Heterossexual ou homossexual?


Há alguns meses recebi um e-mail de um usuário que narrou seu relato pessoal: casado, ama a esposa, mas faz três anos que namora um homem (ao mesmo tempo). Deixo aqui registrado o relato e a minha reflexão. Nos faz enxergar a abrangência que é o universo gay, muito além das histórias que sabemos, das personagens óbvias que frequentam a região da Paulista. Acontece que ser gay na sociedade brasileira é muito além do óbvio.

O objetivo desse post é da reflexão sobre as dificuldades que ainda existem quando o assunto é sexualidade, por meio de um relato autêntico. A ideia não é julgar nem avaliar a conduta moral. Só acontece que, ser gay, para muita gente, é ainda algo difícil de traduzir.

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Relato para o “Minha Vida Gay”:

“(…) Estou em uma sinuca-de-bico: descobri que amo um homem, mesmo estando casado com uma mulher. Minha história começou com uma série de ameaças e abusos sexuais, quando eu tinha seis anos de idade. Fui forçado a ter relações sexuais com diferentes homens. Sentia vergonha por isso e não tinha noção do que ocorria exatamente. Queria fugir daquele ciclo, mas não conseguia. Tinha medo de contar aos meus pais. Cresci acreditando que os homens transam com os outros apenas por necessidade fisiológica, sem a necessidade de um relacionamento maduro, com terceiros, quartos e quintos, se necessário. Nesse caminho, preferi não revelar minha atração por homens. Tive vários na cama desde os meus 21 anos – fase de minha primeira experiência com homens. Entretanto eram as mulheres – algumas e raras – que me completavam. Sempre gostei de namorá-las, apesar de ter medo de ser mal sucedido na cama quando elas me requisitavam.

Sempre descrente no amor entre dois homens, me apaixonei pela minha atual esposa – a mais bela e com quem tive as melhores transas. Me casei – apesar de sair com meninos da minha idade. Além disso, me sentia feliz, completo, dentro de um relacionamento de verdade, com cumplicidade e crescimento mútuo, apesar das minhas limitações (necessidade de ter relações sexuais com outros). Os anos passaram e numa de minhas escapadas – minha necessidade por homens nunca acabou – conheci meu atual namorado. Estamos juntos há quase três anos e o amo, sem sombra de dúvida. Nunca pensei que pudesse me envolver tanto e chegar a onde cheguei. Ainda estou casado, mas sinto vontade de estar casado com ele também. Sinto que meu casamento não era como antes. Divido meu tempo entre esses dois amores. Ainda assim, tenho necessidade de ser cúmplice e de cuidar da rotina da relação com ela. Nunca deixarei de amá-la.

No entanto, tudo que eu tinha e tenho com ela, tenho agora também com ele – que sabe de minha situação civil antes mesmo do primeiro beijo. Ela sabe que fui violentado, mas nunca tive coragem de revelar meu segredo, minha atração por homens, por pavor e medo de magoá-la, de vê-la triste e infeliz. Meu medo máximo (no caso do namorado): temo ser trocado por outro e de ser traído, apesar de traí-la. Não tenho necessidade de sair com outros caras. Temos almoços, viagens, companherismo, amizade, troca, aprendizado e o melhor sexo do mundo. Quando sinto necessidade e ele não está por perto, resolvo com a famosa “masturbação”. Ainda assim, o mundo GLS dele – ele assumiu a sexualidade perante a sociedade há mais de 10 anos – e o estilo de amizade me deixam inseguro. A maioria dos amigos dele são gays e instáveis. Ou seja, existe um jeito próprio do grupo em que ele está inserido – exageros, trejeitos e modos de falar – que me incomodam, me deixam ciumento. Já conversamos sobre isso, mas nos convencemos de que nossos mundos são muito diferentes, apesar de nossas semelhanças físicas e de valores. Queremos as mesmas coisas. Mas os hábitos de ambos, às vezes, nos afastam. Ele diz que me ama e sabe que eu o amo. Mas temo pelo futuro. Essas relações estão valendo a pena, e muito. Mas gostaria de não me preocupar com um possível témino de uma delas. Algo que pode ocorrer. Enfim, me sinto perdido e impotente, muitas vezes. Será mesmo esse um dos caminhos para a felicidade, ou melhor, para o bem estar possível?”

Minha Vida Gay:

“(…) A primeira dica que dou é que procure por um psicólogo para que você saia desse nó, se quiser sair. Talvez parte de você queira resolver essa situação, mas uma outra parte, depois de aprender a administrar bem esse relacionamento múltiplo, está numa situacão estável (ou confortável).

As dicas seguintes referem-se a maneira como enxergo as coisas: se entender como gay as vezes leva tempo e as vezes exige experiência como é seu caso. Você é um homem que não se identifica com os vícios e maneiras do meio gay mas, ao mesmo tempo, tem um relacionamento com outro homem.

No mesmo compasso, você vive um relacionamento heterossexual, que, aos poucos, vem notando que tem a mesma força de envolvimento que o seu relacionamento gay.

Entendo que você está vivendo sua transição e, consequentemente sua “crise de identidade”. Ao mesmo tempo que não consegue ser gay como as referências que seu namorado lhe apresenta, não está mais tão envolto e completo na relação heterossexual como antes. Se sente então, “no meio do caminho” sem saber se vai ou se volta.

Nessa posição, natural sentir-se inseguro com as referências que seu namorado te traz. Mas isso pode ser o impulso necessário para que caminhe.

No meu sincero ponto de vista, bissexualidade é transição, que pode durar semanas ou anos. No seu caso, considero um tempo grande, mas é seu tempo.

Sobre as violências na sua infância, entendo que te influenciem hoje. Mas depois de uma certa idade e um certo nível de amadurecimento, o passado, as pessoas do passados e as ocorrências não são mais responsáveis por o que somos hoje. Com consciência, sabemos lidar melhor com os ocorridos e assumimos nossas atitudes independentemente do que vem de fora. Em outras palavras, importa menos hoje o que fez você ser “isso ou aquilo”. Importa mais você resolver as questões que te agustiam no seu presente momento.

Bem, eis os meus pensamentos a respeito. E, sinceramente, você ainda vai optar pelo caminho homossexual e vai notar que, para ser gay, não precisa seguir as referências que chegam a você. Assim, terá a segurança para ser pleno, sem ter que viver numa “corda bamba”.

Sinto dizer, mas o estado confortável de uma relação meio hétero e meio gay tem tempo limitado! (rs). Esse tempo pode durar mais alguns anos ou alguns meses (…)”.

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A questão final que fica é: “quantos homens, como ele, não vivem esse tipo de relacionamento?”. Obviamente, o protagonista da história não é o único caso do mundo e, outras pessoas que se identificam com esse post são mais reais do que se imagina… longe, muito longe, do desejo de atacar esse fato com críticas negativas. Viver administrando essas duas vidas não deve ser nada fácil, e a questão nem é o nível de dificuldade, mas a existência consistente de situações semelhantes em centenas de lares. Porque será que esse tipo de coisa acontece? Não seria grande parte da responsabilidade da cultura brasileira que diz, desde que somos muito pequenos, que ser gay é uma aberração e, para não sermos rejeitados ou desrepeitados, muitos optam por cumprir a “cartilha”?

A ideia desse post é ir além de nossas percepções pessoais… não há mocinhos nem bandidos.

4 comentários Adicione o seu

  1. o leitor disse:

    Cara, encontrei seu blog faz um tempo, li quase todos os posts. Achei bacana. Você disse que vê a bissexualidade como transição, mas no caso você acredita na transição gay para hetero ou só na hetero para gay? Em um post você contou de seu amigo que quase se masturbou com voc~e perto e que você não duvida da sexualidade dele, eu também não duvidaria mas no caso neste momento será que ele não se sentiu curioso a ter algo com você? Acho a sexualidade muito complexa.
    Abraços

    1. minhavidagay disse:

      Olá “leitor”!
      Sobre a bissexualidade ser uma transição, não tem uma única direção. Conheço um caso próximo de uma lésbica que viveu anos com outra mulher. Romperam. Ela encontrou um namorado, se apaixonaram, tiveram um filho e vivem juntos até o presente momento. Outro exemplo: já tive uma banda e todos sabiam na minha sexualidade. Até então, o baixista era heterossexual e só havia se envolvido com mulheres. Em determinada fase, decidiu ter um contato mais próximo com gays da faculdade e teve relações. Certa vez ficamos. Hoje, ele namora uma menina e está bem resolvido assim. Por fim, conheço uma outra senhora, mãe de filhos formados e encaminhados que, depois de anos de vida familiar, rompeu com o marido, rompeu com seu papel social tradicional e vive hoje feliz com sua esposa.

      Sobre o meu “amigo da masturbação”, certamente ele teve curiosidade. O que presenciei foi uma tentativa de liberar uma fantasia. Ele freou; outras pessoas não freariam. O que será que nos faz frear? Talvez, inconscientemente, um medo imenso por não saber lidar depois com a situação? Bem capaz!

      De onde vem esse medo? Do fato da sociedade, principalmente representada pela família, tratar o assunto com imoralidade ou desgosto? Muito provavelmente. Na conversa final que tive com ele sobre o assunto, lancei: “É bom você estar muito consciente do que você está fazendo. Eis um fato que pode mexer com você e vai precisar saber aguentar o tranco”.

      A sociedade, a princípio, define o que é de boa conduta, o que é moral ou imoral, o que é permitido e proibido. A sociedade define os limites. Com indivíduos mais esclarecidos, com a agilidade da informação, com possibilidades cada vez mais latentes, os limites estão começando a ser outros. Ontem, nos anos 50 ou 60, ser gay era algo definitivamente proibido, com direito a cadeia, espancamento e repressão. Hoje, ser gay é um poucou mais aceito e, são os próprios gays que vão imprimir essa ou aquela imagem para ser parte aceita (ou não) na sociedade. Se existe um movimento cada vez maior pedindo por mudanças, é sinal que a “regra tradicional” da heterossexualidade está perdendo um pouco de sua força.

      Em teoria, nascemos aprendendo a ser heterossexuais; o tal do instinto de procriação, o tal do papel perante a família e as boas práticas religiosas. Mas quem definiu isso como uma regra absoluta senão a própria sociedade? O que é mais primitivo – no sentido de original – dentro da gente, que começou antes mesmo da própria sociedade? Essa dualidade “homem vs. mulher” tem que reinar para sempre? Tudo indica que não…

      Abraços!

  2. Pedro disse:

    O dilema narrado no post é vivido também por mim: um homem casado, pai, que divide o coração entre a esposa e um outro homem que me completa, não somente sexualmente, mas pela amizade e cumplicidade que desenvolvemos por anos de convivência. Casei-me com a mulher que amo, mãe dos meus filhos, companheira. Não havia motivos para procurar uma outra relação, ainda mais com um homem. Tudo começou como uma amizade até que um toque alterou o cenário e inflamou reações que eu sempre lutei contra… Ele é solteiro e independente mas não reproduz o clichê gay narrado na experiência mencionada no post. Há uma certa pressão da parte dele para que eu tome uma atitude, o que é compreensível mas perturbador. Acredito que um dia, mais cedo ou mais tarde, tudo será revelado. Espero ter estrutura para suportar e ser feliz sem causar a infelicidade daqueles que estão ao meu redor.

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