Ser assumido é diferente de ser resolvido!


Recebi mais um e-mail interessante, de “BB”, que conta seu relato gay: tem 19 anos e sabe muito bem que gosta de pessoas do mesmo sexo. Porém, gosta de futebol, carros, esportes e, com muitos amigos homens e familiares próximos, vive o dilema de sair ou não do armário. Tem receio do que pode acontecer e, se dependesse dele, nunca assumiria, embora se ressinta por não ser totalmente íntimo das pessoas mais próximas por “esconder” o fato de sua homossexualidade. Assim, descrevo abaixo minha resposta a BB:

Olá “BB”!
Tudo bem?

O seu caso é um tanto comum dentre muitos gays que estão “dentro do armário”.

Você não precisa assumir abertamente para todas as pessoas. Ser assumido não quer dizer ser bem resolvido. De qualquer forma, aqueles que te consideram pela pessoa que é, ou seja, pelas suas virtudes, qualidades e até mesmo defeitos, não devem se distanciar pelo fato de você também ser gay. Ser gay é apenas uma “ponta” do que somos na totalidade. Uma ponta de nossa intimidade que nem sempre as pessoas precisam saber.

De qualquer forma, como dita os bons modos na amizade e nas relações familiares, é sempre bom as pessoas saberem da gente de maneira mais “integral”. É normal essa sensação ruim de não estar com ninguém e criar uma possível imagem de homossexualidade em seus grupos por estar sempre solteiro. Essa é uma das situações que acabamos enfrentando, fora outras que trazem constrangimento por, na maioria das vezes, não estarmos antenados no sexo oposto.

Eu me assumi sendo também um gay que não dá bandeira. Não creio que nenhum amigo se distanciou por esse motivo ou pelo menos, aqueles que se distanciaram, nunca deixaram isso claro. Amigos vêm e vão. A vida nos faz tomar rumos que ficam mais claros a medida que vamos crescendo. Naturalmente as pessoas vão seguindo seus caminhos: uns casando, outros viajando, e mais alguns seguindo por opções que as vezes não coincidem com as que escolhemos. Isso faz parte da vida, do processo de amadurecimento.

Já os pais, irmãos e parentes, mesmo que distantes, estão aí e vão existir sempre. Veja meu caso: meus pais e meu irmão sabem de mim e, assim, cada um pegou essa minha “ponta”, de ser gay, e fez de um jeito: minha mãe, depois de um ano de entendimento e reflexão compartilha hoje minha vida e meu namoro com muita naturalidade. Como se fosse “normal”, no padrão comum da sociedade. Meu irmão de imediato se assustou mas logo em seguida absorveu a ideia e convive com a minha realidade numa boa. Talvez nem pense muito a respeito, ao contrário de minha mãe que pensou bastante, e ambos vivem a minha realidade tranquilamente hoje. E por fim, e não menos importante (rs), meu pai sabe, tem dificuldade para estar mais próximo e ainda se incomoda depois de alguns anos. Hoje em dia está bem mais flexível que no passado, mas ainda não toca no assunto e evita enxergar que a minha homossexualidade é uma realidade. E normalmente ele se lembra disso quando se encontra com o meu namorado. Aos poucos ele vem se desbloqueando e espero que ele consiga!

Assim, BB, quero te dizer que as pessoas tem suas escolhas diante de um fato real. Cada um vai se comportar e se envolver na quantidade que lhes é confortável e seguro, assim como é para qualquer pessoa diante um fato. O mais importante, caso você tenha o interesse de – aos poucos – sair do armário é que você entenda que não é a nossa responsabilidade ou obrigação fazer as pessoas gostarem ou não dessa nossa “ponta”. Assim como também temos nossas escolhas para todas as coisas que a vida nos mostra ou oferece.

Ao mesmo tempo, se fulano ou cicrano reagem de maneira diferente do que esperamos, não devemos nos sentir culpados ou reponsáveis pela abertura ou limitação alheias.

É aí que digo que ser bem resolvido não quer dizer ser assumido. Ser bem resolvido é mais importante para você. Ser assumido acaba sendo mais importante para os outros que passam a ter a oportunidade de nos conhecer na totalidade, com boas impressões ou más. Ninguém é feliz sendo parcial para aqueles que queremos ter intimidade e vice-versa! Ser bem resolvido tem a ver com a nossa capacidade de dividir bem as coisas e conseguir conduzir as nossas vidas sem culpa. Aceitar a impressão do outro e correr o risco do julgamento sem nos preocupar demais é difícil mas esse esforço nos torna mais livres, mais maduros.

É claro que para isso é preciso tempo, vivência e consciência de si. Vá vivendo a sua vida, curtindo, mantendo suas boas amizades e seus familiares queridos por perto. Mas não deixe de refletir de vez em quando sobre esse ponto: “O mais bacana é ser bem resolvido antes do que ser assumido”.

Abraços!

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