A homossexualidade perante a educação tradicional e religiosa


Um outro relato interessante, que reflete na vida de boa parte dos jovens gays brasileiros, foi documentado por e-mail entre o blog “Minha Vida Gay” e um leitor. Mais um reflexo de muitas histórias, encontramos a problemática da família tradicional e religiosa criando um “muro” contra a liberdade de expressão e de vida, no caso, da homossexualidade. Mas o muro tem dois lados e percebemos o bloqueio que vem, de nós gays, quando temos que lidar com a possibilidade de rejeição e do afastamento.

Para encontrar a paz, os caminhos as vezes são tortuosos e exigem da gente. Mas o que representa isso senão o nosso processo humano de amadurecimento? Nos tornar adultos e nos desapegar dos valores paternais ou familiares, para formar os nossos próprios, na maioria das vezes e num sentido amplo do relacionamento entre pais e filhos pede sempre concessões.

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Relato para o “Minha Vida Gay”:

“Tenho 25 anos, sou formado, mestre e professor de uma universidade federal. Bom, e daí? Porque que te disse isso? Para me auto-afirmar? Não sei. Nestes 25 anos tentei ser o bom filho, estudioso, comportado. Aos 17 anos deixei a casa dos meus pais para estudar em outra cidade, estudar muito… esqueci minha vida pessoal em pró dos estudos. Durante o período de convivência com meus pais não era nada fácil, meus pais são maravilhosos, mas extremamente religiosos, e me criaram assim. Não amadureci sexualmente até hoje. Sempre tive medo da rejeição e por muito tempo neguei minhas preferências e mergulhei no meu “eu” que não existia, negando parte de mim. Mas mas mas, chega um momento que parei, parei e comecei a tentar retornar e recuperar o meu eu perdido, o meu eu de ser humano, físico, que fez parte da evolução das espécies e que tem seus desejos sexuais e mais ainda, afetivos.

Ultimamente tenho tentado investir em algumas relações frustradas, que não me fizeram despertar interesse. Mas há algo que me incomoda muito, o fato de minha família não saber da verdade, o fato de negar para eles isto, o fato de o meu eu não gostar de mentir e ainda o fato de que quando a verdade vir a tona as portas deles se fecharão por um bom tempo para mim.

Estou num período bem crítico, tenho tentado estudar fora, e investido nisso, passar no mínimo 4 anos em outro país, em fevereiro acho que estou viajando para ajeitar algumas coisas. No entanto, vejo que não gostaria de deixar aqui no Brasil uma mentira como imagem, mas a coragem falta e o que me sobra é rancor. Rancor por minha família nem tocar no assunto comigo e fingir que está tudo bem sempre. Fingir, não tem coisa pior do que negar para nós mesmos a verdade. Com estes percalços me tornei um partidário da verdade, que por enquanto tem que sustentar uma mentira para alguns. Tenho bons amigos que sabem de mim e, aparentemente, me aceitam e me amam. Mas, família é família.

Este final de semana reencontrei meus pais, tinha 3 meses que não os via, foi tudo bem, até começarem a falar de família, relacionamentos e religião. Resultado, acabou em discussão e eles chateados comigo. Isso me dói de uma forma que me deixa mal, desorganiza todo o meu ser emocional e, pior, o deles também, acredito.

As vezes não sei o que fazer, quais rumos tomar para amenizar a situação ou tentar resolver os problemas”.

MVG:

“A maioria das grandes escolhas implicam em algumas perdas. No seu caso, não foi propriamente uma escolha, mas é algo que está em você, que existe a necessidade de viver, experienciar, amadurecer. A viagem para um outro país pode gerar uma zona confortável na qual você possa passar pelas experiências que deseja, possa se assegurar, desmistifcar e relaxar quanto ao que você é.

A questão é essa: para sermos gays felizes precisamos relaxar quanto ao que somos, num sentido amplo.

Pelo que entendi em seu e-mail, você tem o objetivo profundo de assumir abertamente para sua família. No meu caso, eu não tive essa necessidade, mas acabaram por descobrir. No caso do meu namorado, de família grande, ele tinha a necessidade de dividir, respirou fundo e fez.

A religiosidade dos seus pais e suas crenças não diz respeito a você. De todo modo, como bom filho, você os respeita, mas tem vontades explodindo em você, que vão contra ao que eles entendem como correto.

Cedo ou tarde, para o encontro da felicidade e da paz, na questão da sua sexualidade, tudo indica que você deverá passar por esse desafio de abrir a verdade para seus pais. Mesmo que levem meses ou anos para entenderem que o amor real ou incondicional não tem esse tipo de julgamento. O tempo é para eles e esteja preparado para isso.

Descobri também que amizade também é família. Você também pode descobrir esse conforto e ganhar mais força para o seu momento.

Por fim, não desista dos seus objetivos, desejos e vontades. Eles gritam dentro de você, como grita em qualquer indivíduo. Seja forte e busque sua coragem.

Se você está certo que precisa explorar seu lado sexual/afeitvo, vá com fé. Com a mesma fé que tendemos pela religião. E lembre-se que, se somos como somos (e somos muito), não há nada de errado!”.

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