acabam influenciando qualquer outra relação de R. Mas, se a gente falar, ele não acredita. Então deixa assim, como está.

Quando “B” assumiu sua homossexualidade para os pais.

O meu namorado B assumiu sua sexualidade há pouco tempo, durante nosso namoro. As reações foram as mais maduras e favoráveis. Me impressionei bastante com a maturidade de sua mãe e de seu pai. O B tem um contato bastante frequente com tios e primos. Todos souberam e todos nos tratam com bastante educação e respeito. Posso afirmar que as relações na família de B são as mais evoluídas que já lidei. Sem excessos, nem extrema discrição. Existe naturalidade, exceto uma impressão que tenho da irmã de B, que coloca esse ponto como algum incômodo que não é muito claro. Conhecendo melhor a sua irmã, posso afirmar hoje que os pontos não são exclusivamente a sexualidade de B, nem o nosso namoro. As pessoas tem questões e pontos, tem manias, e não seria diferente com a irmã de B.

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Na realidade, com os casos vivenciados de perto ou distante, posso afirmar que meus conhecidos que se assumiram e, hoje, desfrutam do privilégio de pais que enxergam a nossa realidade com naturalidade, são indivíduos mais em paz consigo mesmo, com menos manias. Essa busca deveria ser de todos, mas entendo que nem sempre é fácil. Exige esforço, paciência e uma boa dose de cara de pau (ou ingenuidade) para assumir as consequências previstas e imprevistas. De qualquer forma, se a base familiar é sólida, a tendência é o entendimento. Depois da realidade, os pais precisam de um tempo e os filhos também.

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