Como tirar um filho da vida gay?


Recentemente tenho recebido algumas visitas de usuários, pais, que me questionam como tirar o filho da vida gay. Antes de tudo, levanto a questão que a princípio parece óbvia: porque tirar o filho da vida gay? O que realmente pega nesse fato?

Pai é pai, mãe é mãe e a tendência, quando existe um relacionamento familiar em equilíbrio, é de pais vivendo suas fantasias e temores sobre o filho que começou a viver como gay. Penso que os receios permeiam alguns pontos:

– Ter um filho gay pode mexer com a moral do grupo social familiar, amigos próximos e parentes;
– As companhias, as gírias e os hábitos estão mudando. Não estou gostando do jeito que meu filho anda se comportando;
– Essa vida gay é de muita festa, manias e de uma vida noturna sem regras;
– Meu filho está sendo manipulado, sendo influenciado por más companhias;
– Não aceito que meu filho seja gay.

Ter um filho gay pode mexer com a moral do grupo social familiar, amigos e parentes
Se você que é pai ou mãe, anda refletindo a respeito de seu filho vivendo uma vida gay e o ponto que mais lhe preocupa é a aceitação ou a moral entre amigos ou familiares, entenda que esse pensamento é egoísta. É mais forte para você a imagem “cristalina” para o seu grupo social do que o bem estar a e resolução de seu filho. A fundo, se refletirmos em níveis de prioridades humanas, o bem estar da sua família deve prevalecer sob a satisfação e a realização de cada indivíduo do núcleo familiar. E o equilíbrio na relação entre pais e filhos não deveria depender da aceitação externa!

As companhias, as gírias e os hábitos do meu filho estão mudando. Não estou gostando do jeito que anda se comportando
Enquanto jovens, influências da tevê, artistas e músicos sempre tivemos ou sempre teremos. No campo da amizade, das coisas que acontecem da porta para fora de casa não seria diferente. Quem incentiva quem? Difícil de definir, não? Acontece só que nós, seres humanos, precisamos de referências e, certo ou errado, buscamos àquelas que mais nos identificamos ou que nos despertam alguma coisa, como a curiosidade. Aceitar que existe a influência do outro sobre seu filho é também aceitar que ele pode ser influenciável! E vice-versa! A velha história: “o que um não quer, dois não fazem”.

Essa vida gay é de muita festa, manias e de uma vida noturna sem regras
Ah vá! Só a vida gay? Então me explica o que são as baladas em Moema ou na Vila Madalena! Durante a noite existe de tudo. O quanto um indivíduo se deixa levar? Eu, por exemplo, tive uma imposição paterna de muitas restrições. Por outro lado, tive um olhar materno de “viver e saber dosar”. Muitas vezes acabei vivendo infringindo as regras paternas e não dosando muito, ao contrário de como aconselhou a mamãe. No final a dosagem entre personalidade individual e referências faz uma combinação exclusiva, de indivíduo para indivíduo. Acho bom você, pai ou mãe, ficar de coração tranquilo e confiar na base de educação que você transmitiu para seu filho! As pessoas não se tornam gays por falha na educação! Wake up!

Meu filho está sendo influenciado pelas más companhias
A gente tem uma (maldita) tendência de colocar responsabilidades das circunstâncias nas costas dos outros que na verdade é uma mania boba, confortável, de achar que sempre os outros que podem fazer “mal” para o rebento. Por um lado, esse pensamento faz algum sentido, na condição de pais para filhos. Por outro, chega um momento que somos responsáveis do jeitinho que somos, influenciados ou não. O quanto os outros influenciam, sendo que na verdade nos deixamos ser influenciados ou, as vezes, até precisamos ser influenciados para rompermos com os nossos paradigmas? E, se você pensa que um filho é gay por influência, alto lá! Curiosidades ou desejos estão dentro da gente, e não são os outros que nos impõem!

Não aceito que meu filho seja gay
Agora sim, esse pensamento é mais ponderado. Ter a vontade de tirar o filho da vida gay porque não o aceita como tal tem mais a ver com o que realmente está pegando do que qualquer uma dos temas acima. É óbvio que as preocupações paternal e maternal são válidas e necessárias na relação pais e filhos, mas não podem tirar pais do eixo da educação que foi e é transmitida. Seu filho pode estar vivendo uma fase de curiosidades sobre o universo gay apenas (caso raro) ou pode estar realmente se encontrando como homossexual (mais provável). Cito essas reflexões porque a questão da sexualidade é algo bastante complexa e, as vezes, o processo para se encontrar bem resolvido com a sexualidade pode durar a vida inteira. Quem transita na vida gay e volta a heterossexualidade mostra uma boa abertura de mente, que se permite ter experiências que vão além das regras sociais óbvias. Conheço um ou dois casos assim que me levam a crer num futuro cada vez mais bissexual como processo de amadurecimento social e humano. Mas a grande verdade é que, na maioria das vezes, não é possível uma pessoa sair da vida gay depois que entra. Não porque a vida gay é incrivelmente mais atraente do que a heterossexual! Isso é uma bobagem que muitos gays gostam de sair falando ao vento. Mas quem entra, e entra porque tem vontade, normalmente já é gay. Hoje, pensar em tirar um filho da vida gay é o mesmo que forçar uma privação, de viver uma vida tristemente parcial.

Desculpem, pais, se essas colocações mexem com suas expectativas e valores. Mas a verdade é um pouco mais crua: na grande maioria das vezes, e por enquanto – ainda que a nossa sociedade brasileira respire os ares da heterossexualidade e do machismo – não tem como tirar o filho da vida gay. Mas tem como um filho escolher o quanto entra, ou se entra.

No geral não pense em tirar seu filho “dessa vidinha”. Pense em se incluir na vida gay que é dele e que você só poderá exercer sua função plena, de pai ou mãe, se encarar. Do contrário, o relacionamento parcial pode ser a sua escolha. Muitos pais fazem vistas grossas. Mas essa miopia é também uma opção que pode durar a sua vida toda.

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