Meu pai é gay!


Há seis anos atrás tive contato com um colega, pai de família e com uma filha pequena. Estava vivendo a dura crise de se assumir como homossexual, depois de alguns anos de vida casado com uma mulher, nos moldes tradicionais da nossa cultura.

O caso desse rapaz, que na época tinha seus quarenta anos, reflete uma realidade mais comum do que se imagina: gays que, pela dificuldade de se resolverem como tal, tentam suprimir seus desejos e reais afinidades, e passam a atuar da maneira que a “família tradicional brasileira” exige.

Acontece só que muitos desses homens acabam perdendo o controle desses desejos que vão se potencializando com o passar dos anos. A vontade reprimida acaba sendo tão forte que situações constrangedores, promíscuas, confusas e muitas vezes difíceis da sociedade assimilar acontecem.

Um outro fato que reforça essas ideias ocorreu com meu ex-namorado. Nos tornamos bons amigos depois que o namoro acabou e, hoje, mantemos uma amizade de mais de 10 anos. O “L” costumava ir algumas vezes no Autorama, espaço aberto no Parque Ibirapuera onde homens costumam saciar suas fantasias coletivas ao céu aberto. (Sim, lugares como esses existem e podem ser comentados mais profundamente em outro post). No Autorama, assim como nas saunas, é muito comum encontrar “heterossexuais” que dão uma escapadinha da rotina para realizar seus desejos.

Foi em um de seus passeios no parque que o L conheceu um rapaz bonito, com “pinta de surfista” e que tinha alguns desejos bem específicos com outro homem. O L, solteiro como estava e interessado na figura do surfista, não perderia a oportunidade. Realizaram o que o “hétero” queria dentro do carro. Depois do sexo, o menino contou um pouco de sua história: namorava com uma moça fazia alguns anos e que, as vezes, passava por lá para matar algumas vontades “específicas”.

Voltando ao pai de família do começo do post, presenciei o quanto ele agonizava pelas dificuldades mentais que estava passando. Pai e marido, responsável por uma família, estava descobrindo sua real orientação nessas circunstâncias da vida. Algumas vezes falou em suicídio e eu só imaginava o rolo em que estava metido. Pude ser o ombro amigo algumas vezes, ouvia os desabafos e tentava orientá-lo para buscar seu caminho.

Nos últimos contatos que tive, lembro que ele havia experimentado um beijo com outro homem, e como aquilo era forte e definitivo para ele. Nessa mesma época, havia assumido para a esposa e a crise familiar se iniciava. Depois disso, perdi contato.

A princípio, exemplos desse tipo são taxados como imoralidade, loucura, falta de compostura e todos adjetivos que a cultura tradicional é capaz de pronunciar para essas situações. Porém, existe o lado que ninguém busca enxergar: não fosse essa cultura machista, católica, impondo regras absolutas a heterossexualidade do indivíduo, situações desse tipo muito provavelmente não aconteceriam. O indivíduo teria mais opção de escolha e de experiência, sem se obrigar a seguir modelos que no íntimo não é o que quer ou procura.

Diante a sociedade como é, casos como esse acontecem todos os dias. Muitos gays optam por não enfrentar a família, o trabalho e a “máquina social”. Vão construindo assim uma identiade parcial, tentando suprimir as vontades reais e – até quando esse perfil perdurará – não se sabe.

O fato é que o “prisioneiro” de alguma maneira e em algum momento escapa.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s