Pais que aceitam o filho homossexual…

…são ainda mais difíceis de se encontrar, mas costumam ter uma mente (ou uma alma) mais resolvida. Pais que não aceitam o filho homossexual vivem a culpa, lembram daquele dia que sentiram fobia de um gay e, na hora que o filho assumiu, veio um peso, veio a insegurança e veio a ideia: “meu filho vai ser alvo de preconceito nesse mundo”. Sim, preconceito que um dia eles próprios tiveram e fobia que vão precisar superar.

Os pais que aceitam o filho gay são aqueles que, a grosso modo, criam e entendem que o filho nasceu para o mundo e não para eles. Costumam ter uma vida mais desapegada de modelos mais rígidos e tradicionais, e se põem predispostos a absorver as novas realidades que o tempo vai trazendo durante a vida. Pais que aceitam seus filhos, passaram a entender mais os próprios pais, resolveram as crises das gerações e assumiram com mais tranquilidade o tempo que a idade lhes impõe.

Embaso todas essas referências na identidade do meu pai e da minha mãe que são o meu universo familiar. Longe de mim julgar melhor ou pior, mas tenho duas imagens bem claras, de pai e mãe, das posturas e reações diante da minha homossexualidade.

Minha Mãe

A ideia não é fazer uma ode a “Super Mãe”, aquela mãe de todos que abraça as causas do filho mesmo que esteja errado. Mesmo porque, minha mãe nunca assumiu esse papel de defesa com todas as forças. Pelo contrário, minhas atitudes imaturas foram sempre bem julgadas e, depois, orientadas!

O que fez a minha mãe aceitar, ou melhor, participar da minha natureza, é sua sábia capacidade de compreender com liberdade a diversidade humana. De família com sete irmãos, meus avós cultivavam uma educação de orientar e testar: no final as escolhas da vida de cada um dos filhos dependeriam exclusivamente de suas próprias experiências. Isso fez com que cada um seguisse um rumo diferente, não só na formação, mas como também geograficamente. Sete filhos, dos mesmos pais, mas com opções de vidas tão diversas!

A minha mãe optou por ser professora. Estudou na PUC e lecionou para jovens de gerações diferentes durante anos. Tornou-se assim, genótipo e fenótipo, uma mãe que aceita a homossexualidade do filho.

Meu pai

Meus avós paternos casaram sob o costume antigo de unir os filhos por interesses. Minha avó teve dois filhos e um dele foi meu pai. Abortou três ou quatro vezes até o nascimento do “meu papai temporão” (para quem não conhece essa palavra antiga, temporão é aquele filho que se concebe muitos anos depois do último filho e muitas vezes sem querer. E, normalmente, temporão cresce mimado!). De educação matriarcal, meu pai preserva uma imagem soberana e glorificada da minha avó. Foi uma educação do tipo: minha avó falava, meu pai concordava. Minha avó apontava, meu pai seguia. Imagino que muitas vezes meu pai gostaria de fazer diferente. Mas, pelos seus motivos, optou por não discordar.

Meu pai fez engenharia sobre orientacão dos meus avós. Preferiu seguir a carreira de funcionário público para garantir uma estabilidade financeira. Tournou-se assim, genótipo e fenótipo, um pai que gostaria que o filho fosse para ele.

Pais que aceitam os filhos gays costumam entender o amor com mais livre arbítrio. Pais que não aceitam os filhos gays costumam entender o amor pela dominação.

Difícil, não, essa história de ser pai? Difícil ainda mais para os pais que querem ter o controle dos filhos.

3 comentários Adicione o seu

  1. No meu caso, minha mãe sempre teve um grande apego aos filhos, ao ponto de ser uma super-mãe, protetora, presente, amiga. Sempre está pra gerenciar os conflitos, intermediando, tomando as dores… Sempre teve muita fé (católica fortemente atuante e inclusive toda família, incluíndo eu), saúde forte, batalhadora.

    Meu pai não teve um pai (meu avô) muito presente. Mas sei que meu pai respeitou meus avôs desde criança, mesmo não sentindo todo amor que ele gostaria de ter sentindo deles. Isso fez com que meu pai tivesse um amor muito maior com seus filhos, principalmente a mim. Muito presente, junto com minha mãe, sempre proporcionou tudo de bom para nós, mas nos preparando para a vida, de modo que temos consciência que temos que lutar pelas nossas coisas, sermos alguém na vida.

    Dessa maneira, meus pais não conseguem aceitar minha homossexualidade (hoje acreditam que não sou mais, por enquanto prefiro que seja assim). Mas não moro mais com eles. Moro em São Paulo a anos e a quase 2 anos tenho um relacionamento sério com um homem, meu futuro marido. Meus pais ainda não sabem, pois tem meu noivo como um amigo. Antes meus pais, me viam na homossexualidade como se estivesse na promiscuidade (e realmente eu era um pouco assim). Mas hoje sou feliz, fiel, numa relação a dois… nos amamos bastante.

    Será que agora meus pais poderiam aceitar minha homossexualidade, sabendo que estou vivendo uma relação a dois sólida e com futuro de ser feliz?

    1. minhavidagay disse:

      Oi Rafael!
      No meu ponto de vista, a independência dos pais, com uma vida mais emancipada, colabora para que as coisas sejam mais “fáceis”. Mas as vezes me pergunto se precisamos da total aceitação de nossos pais. A limitações das pessoas com determinados temas, como a homossexualidade, é muito particular e não diz respeito a boa relação que existe entre pais e filhos. O que quero dizer é que é totalmente possível você ser o filho querido pelos pais, na íntima relação pais e filhos, e, ser homossexual. Não sei a sua idade, mas chega um tempo na vida que a qualidade das relações entre pais, familiares e amigos não devem sofrer influência de nossa sexualidade. Sexualidade é íntima, pessoal e não deve interferir nas relações.

      Mantenha as suas verdades na medida da capacidade de aceitação de cada um. Ou tente colocar a sua sexualidade mais “de frente” para seus pais, e dê um crédito para o tempo para aceitação, que pode durar anos, meses ou dias. A sua felicidade não depende dos outros.

      1. Eu já tenho 28 anos. Mas sempre tive uma doutrina familiar que me levou a deixar meus pais tomarem várias tipos de decisões sobre minha vida. As únicas decisões que eles não interferiram muito foi minha vida profissional e acadêmica. Nas demais relações (sociais e amarosas), sempre tive eles muito à frente do que eu realmente queria.

        Quando vim para São Paulo fazer meu mestrado, tive a certeza do que eu era e fui me libertando dessas doutrinas. Hoje, ainda, eles continuam a tentar me guiar ao modo deles, ainda sem saber da minha real sexualidade.

        Obrigado pelo seu comentário. Vou refletir muito sobre tudo isso.

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