Relato gay: serei tio!

Vez ou outra deixo de postar assuntos temáticos gays que a grande maioria dos usuários procura para informação ou orientação, e descrevo um pouco da minha vida que é gay, mas que também não é. Na verdade, “Minha Vida Gay” é um nome próprio para o blog, mas que é parcial. Parcial porque revela apenas uma parte do que sou, penso e conheço. A outra parte não tem nada a ver com ser gay. Mas o MVG veio para contextualizar os usuários, afinal, muitas vezes precisamos dar um conceito ou nome para aquilo que queremos mostrar.

O MVG já atinge a média de 100 visualizações por dia, o que contabiliza quase 3000 page views por mês. Acontece que esses números refletem uma realidade: nossa comunidade gay – particularmente masculina – é grande e pode ser ainda indecisa ou perdida, pode ter resistências próprias, pode ser muito bem assumida, pode ser bem ou mal resolvida e, acima de tudo, representa uma diversidade muito grande que está cada vez mais a vontade para buscar informações (que não sexo) na Internet. E quase posso afirmar que os gays, “quase-gays” ou “curiosos” que acessam o blog não são os mesmos que frequentam o meio GLS de São Paulo, ou melhor, a maioria que busca ter mais clareza sobre os temas daqui ainda não se ligaram muito bem nessa coisa toda de ser gay.

Deixando um pouquinho a humildade de lado, entendo que existam poucas ou pouquíssimas fontes de informação sobre temáticas gays na web, quando não sobre pornografia. Fontes com ideias, sugestões, dicas e relatos gays que representem uma realidade mais abrangente, menos esteriotipada ou limitada à assuntos sexuais. Existem muitos sites e blogs engraçados, que elevam as informações a um nível mais leve, dos maneirismos gays, das gírias e das brincadeiras. E existe o MVG – Minha Vida Gay – que as vezes brinca, mas na maioria das vezes fala sério e leva os usuários a refletirem sobre suas questões de maneira mais abrangente, buscando o desprendimento do auto-preconceito, apresentando referências mais reais, principalmente para aqueles que temem dar um pulo nas redondezas da Paulista ou da Rua Augusta durante a noite.

Por isso, quem acessa hoje o “Minha Vida Gay” não encontra casos ou histórias sobre “O sexo com meu amigo”. O que o usuário encontra por aqui são mais respostas para dúvidas quanto a homossexualidade, descritas e reescritas de maneiras diferentes, para a compreensão da maioria.

Mas também encontram assuntos que vão um pouco além da vida gay. Assuntos que abordam um pouco mais de quem sou, sem a necessidade direta de me auto-afirmar.

Assim, esse post, com grande introdução – mais como uma homenagem aos usuários do blog – vai narrar um pouco da minha experiência de ser “tio”.

Na verdade, meu irmão não será pai, mas serei “tio”…

Realto gay: serei tio!

Serei tio!

Como alguns devem ter lido por aqui, nos mais de 70 posts sobre a vida gay, sou formado em propaganda e marketing e tenho uma empresa há 11 anos. Tenho o hábito de dizer (ou pelo menos tinha e ainda penso) que as relações, sejam na família, com amigos ou equipe profissional devem ser curtidas como vinho: quanto mais tempo, melhor e mais autêntico.

Acontece que, para mim, relacionamento é isso mesmo: só o tempo de convívio que faz validar a autenticidade. Um amizade verdadeira e autêntica é aquela que, faz tanto tempo que existe – que já brigou, já fez as pazes e já cresceu junto – que mesmo que passe algum tempo sem ver, parece que foi ontem que viu pela última vez. Comigo é assim no campo da amizade, do relacionamento com as pessoas da minha equipe, com meus clientes e, obviamente, com a minha família que – por mais que a gente queira que suma as vezes – sempre estará lá dando um tchauzinho (rs).

Nesse contexto, a “R”, que trabalha comigo faz seis anos (e não é a que está mais tempo na pequena equipe), tem 26 anos e será mãe. Não será mãe daquele jeito ideal e planejado – que a gente idealiza para quem queremos ver crescer bem – mas se dependesse só de mim, teria o melhor suporte possível. E foi essa sensação que eu, gay, tive quando ela veio semana passada com essa novidade bombástica!

Bombástica poderia ser, se fosse uma compra meio excessiva, como ela fez em 2010: acabou comprando um carro, top de linha, símbolo de status, que consumiria praticamente toda a sobra de seu salário, e que tinha um desejo “monstruoso” por ter. Vi a “R” sofrer com esse carro, aconselhava e até discutia quando notava que ela vivia para manter esse “objeto de prazer”. Até que ela se rendeu a conselhos “dos mais velhos”, do seu chefe e tomou a atitude de se desfazer e ficar com um mais econômico e que não fosse motivo de aflição todos os meses.

Em 2010 e 2011 esse foi o martírio de “R”. E, em 2012, veio um filho, que pra mim tem todo um jeito de benção, mesmo que sem planejamento e, ao contrário do seu sonho juvenil pelo “carrão do status”, é algo que não tem como trocar ou voltar atrás (nem se cogita o aborto).

A “R” é competente no seu trabalho (embora tenha umas crises de esquecimento vez ou outra – rs) e, depois de 6 anos de convívio, é quase impossível não ter intimidade. No meu caso, além da intimidade, um instinto meio “paternal” costuma aflorar, não só por ela, como também pelas pessoas que eu crio algum sentimento. Esse instinto já me atrapalhou bastante no passado; tinha um “cheiro” de gostar de cuidar das pessoas mas, na verdade, tinha muito a ver com a aceitação máxima que precisava delas por ser gay e, assim, acabava inconscientemente me doando por elas em troca da própria aceitação.

Quanto a “R” ela está numa condição agora que não tem volta, a não ser que assumisse práticas que na realidade destruiriam uma vida e, no meu ponto de vista, isso seria um erro. Erro, independentemente de regras divinas ou de pensamentos tradicionais. Erro porque não se desfaz de uma vida como se fosse seu “carrão”, ou por ser um fato que nos condiciona à responsabilidades precoces e etc, etc, etc. Ela tem a condição de cuidar do filho, pode enxergar esse rebento como a oportunidade mais abençoada de crescer em alguns aspectos como mulher e, se tudo der certo com o pai, pode ter um apoio ao seu lado.

Nessa situação, o pai não necessariamente poderá ser fruto de alegrias e companheirismo garantido. Ambos tiveram esse filho sem planejar, são apenas 8 meses de namoro e, não se sabe quem é esse rapaz. O que sei é que conheço uma parte da “R” há seis anos, fui surpreendido com essa novidade, mas aposto fortemente que, a parte da “R” que não conheço (e que nem ela conhece) adquirirá uma oportunidade em formato de bebê para amadurecer e aprender a administrar todos os “departamentos” da vida, o que inclui trabalho! (viu, R?!) rs.

A menina “R”, que sempre foi precavida – mas menina – tem tudo para virar uma mulher madura. É questão de enxergar essa situação com esse olhar, o seu próprio olhar e não os dos outros. Olhares dos outros que costumamos dar tanta atenção quando somos meninos ou meninas.

No final, é quando assumimos o nosso próprio olhar que encontramos nossa felicidade. Nada tem a ver com status, aceitação ou sociedade. Tem a ver com tomar partido pela própria vida e seguir em frente, mesmo quando as escolhas não são propriamente escolhidas.

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