Nossos artistas gays e brasileiros

Em entrevista na Rolling Stone (março de 2011), Elton John apresenta-se como o gay mais conhecido do mundo. E provavelmente é. Sua música imperou nos anos 70 e 80 e pude ter essa referência de repertório em minha juventude. Acompanhei sua carreira e, hoje, aos sessenta e poucos anos teve seu primeiro filho com o marido David Furnish, com o qual desenvolve a relação há 10 anos. Tirando seus pitis e sua imagem desgastada pelos anos de carreira, Elton não nega que é uma representacão viva do pop e rock criativos, ouvidos mundialmente. A partir daí nos pergutamos: por que a maioria dos artistas não se assumem publicamente, como Elton ou Ricky Martin, já que são ícones e modelos, formadores de opinião e possíveis interlocutores de nossa militância?

A ideia de militância, particularmente no Brasil, está fora de moda. Ou talvez, pela nossa cultura (ou ausência dela) não carregamos esse tipo de movimento, de ideologias e contexto mais politizado. Mais do que isso, nossos artistas gays, ícones e sexy simbols possivelmente teriam sua reputacão abalada perante seu público e fãs. Um galã de novela provavelmente perderia sua legião de seguidoras assumindo abertamente a homossexualidade, algo semelhante ao que aconteceu com os Beatles, quando John Lennon disse ser mais famoso que Jesus Cristo. E esse tipo de repercussão para os empresários midiáticos significaria prejuízo no bolso.

Os brasileiros não estão preparados para esse tipo de recepção, os empresários não querem perder dinheiro e os artistas não querem perder seus empregos.

Mas fico me questionando, num país que oferece uma educação morosa e de exclusividade para poucos, o quanto a preparação é necessária e o quanto realmente virá, nesse passos lentos que tanto se discute nas rodas dos intelectuais. O quanto devemos depender da lucidez dos brasileiros para poder realizar feitos de maior abrangência em prol de nossos direitos e de nosso espaço?

Minha mãe, sábia como boa parte das mães que amadureceram com o passar do tempo, lançou uma frase para mim: “As vezes, a gente precisa aprender a impor nossas vontades”. O contexto da conversa era outro, mas essa ideia me soa muito pertinente nesse post. Se a gente não busca força e coragem, nesse contexto social, para impor e expressar nossos valores, as pessoas dificilmente assimilariam.

Posso ser um pouco radical, mas me pergunto se, as vezes, um “tratamento de choque” não é necessário. Esperamos muito uma sociedade mais esclarecida. Mas, ao mesmo tempo, assumimos essa posição de espera. Será que essa é realmente a melhor maneira?

Me deu vontade de assistir novamente o filme “Milk” com o Sean Penn.

2 comentários Adicione o seu

  1. Maykon disse:

    Eu acho que se depender-mos de nossos artistas para alguma militância, estaríamos em apuros…

    O problema é que a própria militância anônima no BR já é torta.Fico feliz que aumentou os números de noticia sobre beijaços, ou algo assim em universidade do Brasil como protestos ,além de outros atos.Mas quase sempre, os militantes estão mais preocupados em tirar Gianeccines e Marias Gadús do armário(confesso que as declarações desta última me irritaram profundamente).

    As paradas gays estarão lotadas, mas conseguimos um feito enorme que foi a aprovação da União Civil, e pelo que vi nas redes socais, os héteros comemoraram mais que os próprios gays….
    No mais, desculpa Elton Jonh , mas como gay famoso Prefiro Alexandre , o Grande.

  2. Felipe Candido disse:

    Eu acho essa coisa de militância tão ultrapassada. O que precisamos é de reivindicação de direitos pelo fato de gays serem cidadãos como qualquer outros. Não se pode privar os direitos, por qualquer motivo. Agora, ficar levantando bandeira disso ou daquilo, ficou enterrado lá nos anos 70. E outra, a questão da saída ou não do armário por celebridades, é uma questão que diz exclusivamente a elas. A sexualidade é mero aspecto da vida comportamental. Eu, por exemplo, prefiro escovar os dentes antes de tomar banho ao levantar. Tem gente que prefere o contrário. Tem gente que escova os dentes durante o banho. E ninguém levanta bandeiras em torno de hábitos de higiene, então por que levantar por conta da questão da sexualidade? Famosas ou não..
    E pra finalizar, é muito reducionista tratar a figura de Alexandre, o Grande como “gay”. Vale lembrar que ele viveu em uma época onde a misoginia era um dos pilares da sociedade. As mulheres não eram consideradas cidadãs. Eram seres inferiores, tendo como função única e exclusivamente a reprodução. Já os homens sim, eram cidadãos, votavam, agiam socialmente e, sim, se relacionavam “amorosamente” com outros homens, mas mais por uma questão social, do que realmente sexual.

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