Relato gay – O caso de Henrique

Ao contrário dos relatos apresentados nos dois posts anteriores, “O caso de Henrique” é uma ficção pois não é de fato uma história vinda de alguém que conheça ou que tenha deixado registro por e-mail. De qualquer forma, nesse universo plural e diverso, que paira sobre a sociedade brasileira, o caso de Henrique pode ser uma verdade. Verdade seja dita, se alguém se identificar.

Henrique nasceu numa família de classe média alta e foi afortunado por isso: teve uma infância com tudo e um pouco mais. Na fase da faculdade escolheu por fazer design e, seus pais, orgulhosos pelo filho que sempre teve criatividade e facilidade de se relacionar com amigos da mesma idade e pessoas mais velhas, davam a Henrique todos os méritos e incentivos.

Era o filho único, no modelo tradicional. Tradicional por ter todos os mimos e a possibilidade de realizar praticamente todos os desejos materiais: eletrônicos, roupas, viagens e muitas outras compras que a classe permitia. Era um bom rapaz, de educação politicamente correta e que, com as influências e referências da faculdade, foi traçando um estilo moderno, antenado às tendências da moda, da música e do estilo de vida mais contemporâneo.

Para muitos, Henrique era delicado, afeminado. Para o pai, ultra protetor e para mãe, apenas um rapaz que veio ao mundo para se destacar, se diferenciar.

Na intimidade, Henrique era um namorador dos bons. Traços atraentes, corpo em ordem, estilo moderno de se vestir e uma facilidade natural em ser cordial com qualquer menina faziam Henrique ter um verdadeiro arém no Facebook: um simples comentário poderia ser motivo para suspiros ou respostas cheias de segundas intenções.

Tinha um jeito intrigante quando o assunto era namoro: ficava com uma menina por longos períodos de tempo e, quando terminava, não dava nem dois meses para “respirar”, e já estava namorando com outra menina, apaixonado. O perfil perfeito do “príncipe” que encanta a “princesa”: belo, educado e que coloca a relação como prioridade 1.

Na faculdade, teve contato com colegas gays e, muito curioso, queria saber de intimidades do meio, como as coisas funcionavam e como acontecia o sexo. Tinha um ar de bem resolvido, e muito curioso!

Nascido de uma família de classe média, filho único, consciente de seus atributos físicos e de pai ultra protetor, Henrique, muito sociável e cobiçado, tinha também seus defeitos: era egocêntrico, mimado e, discretamente, tinha a necessidade de ser o centro das atenções nos diversos círculos sociais que frequentava. Inconscientemente, formava amizades que, de certa maneira, o colocavam na posição de superioridade. No trabalho acabava expondo seus casos amorosos e até mesmo íntimos para auto afirmar sua virilidade ou mostrar o quanto meninas (e meninos) lhe chegavam com indiretas. Sem perceber, quando alguém não lhe dava uma maior atenção ou não demonstrasse interesse pela pessoa que era, não desenvolvia maiores contatos.

Esse egocentrismo era de certa forma consciente. Mas controlar esse perfil, que algumas vezes até atrapalhava, era difícil.

A relação com o pai, de super proteção, era muito saudável quando existia compatibilidade de desejos e expectativas entre os dois. O pai estava sempre disponível para conselhos e para se movimentar pelo filho quando fosse preciso. Isso era extremamente reconfortante para o rapaz. Por outro lado, nessa relação vivida desde que Henrique saira do ventre da mãe, criava um vínculo de extrema dependência, controle e posse. O pai virara uma imagem soberana e incontestável e, assim, o rapaz se formava. Os desejos e questões mais íntimos de Henrique que por ventura contrariassem as “regras da casa” eram aprisionados ou, até mesmo, esquecidos. Não nascera com a personalidade ou postura de enfrentamento, como é mais comum quando se é jovem. Mesmo porque havia sempre alguma maneira de “negociar” uma vontade por algum mimo permitido.

Henrique, de fato, viveu muitos anos da vida de acordo com os modelos e conduta impostos pelo pai. Não era uma imposição clara e contundente: estava regada de muita “paixão” e um “afeto extremo”. O garoto era muito namorador e não suportava a ideia de ficar sozinho, eis a verdade. Estar sozinho, ou melhor, estar sem uma menina ao seu lado, poderia dar espaço para algumas fantasias mais profundas, poderia gerar uma crise muito grande com seu pai, poderia ofuscar aquela imagem, e assim, poderia balançar todo o modelo construído de segurança que estava enraizado na relação com a sua família e amigos. O rapaz não tinha muita consciência disso tudo. Apenas seguia o modelo…

Seguiu esse “estilo” até o dia que seu pai subtamente adoeceu e veio a falecer. O período de luto foi crítico. Foi como se um ambismo rasgasse a alma de Henrique. Conceitos e valores estavam se afrouxando, não sabia como amarrar e, como um ser humano comum, o menino se viu perdido por um tempo. O seu tempo…

De súbito rompera com uma relação de seis anos. O casamento era certo, a vida no apartamento no Jardins e o plano de viagens a dois pelo mundo desmoronavam a medida que a fase de luto passava, a medida que a imagem soberana de seu pai se perdia. Nesse momento, o garoto se via triste pela perda, mas ao mesmo tempo sentia um tipo de alívio que não conseguia decifrar.

Henrique, hoje, com 35 anos está se deixando levar por outras ondas. Curiosidades que tinha com seus vinte e poucos anos passaram a ser reveladas por ele mesmo. Sua feminilidade não lhe causa mais desconforto, mas ainda não entende bem o que se passa. Sabe que sente muita falta de seu pai.

De seus amigos mais íntimos, amizades que cultiva há mais de 15 anos, vez ou outra uma afirmação transborda com tom de maledicência: “O Henrique sempre foi gay. Só ele mesmo que não sabia!”.

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