Relato – O caso de André

Mais um caso bastante interessante é o do “André”, que correspondeu com o MVG pelo queroumtoque@mail.com. O André fala de sua diferença física, das sensações que tem por ser “diferente” ao que lhe parece “comum” e, mesmo não sendo gay, seus grupos sociais tratam como se ele fosse, as vezes. Complicado essa situação de alguém que não é, que sente isso no íntimo, que não tem atração por outro do mesmo sexo mas que, de repente, se vê forçado pelos grupos sociais a definir um tipo de reconhecimento! Acontece, queridos leitores, que todos nós temos as nossas buscas e as nossas questões, dentro ou fora do assunto da sexualidade. A nossa busca pessoal, certamente, é um dos fatores que nos torna semelhantes e a diversidade é definitivamente algo que dignifica a própria humanidade.

André:

“Caro blogueiro,

Estou passando por uma fase difícil e gostaria que lesse minha história e me dissesse o que pensa a respeito. Tenho 22 anos, estou na faculdade e ando meio confuso. Sou virgem e nunca beijei. Só vejo filmes pornográficos héteros (incluindo os que têm só mulheres) e gosto. Apesar de nunca ter “ficado”, sempre tive interesse pelo sexo oposto desde a infância (sempre ficava de olho nessa ou naquela menina). Sou bastante introvertido e demoro para fazer amizades.

Alguns amigos dizem que pareço gay. Outros acham que eu sou mesmo (hahaha)! De qualquer modo, não o fazem por maldade ou pra me magoar. De uns tempos pra cá, percebi que minha aparência física é um tanto andrógina, infantil até, e isso deve ter tido alguma influência. Quer dizer, não aparento a idade que tenho e, ao mesmo tempo, meu rosto parece “feminino”. É como se eu tivesse parado no tempo e não fosse ainda um adulto. Acho que não tenho nenhum trejeito estereotipado ou algo assim (não que isso seja relevante).

De certo modo, sempre achei que tinha algo de diferente dos outros na escola, mas não sabia o quê (ainda não sei). Quando criança eu era quieto e isolado (o “esquisito” da turma, apesar de ter alguns amigos) e ainda sou um pouco assim. Mudei de escola no colegial e essa foi uma época de extremos: fiz muitas amizades e, ao mesmo tempo, sofri bullying por “ter cara de gay”.

Não sei o que eu sou! Aliás, nunca tinha precisado definir. A única coisa que sei é que me sinto atraído por mulheres, nunca me senti atraído por homens.

Pode parecer exagero, mas procurei por disfunções hormonais e doenças genéticas que possam ter moldado minha aparência. Fui ao médico e não obtive respostas conclusivas (aparentemente, nada errado com meus hormônios, mas não fui ver se tenho alguma doença genética porque não faço ideia de qual médico procurar para ver isso).

Será que estou “me enganando”? Que sou gay ou bi? Se for o caso, como é que eu vou saber (já que fui enganado hahah)? Como disse, sempre me senti “diferente”, mas não acho que isso diz respeito a minha sexualidade.

Algumas perguntas bizarras: você chegou a “gostar mesmo” de alguma garota na adolescência/juventude? Quer dizer, um gay pode se sentir atraído por uma mulher (antes de se definir ou mesmo depois)?

E você acha que existe algo físico que diga que certa pessoa é gay?

Recentemente, fui rejeitado por uma garota (ela agora me evita) e isso me deixou bem mal. Além disso, continuo sofrendo preconceito às vezes e nem sei se sou gay (acho que não sou, mas minha aparência me torna alvo do mesmo jeito). Faço terapia, mas não tem ajudado muito. Concluí que tenho algumas coisas em comum com homossexuais, como o histórico de vida e talvez a aparência. Até algumas coisas menos relevantes (por exemplo, sou canhoto, o que “aumentaria” as chances de eu ser gay). Mas gosto de mulher.

Se o sr. leu até aqui, obrigado por aguentar toda essa lamentação. Não conheço nenhum homossexual para me esclarecer dúvidas. Por fim, queria dizer que o blog é bem legal. Aguardo a resposta”.

MVG:

“Olá André! Tudo bem?

Muito interessante o seu relato. Na realidade, um exemplo de como a diversidade se faz presente entre nós.

Como comentei em alguns posts, não sou psicólogo mas tenho algumas vivências e percepções. Vou comentar um pouco de todos os pontos para tentar te ajudar a dar uma luz. Sinta-se a vontade para ir se correspondendo se achar necessário.

Um primeiro ponto que me chama atenção é que no começo do seu relato você diz que ainda não beijou, nem transou. Curiosa essa timidez, ou melhor, algo me diz que isso possa ter a ver com baixa autoestima, de você não “botar fé” na sua aparência e, com isso, talvez você não se sinta capaz de seduzir alguém do seu interesse, paquerar e xavecar. Medo da rejeição, medo da chacota pela aparência, e isso pode ser seu maior bloqueio, uma sensação muito grande de ser inferior, não ser atraente ou de ser desinteressante em relação aos padrões estéticos que, na sua cabeça, atraem as meninas. O primeiro toque que te dou é que você se perceba de uma maneira mais ampla! Não se condene ou se limite tão fortemente a estética. Você me parece ser alguém bastante inteligente, consegue organizar bem as suas ideias que se percebe no seu texto, dentre outras qualidades que você deve avaliar, valorizar e acreditar. No momento que você me diz se perceber atraído exclusivamente por mulheres e afirma isso com certeza, muito provavelmente você não é gay. Nós gays, dos mais enrustidos aos mais assumidos, sabemos em nossa intimidade, no silêncio do quarto e com o “diálogo íntimo com o travesseiro” quando existe realmente algum tipo de atração por homens, pelo físico, pelo desejo e fantasias de um corpo masculino.

A sociedade, nessa pós adolescência, é muito complicada. Amigos de vinte e poucos anos como você estão vivendo a louca realidade dos hormônios, da “transformação” de crianças para adultos e, pode ter certeza que os seus amigos que desconfiam ou que afirmam que você é também vivem seus dilemas e suas questões relacionadas a formação de sexualidade. Não estou insinuando que eles sejam gays! Mas a descoberta da sexualidade que acontece durante um longo período é complicado para heterossexuais também. A voz muda, nascem pêlos, é uma mistura de criança com homem, é o tesão borbulhando, é saber como chegar numa menina, é a auto-afirmação coletiva da masculinidade nos grupinhos de moleques e assim vai. Nada fácil. Portanto, não se incomode tanto com as opiniões externas a você porque está todo mundo meio confuso também. De oportunidade para a “vozinha” que fala dentro de você, que aponta para o que você realmente acredita. Não tem como a gente ser gay porque os outros dizem! (RISOS). Quando você diz que você sempre se sentiu diferente da turma, é como você se enxerga ou como os outros dizem? Será que você é realmente tão diferente? Será que timidez e introspecção não podem ser características comuns da sua personalidade com 22 anos e de outras centenas de milhares de pessoas? Não é isso que te faz diferente. Diferente acaba sendo se você realmente acredita nisso. Você reforça que sente atração por mulheres e, se isso for honesto e verdadeiro para você, mesmo com uma aparência do tipo “Boone do Lost”, “Do vampirão do Crepúsculo”, você é heterossexual.

Existem gays que se atraem por homens com traços delicados, “meio andrógino”. Mas tem gays que não gostam mesmo! E o mesmo ocorre com mulheres. Será que só homens com jeitão de “Wolverine” se dão bem? Claro que não! Se dão bem aqueles que sabem valorizar o “conjunto da obra”. Em outras palavras, se dão bem aqueles que estão felizes “70%” com o que são na totalidade: físico, personalidade, qualidades e defeitos também.

Sobre a sua dúvida de um gay poder se sentir atraído por uma mulher no começo ou em alguns períodos, a resposta é sim! Mas isso não tem relação com nenhum dos assuntos que comentei acima até agora. Parte dos meus ex-namorados tiveram relacionamentos com meninas antes de experimentar com homens; um deles chegou até a namorar uma menina por mais de um ano. No meu caso já fui direto para o pinto que pra mim era certo (RISOS). Mas eles, em seus relatos, diziam que existia uma atração, mas que com homens descobriram algo a mais. Quando se é adolescente ou com 20 e poucos anos, e se você não tem uma clareza natural na cabeça, não é de se estranhar que os meninos se sintam atraídos até por uma parede no exercício dos hormônios (rs). Então, costumo dizer que, muitos gays começam a vida como heterossexuais porque tem a necessidade de extravasar os desejos sexuais e o caminho lógico-social são meninos transando meninas e vice-versa. Mas eles já desconfiavam que homens lhes soavam interessantes também!

Por fim, “André”, busque separar bem o que os outros te dizem, o que o externo te sugere ou até mesmo impõe na base da piada-pressão, com o que você sente por dentro, na sua intimidade e nas suas convicções. Esse é o primeiro exercício.

Ao mesmo tempo, veja e reveja o quanto você não anda encanado com a estética (que também sofre influência da “pressão” externa) que é apenas um dos aspectos da totalidade de um indivíduo. Se você acha muitíssimo importante a aparência, provavelmente não dá muito espaço as suas outras características: personalidade, intelecto, aptidões.

Por fim, o “Senhor está no céu”! Tenho 35 anos, poxa vida! rs. Obrigado pela apreciação do blog e por trazer seu caso. Certamente ampliou meu conhecimento da diversidade das pessoas, de suas questões e dilemas.

4 comentários Adicione o seu

  1. Anderson disse:

    Apesar de ser somente uma questão de nomenclatura, este não é um relato gay, risos. O “André” não me parece homossexual, afinal, se nunca sentiu atração por outros homens, não cumpre o único quesito que o classificaria como tal.

    Acho apenas que ele vive uma fase turbulenta quanto ao reconhecimento e aceitação do próprio corpo. Apesar de ter consciência disso, passo por um problema similar que espero logo me livrar. Não me aceito exatamente como sou e ocasionalmente me vejo como o pior, o inferior, o dispensável.

    “André”, reflita até onde seu corpo interfere no seu espírito e atrapalha seus desejos, homossexuais ou não. Lute para sentir-se bem, mas não cuide só da aparência: o mais importante é mesmo cuidar do que não se vê por fora. Talvez seja curioso receber um conselho de alguém que viva algo paralelo, mas este é o caminho para a tranquilidade que espero trilhar de agora em diante.

    Ah, o correto é “androginia” e “andrógino”. O sufixo “-genia” remete à genética, aos genes.

    1. minhavidagay disse:

      Bem lembrado, Anderson!
      Intitulei “Relato gay” pelo hábito, e está agora corrigido. O caso do André não é gay, mas não deixa de ser um relato muito interessante para constar aqui no MVG.

      Sobre a correta maneira de escrever “androginia”, muito obrigado! Está corrigido! :)

  2. Anderson disse:

    Que tal inaugurar a seção ”Relato hétero”? Risos!

    Brincadeiras à parte, seria muito útil aos não-homossexuais exporem no MVG suas impressões sobre os gays em geral, pois tenho certeza de que seria muito enriquecedor a todos, independentemente da sexualidade. ;)

    Sucesso!

    1. minhavidagay disse:

      Oi Anderson!
      Certamente seria bastante enriquecedor. Vamos ver se os heterossexuais se sentem a vontade para deixar alguns registros e se de repente os tipos de assunto que aparecem aqui no MVG os fazem achar o blog para que eles se sintam motivados a deixar relatos.

      Abraço! :)

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