Minha vida gay: do céu ao inferno. E depois no céu de novo.

2009 foi um divisor de águas na minha vida. Após alguns relacionamentos estáveis, faltava provar de algumas de minhas fantasias mais profundas, daquelas que as pessoas deixam aflorar ou guardam por toda vida. De fato, hoje em dia, muitos jovens provam sem muitos pudores, mas experimentam precocemente ou o fazem sem a devida consciência.

Acontece que 2009 foi o cenário para revelar as minhas fantasias individuais. Não havia compromissos com ninguém, com nenhum relacionamento e, capaz de bancar financeiramente e emocionalmente qualquer desventura, me propus a sair um pouco do “meu eixo”, como a minha mãe denominou naquele ano.

Vida gay: céu e inferno

Conheci a fundo, com um olhar analítico e consciente, o meio GLS. Experimentei a sauna 269 algumas vezes, paguei garotos de programa e, quando chegava no Sonique, o barman já sabia qual bebida me servir. A vida noturna, “escondida” dos olhares da sociedade, é cheia de atrativos e a chance de se criar o vício, quando se tem condições de bancar esse estilo de vida, é bastante grande.

Pude conhecer rapidamente algumas pessoas na sauna 269. Para quem não sabe, saunas gays são lugares que acontecem orgias entre homens que estão com a libido a toda e precisam “descarregar” sem compromissos com ninguém. Na 269 frequentavam homens, gays e pseudo heterossexuais. Duas realidades curiosas: na sauna gay dá “heterossexual” matando seus desejos sim. E dá também pessoas compulsivas por sexo. Lembro bem de uma conversa com um dos recepcionistas da casa. Ele comentava sobre a existência de clientes que entravam na 269 na segunda e só saiam de lá depois de uma semana. Como essa sauna tinha estrutura, camas e quartos, essa possibilidade era bastante real. Era, porque a 269 fechou, mas esse tipo de compulsão certamente continua. Não duvido que algumas pessoas tiram “férias” dentro de uma sauna.

E antes que os retrógrados se manifestem: a 269 não fechou pelas orgias, mas porque foi vendida para virar alguma outra coisa muito mais lucrativa.

Pude ver de perto a realidade dos garotos de programa que ficam próximos ao Parque Trianon, no Jardins. Gente que ganha dinheiro com outras ocupações, mas com o sexo também. Garoto de programas ativos, passivos e que se dispunham a realizar desejos ou completar a solidão do cliente. Alguns jovens bastante inteligentes e estudados e, outros, nem tanto assim.

Pude conhecer mais de perto figurões da noite GLS como o Duda Hering e o dono da The Week, que no momento não recordo o nome. Descobri que um dos sócios da famosa pizzaria Piola é um dos donos do Sonique e que os principais nomes são sempre os mesmos, quase numa formação de um cartel. Como era interessante ver amigos ou colegas buscando se aproximar mais dessas personalidades, possivelmente na intenção do status que esse tipo de coisa aparentemente propicia. E verdade seja dita: é o status da aparência mesmo pois, empresários da noite assim como qualquer outro empresário, estão, bem ou mal, interessados em negócios rentáveis. Se o negócio da noite requer formar uma galera, que assim seja!

Saia de quarta a domingo. Começava a noite de quarta no Bar da Dida, pulava para a festa no D-Edge. Na quinta, juntava amigos para uma festinha anos 80 na Loca. Na sexta estava novamente na D-Edge, sábado era dia de “descanso” na Dida ou no Gourmet e domingo era “Café com Vodka” no Sonique. Almoços e jantares costumavam acontecer no Athenas, as vezes no Mestiço e outras vezes no La Tartine. Com tudo isso, não deixei minhas responsabilidades e não deixei de bancar as “fortunas” de quarta a domingo!

E assim, vivia a minha vida gay independente e emancipada, com muita bebida e, sim, cocaina e maconha vez ou outra. A vida da noite traz essas drogas e outras também.

O exercício desse texto não é fugir da hipocrisia e muito menos alarmar pais e amigos. Em 2009 tinha trinta e dois anos, emancipados de meus pais e autônomo. Mas o que eu mais tinha, e acredito ter, era a consciência de conhecer cada passo que estava dando. Pude viver meu “Lado B”, me desapegar de preconceitos, medos e quebrar com alguns paradigmas que existiam naquele período.

Voltando ao começo do texto, minha mãe acompanhava meus relatos resumidos e dizia que eu estava saindo do meu eixo. Sim, definitivamente sai do eixo, mas confesso e assumo com a maior clareza que foi um ano fundamental para me reencontrar mais esperto, mais em paz comigo e mais adulto. Tem gente que busca esse auto-conhecimento com viagens. Eu preferi essa busca de dentro para fora e a fundo no meio GLS.

No final de 2009, começo de 2010, a tal da consciência me puxou. Foi algo processual, mas fui me permitindo voltar, a focar em “coisas mais saudáveis”, mesmo entendendo que tudo que vivi influenciou diretamente a minha maior sanidade.

A diferença de “cair no mundo” quando você se sente preparado e tem as rédeas da vida na mão é que, quando você entra em contato e se afunda, o seu “eu” está acima de qualquer atrativo ou encanto. Quando o “eu” está acima, você tem o alerta do seu próprio limite ou conhece melhor as “saídas de emergência”. Quando não está você se mistura no meio e passa a ser parte dele.

Posso dizer sim, com todas as palavras, que o meio GLS conta com muitas atrações e nos estimula ao vício. Não falo do vício de drogas, mas do vício comportamental. Não é a toa que os anos se passam e quando dou um pulinho em alguma das baladas citadas nesse post reencontro algumas pessoas, solteiras, sozinhas, da maneira que o próprio meio pede para ser: independentes, sempre belos com um sorriso no rosto e sempre numa busca.

Assim, jovens e adultos, estimulados ou induzidos por amigos, caem nesse conto. Porém, ter a consciência do que se está fazendo e para onde se está indo é necessário. Conhecer os próprios limites, experimentar sem viciar é algo recomendável, principalmente nesse mundo cada vez mais permissivo e criativo. Existem todas essas realidades, que muitas vezes parecem avessas ao que se coloca dentro de casa. Mas, quando realidades, saber orientar, saber ser orientado é um desafio para pais e filhos.

Alguns preferem conduzir a educação pelo receio e pelo medo e concordo que o medo é importante para nos colocar freios. Mas mais do que impor o medo, buscar uma consciência maior sobre as realidades diversas desse mundo, orientar e permitir – ensinando sobre limites do indivíduo – me soa mais condizente com o que se chama evolução.

Esse texto, no final, é só um exemplo do exercício de consciência e limites. Nada tem a ver com uma ode a promiscuidade ou permissividade, muito menos uma exaltação ao meio GLS.

A verdade é que a realidade está dentro de casa, mas está fora também.

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