Cartunista Laerte Coutinho. Não tem tempo certo para ser gay

Antes de iniciar propriamente o post, devo fazer uma breve explicação sobre conceitos:

transexual é o homem que tem a vontade de assumir não somente trejeitos femininos, mas se vestir e adquirir um corpo feminino porque sua alma é feminina (o mesmo se aplica para as mulheres que tem uma alma de homem). Uma pessoa que representa bem a figura do transexual é a Roberta Close: tomou hormônios femininos, fez plástica para adquirir seios e seguiu todas as recomendações de especialistas para se tornar fisicamente uma mulher. O transexual, de maneira mais plena, é aquele que, em uma operação especializada, transforma a genitália masculina em feminina (e vice-versa). Em outras palavras, o transexual, quando tem interesse de assumir plenamente a imagem feminina, consegue por intermédio de procedimentos cirúrgicos específicos “transformar” o pênis em vagina. E para essa “transformação” já existem técnicas que conseguem manter toda a sensibilidade de prazer na região e a possibilidade de preservar o aparelho urinário, sem grandes transtornos;

drag queen é o performista, é o artista. Muitos homens assumem suas personagens vestidos, maquiados e “coloridos” para o trabalho, como um profissional de entretenimento, humor e diversão. Normalmente esses homens são gays mas só assumem o papel de drag queen para a perfomance. No dia-a-dia, se vestem sem ostentação, cores e maquiagens. Um exemplo clássico e respeitável é a Nany People;

– por fim, e não menos importante, existe o cross dresser que são heterossexuais ou gays que se vestem de mulher mas não tem o desejo de modificar o corpo. Quando um homem heterossexual brinca no carnaval e se veste de mulher, podemos chama-lo de cross dresser. E, no caso do cartunista Laerte, que se veste hoje a todo momento como mulher, se identifica como bissexual (ou gay), mas não tem interesse em modificar seu corpo, também conceituamos como cross dresser. Todos, de uma maneira geral, podem sim serem considerados gays.

Feita as devidas introduções, começo o post assim: tive a oportunidade de ver pelo You Tube a entrevista com o cartunista Laerte Coutinho no programa Roda Viva que aconteceu nesse carnaval. Primeiramente, a TV Cultura e o Programa Roda Viva são sinônimos de  qualidade de informação, e o que se tem mais próximo da imparcialidade que o jornalismo deve assumir. Assim, ver o Laerte ao centro da Roda é diferente de ve-lo, por exemplo, no Domingão do Faustão.

Aos 60 anos, “ex-casado”, pai e um dos cartunistas mais importantes, representante autêntico da cultura brasileira, vem desde 2010 assumindo a imagem do que denominamos cross dresser, como explicado acima. De 2012 para cá são apenas 2 anos e vejo um caminho longo de descobertas e realizações para o Laerte. Nunca fui um grande conhecedor do seu trabalho já que jornal, para mim, nunca foi meio para buscar informação. Mas sempre soube de nome a sua reputação na produção da cultura, informação e humor, em doses criativas, muitas vezes críticas de si mesmo e da sociedade.

E foi no programa Roda Viva que pude, pela primeira vez, ouvir o Laerte falar, se expor e apresentar pensamentos de uma maneira muito inteligente, clara e com uma simpatia de uma senhora de 60 anos em plena ascensão!

O Laerte, na questão da sexualidade tem um bom chão pela frente. Eu percorro essa minha vida gay faz 12 anos e, vira e mexe, descubro algo novo que me acrescenta. Fico imaginando o percurso que ele tem na vida, com toda uma maturidade dos 60 anos, e com uma energia ingênua de 18. É assim que senti a senhora Laerte em seus depoimentos no programa. Sou um sincero entusiasta, na torcida!

O Laerte faz parte do grupo ou de grupos de intelectuais brasileiros que ajudaram a formar o país que enxergamos hoje. Faz parte da intimidade das altas rodas de críticos e jornalistas da sociedade e, agora como cross dresser, é a oportunidade personificada desses grupos terem real acesso ao que chamo de diversidade, de maneira objetiva e evidente. Sim. O que o Laerte representa é a forma mais autêntica de uma categoria menor, e o que de certa forma o glorifica é o fato de ser um indivíduo que sabe se colocar, tem um talento natural para se expressar, tem uma carreira consolidada e que, depois de alguns minutos ouvindo seus relatos, eu já não reparava mais se era homem ou mulher: prevaleciam as ideias.

Recentemente assisti a “Dama de Ferro” com o fênomeno de atuação da Meryl Streep. Laerte como mulher é proporcional a Meryl Streep como Margareth Tatcher. A diferença definitiva é que o Laerte é uma realidade social, interlocutor assumido ou não de uma classe existente.

Expressado aqui o meu entusiasmo, da admiração que adquiri pela pessoa Laerte em apenas uma hora, um ponto que é interessante para refletir é que não existe um tempo certo para buscarmos e encontrarmos a nossa real sexualidade. O Laerte percorreu 60 anos para descobrir a sua mulher interior e lançar para fora. Eu caminhei 23 para me sentir mais pleno com 35. E uma média vai se definindo entre os 18 e 30 anos. Mas a grande coisa, que se comprova com esses fatos, é que a sexualidade é muito mais diversa e está ficando cada vez mais longe do modelo homem e mulher heterossexuais.

Isso, a princípio, pode soar assustador para os mais conservadores ou pouco informados. Mas o que fazer com um “Laerte da vida”, de competência, intelecto e de certo poder entre os “grandes grupos”, senão observa-lo, aprender a respeita-lo, para começar a entender o que vai além das caixinhas sociais?

Não, não acredito que ele faça tudo isso para elevar sua carreira porque, definitivamente, não precisa. Não, ele não faz isso meramente para chamar atenção, exercendo uma espécie de loucura que objetiva chocar. Por fim, essa história do Laerte querer usar o banheiro feminino e ser barrado é só um tipo bode expiatório. Deu no banheiro, mais uma vez, o limite entre o que a sociedade enxerga e o que ela só quer ver pelo buraquinho.

O “glory hole” está crescendo minha gente. E que bom – saudável – que seja assim! ;)

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