Homens gays podem ter relacionamentos heterossexuais?


Ontem recebi um comentário no post “Como saber se o meu amigo é gay” de uma mulher heterossexual. Antes então de continuar esse post, quero dizer que fiquei bastante feliz por uma mulher estar consultando os textos que deixo por aqui. O MVG tem uma responsabilidade com os gays, sim, mas também funciona para qualquer outra pessoa, pais e mães, amigos e amigas, primos e assim por diante, que queiram entender um pouco mais do universo gay.

A leitora levantou um tema bastante interessante: “É possível homens gays terem relacionamentos heterossexuais”?

A resposta está diretamente relacionada com o “poder da diversidade”. Diversidade em níveis sexuais e afetivos. No nível da sexualidade existem sadomasoquistas, gente que gosta de sexo com animais, gente que tem tara por pés, e muitos outros gostos que acabam se espalhando nos links pela Internet e na vida real. Os desejos humanos, as vezes, são bem esquisitos! Mas quem sou eu para contestar as vontades alheias?

No nível das afetividades é muito possível um gay homem ter um relacionamento com uma mulher e vou contar como:

Lembrei da história de um ex-namorado. Namoramos um pouco mais de um ano, ou quase um ano e meio, e numa “entre-safra” entre namoros com homens meu ex-namorado teve um relacionamento de um ano com uma mulher. Existia prazer no sexo, mas não tanto quanto com homem. E existia afetividade e intimidade, e se bobear, até mais que com um homem.

Acontece que o ser masculino, heterossexual ou homossexual, pela cultura ocidental (e em alguns casos oriental também) aplicada há milênios sempre colocou o homem na condição de “pedra”, de reprimir sentimentalidades e de buscar o racional para resolver seus problemas. O resultado é um ser masculino mais frio, ou mais fechado, ou menos desenvolvido quando o assunto é abrir a intimidade para outra pessoa. A exemplo disso tem meu irmão, filho da mesma educação que a minha, mas quando a conversa na hora da janta era sobre valores humanos – humanidades – e sentimentos, não participava. O mesmo acontece até hoje com meu pai.

Parece que homem não deve, não pode ou não sabe falar sobre algumas delicadezas da vida, das nuances do ser humano. E, consequentemente, não sabe expor a intimidade, lugar onde mora também as fragilidades (e todo mundo tem fragilidade). Assim, como é que dois gays conseguem se relacionar intimamente? Normalmente é complicado, as vezes é competição. Porque gay ou não, a figura masculina sempre foi educada a omitir sentimentos e questões mais íntimas. Talvez esteja aí um dos motivos do gay ter TAMANHA dificuldade em se aprofundar em um relacionamento mais sério. Talvez esteja aí um dos motivos do gay enrustido ter TAMANHA dificuldade de encontrar seus caminhos como homossexual “pleno”. Talvez esteja aí um dos motivos da mulher reclamar TANTO da dificuldade que tem em abrir questões com o marido, que se esquiva ou deixa o problema passar aparentemente sem resolver.

Essa coisa do homem-pedra acaba sendo uma regra no homem-com-homem e no homem-com-mulher. Regra porque, como comentado no começo do post, é uma tendência que se segue a milênios! O homem acaba não sabendo como fazer diferente, não se deixa evoluir nessa parte porque para evoluir, precisa exercitar!

Mas, como já diria o clichê, “toda regra tem uma exceção”. E assim, existem aqueles homens heterossexuais que praticam, que não tem bloqueios sobre as sentimentalidades e que conseguem abrir a intimidade com uma mulher. Esse, provavelmente, é um daqueles homens mais cobiçados do mundo! Que não é só beleza ou charme. É o homem que se permite entender.

Tem o gay que busca essa intimidade com outro homem. E quando se depara com outro homem se fecha ou se escancara. Quando se fecha, de duas pedras não se faz nada. Quando se escancara, assusta. Difícil encontrar a medida!

E tem o gay que, rendido pelas dificuldades de manter um relacionamento fiel e duradouro com outro homem, encontra numa amiga ou em uma colega de trabalho a grande possibilidade. Não digo a possibilidade do sexo, que até rola, que pode ser gostosinho e cobrir calculadamente a mulher de prazer. Falo da intimidade, onde mora a sentimentalidade e a fragilidade do homem. Homem gay e mulher conseguem se complentar “espiritualmente” ou num nível mais sublime, menos carnal, onde – de novo – mora os sentimentos mais profundos.

Daí sim, homens gays podem ter relacionamentos heterossexuais. Mas é um fragmento, que até pode durar um ano ou um pouco mais (de acordo com a relatividade do tempo). Até que o cansaço pela busca do homem homossexual passe, o desejo aflore e PÉ-NA-BUNDA. Gentilmente, pé na bunda da mulher que supriu uma parte.

E está aí, o homem gay, buscando ser pleno de novo com a sua homo-cara-metade!

4 comentários Adicione o seu

  1. Sou heterossexual e mulher, mas sou apaixonada por meus amigos e familiares gays. Adoro ler sobre o assunto e achei sua matéria muito inteligente, delicada e bastante focada na realidade. Parabéns pelo blog

  2. Prika disse:

    O texto é antigo, mas minha curiosidade é recente. Entendo essa complementaridade entre homem e mulher, e isso independente da orientação sexual. Estou em uma sinuca de bico. Apaixonada por um “gay”. Ele, casado há 19 anos com outro homem. E eu, correspondida por ele na paixão na mesma medida.

    A tríade amorosa perfeita: um homem bi (ele, meu dono), um gay (o companheiro dele) e uma mulher hetero (eu). Para mim, tem tudo para dar certo, pois os três se complementam. Não exijo e nem quero exclusividade, pois meus fetiches por dois homens podem ser deliciosamente concretizados em nossa relação. Não tenho ciúme do companheiro dele assim como ele também não tem de mim. O que ele tem a oferecer são prazeres diferentes dos meus. Na verdade, nos completamos. Eu ofereço, aquilo que ele não têm, e ele, o que não posso dar como mulher.

    Então, fico pensando que a probabilidade do pé na bunda está reduzida, pois somos um trio que se completa pela diferença. Ele, meu dono, nos une (a mim e ao companheiro dele). E nos oferece o que há de melhor. Assim como nós oferecemos o nosso melhor para que ele seja completo em seu prazer, tendo, ao mesmo tempo, o amor e o fervor de uma mulher e de um homem.

    Louco, não?

    Então, o que você acha? Sem poupar esporros e sem romantismos, pls. :)

    P.S. Eu o chamo de meu dono, pois vivemos uma relação BDSM. Nosso encontro fatal será, enfim, em duas semanas.

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