Vida gay depois dos 30 anos – continuação

Dizem que a vida de todos começa a mudar aos 27 anos, com o retorno de Saturno, momento que passamos a assumir a vida adulta, a busca pela maturidade, entre outras particularidades. Sei que a minha virada foi aos 32 anos e faz somente cinco anos que estou na casa dos trinta! (rs) Ou seja, não sei se sou referência para todos que atingiram essa idade (muito provavelmente não), mas faço aniversário esse mês e muita coisa mudou dos meus 32 para hoje. Quero compartilhar.

Quando completei 33 anos, fiz uma grande festa, como uma tradição que vinha há 5 anos. Naquela época já estava com meu namorado e, num feito meio louco, meio de auto-afirmação (para os outros), meio de fechamento de ciclo (para mim), consegui reunir todos meus ex-namorados na mesma festa, alguns solteiros, outros trazendo seus respectivos companheiros, amigos, amigos distantes, e o clima de bem estar prevaleceu de começo ao fim.

Para contextualizar: minhas festas sempre foram regadas de bebidas e comidas na faixa. Bebidas do tipo Absolut, Red Label, cerveja, refrigerantes e comidas do tipo sanduíche de metro, salgadinhos e doces. A sala da casa virava balada e a festa sempre ia das 19h as 3 horas da manhã. Já chegou até a amanhecer.

Essa grande festa representou para mim um momento muito especial. Reunir meus amigos, incluindo meus ex-namorados, não significava algo de auto-afirmação, embora tenha parecido isso. Revendo hoje, foi realmente um fechamento de um ciclo. Por algum motivo, depois dessa festa, não tive mais o entusiasmo de promover outras e seguiu assim até então. No dia 29 de março, agora, completarei 35 anos e o que mais quero é sair para jantar com meu namorado, ter os parabéns dos meus pais e irmão, curtir os montes de posts no Facebook e só.

Acredito que tudo isso tenha a ver com espiritualidade, ciclos da vida e algo que vem inconsciente para depois ficar consciente. E foi assim com meu aniversário dos 33 anos, “idade de Cristo”, quando fiz a melhor festa da minha vida, achando que no ano seguinte viria outra do mesmo tamanho, mas que naturalmente não veio.

Comecei então meus 30 anos com 33 (rs). E de lá para cá, mudanças dentro de mim vem acontecendo.

Conscientemente superei algumas inseguranças que me deixavam com um ciúmes tremendo de meus namorados que algumas vezes vinha de maneira enrustida e eu não percebia que era ciúmes. In other words, passei a me conhecer melhor.

Parei de gastar com roupas, tênis e calças, por exemplo. Sempre tive uma vaidade, mas, nos últimos anos comprei tantas roupas que até hoje elas me suprem (rs).

Entrei numa onda de focar bastante no trabalho, no meu crescimento profissional e no crescimento daqueles que me seguem.

Perdi uma coisa da auto-afirmação, de enaltecer o meu ego, de querer ver e ser visto, do status material. Parei também de me auto-afirmar com referências dos outros, do tipo comparar que sou assim em relação a assado e querendo dizer que sou melhor! (rs).

Continuo com a minha terapia, ao todo são oito anos, com uma pausa de três anos.

Meu namoro passa dos dois anos. Passou a fase de apaixonite aguda do primeiro ano, aquela vontade extrema de estar junto, de querer fazer coisas juntos, de querer se envolver com tudo e se assegurar que a pessoa vale a pena e está por mim na proporção que estou para ele. Realmente, quando a gente começa um namoro, parece que tudo que era prioridade deixa de ser e, estar com a pessoa é o interesse maior. Não é à toa que nem todo mundo banca essa situação; muita gente tem medo de acabar focando em alguém e perder as prioridades individuais. Outros já preferem viver a apaixonite a toda hora e, quando acaba, abrem mão do relacionamento. Pois bem, passei pela fase intensa junto com meu namorado, não desisti da relação quando o começo acabou e agora voltei ao meu centro. O namorado reclama, vez ou outra, de uma atenção como antigamente. Mas ele mesmo sabe que jovens como somos, como ele é, precisamos focar em estudos, crescimento profissional e ter a segurança que estamos um para o outro para quando precisar, mas não mais um para o outro a toda hora. Vivemos essa transição, superamos as mudanças e, provavelmente, estamos entrando nessa nova frequência, na qual a relação exige menos todos os dias, mas acompanha um ao outro lado-a-lado. Não sei se esse é o ideal, mas não teria como ser diferente porque assim estamos em paz.

Não tenho mais necessidade de exibir com quem estou namorando ou afirmar que estou com alguém. Muito menos ficar contabilizando as pessoas se estou solteiro.

Gosto de cuidar da minha casa, da companhia dos meus cachorros e, ativo como sou, gosto de estar com os amigos e família nos finais de semana. Alguns amigos se distanciaram bastante e não estou com aquela preocupação adolescente do medo dos amigos estarem longe. Alguns cobram ou até fazem birra, mas não me incomodo. Para mim ficou assim: amizade real é aquela que, mesmo que distante por anos, quando se reencontra parece que foi ontem que vimos pela última vez. E essa ideia de amizade já expressei em outro post.

Nunca fui tão ligado em seriados de tevê. Não assisti um capítulo sequer de Lost e agora, pelo Netflix, estou assistindo todos, um atrás do outro! (rs)

Vez ou outra ligo meus videogames para brincar. Zerei os três “Uncharted” em um mês.

Continuo adorando sair para almoçar ou jantar. Adoro gastronomia.

Acontece que, com meus 33 anos aceitei que não tenho mais 23. Foi difícil, processual e tive que ter certeza que não queria mais os 23 na minha vida.

A sensação é que brota em mim uma outra pessoa, ou melhor, meus interesses e vontades estão focadas em outras coisas agora. Ou ainda, hoje tenho mais foco na vida e mais paz no coração para cuidar do que realmente é prioritário: eu mesmo. Antes, havia muita doação para os outros, querendo uma aceitação, querendo suprir carências e, consequentemente, querendo os outros doando-se para mim. E muitas vezes era frustrante porque, geralmente, as pessoas querem mas não entendem o que você quer ou da maneira que você espera. E esse é um modelo bobo, jovem! (rs).

Havia muito uma coisa de ser cobiçado, de ser querido e de ser aceito. Havia a vontade de ter, de conquistar e, hoje, me parece mais que o verbo “manter” faz mais sentido.

Não tenho a mínima vontade ou estilo de ser um cara de 35 anos vestido como de 20. Me dá uma preguiça enorme em pensar nas pessoas de 35 que, além de se vestir, se comportam como alguém de 20! Estou feliz com o meu momento e espero estar nessa sintonia com os 40, 50 e 60 anos.

Com 35 anos passei a acreditar que até os 68 anos dá para gerar muita coisa no trabalho. A partir daí, se a natureza quiser, devo frear, curtir viagens anuais longas, fotografar bastante, cuidar da saúde, estar ao lado das pessoas que ficaram e que amo, e preservar a alma.

Descobri que sou menos gay do que imaginava. Para que as pessoas não entendam errado: descobri que ser gay é uma parte tão pequena, mas tão pequena de mim, que não lembro mais porque eu fazia disso algo tão grande!

Descobri que, quando não tiver tempo para pensar em inferno astral, é porque você está bem! (rs)

Fiquei um tanto crítico e consciente das minhas experiências. Fiquei com uma vontade de “por para fora” as vivências de ontem e de hoje, para que outras pessoas peguem como referência se quiser. Fato é que o MVG foi criado.

O bom de se chegar aos 35 anos é saber que tudo que você quiser dos 18, 23 ou 28 você pode levar. O bom é chegar aos 35 anos com uma jovialidade, sem se vestir ou se comportar como alguém de 23, sem precisar ter a necessidade de ser querido por todos, mas com esse desejo e satisfação de estar vivendo.

9 comentários Adicione o seu

  1. Bruno disse:

    Nossa… me identifiquei bastante com algumas coisas. Obrigado pelas dicas rsrs

  2. Oziel disse:

    meu namorado tem quarenta anos, e eu 19, amo ele de mais e as vezes eu sinto que ele não tá nem ai pra mim, mas lendo esse texto comecei a compreender o lado dele melhor. pois o que eu sinto nada mais é do que uma pequena insegurança de uma pessoa mais jovem. obrigado

  3. Neto disse:

    Será que foi eu que escrevi esse texto e não lembro? Super me identifiquei. Tenho 30 anos, recém completados. Tive uma crise de idade aos 25 (acreditem!!). Mas os 30 tem seus ônus.

    1. Neto disse:

      ** tem seus bônus

  4. Neto disse:

    Será que foi eu que escrevi esse texto e não lembro? Super me identifiquei. Tenho 30 anos, recém completados. Tive uma crise de idade aos 25 (acreditem!!). Mas os 30 tem seus bônus.

  5. Estou com 32 anos completados em 16 de agosto de 2015, e passei de assexual completo para gay, e após alguns anos de terapia e uma desilusão me vi de ponta a cabeça. Não vou negar que gostaria de conhecer alguém descente e que me valorize, pois não preciso que alguém me faça sentir velho de uma forma ruim. enfim, estou livre, leve e responsável pelo que sinto e quero… o ser “solto” pertence a uma idade que não é mais minha: 18 / 20 anos…

  6. Leo disse:

    Legal mesmo o post do colega. Agora em maio de 2016 completo 35 anos.Não sou assumido para a família apesar da grande desconfiança, o que importa é ser feliz independente de ser assumido ou não. Estou recomeçando a vida depois de muito investimento na vida pessoal e profissional. Voltei a morar com a família depois de 7 anos casado com outro homem. Mudei de cidade para viver um grande amor, arrisquei e me sinto confortável por ter feito a minha vontade sem pensar nos que os outros iriam pensar de mim. Enfim, casamento encerrado, vida nova, e bola pra frente, a mensagem que deixo é a seguinte: Não deixem de arriscar, a vida é para ser vivida e não idealizada. Se não der certo, Start Over, amor próprio é o mais importante para viver novas paixões!!! Abraçosss

  7. Marcos disse:

    Verdade Leo…
    Bacana sua história.
    O mais importante é viver a vida e arriscar quando acharmos que vale a pena.

  8. Leo Pereira disse:

    que delicia de texto!

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