Relato gay – a chegada dos 35 anos da vida de um homossexual


Dia 29 de Março de 2012 estou completando meus 35 anos. Não digo que essa idade é um marco na vida já que sinto que entrei num novo ciclo aos 33 anos, há dois anos. Mas, de qualquer forma, vale um post com reflexões do que é ser gay nessa idade, que é diferente, mexe com a gente e, no meu caso, me coloca como um gay socialmente estabelecido, resolvido, emancipado e sem sombra de dúvidas, gay para mim e para meus grupos.

Para o homossexual, a chegada de uma fase de mais maturidade ou o fim da adolescência nem sempre são vistos com bons olhos. Muitos gays parecem ter a necessidade de viver uma juventude ou uma adolescência para toda a vida e tem um temor da idade que é inevitável. Posso dizer que fui fervido sim, agitado, no auge dos meus 32 anos, idade que realizei a grande maioria de meus desejos e fantasias , sexuais e comportamentais, que reprimi quando adolescente. Aos 32 vivi tudo que tinha direito e o que é melhor: com o meu dinheiro no bolso, já alguns anos morando sozinho e com a obrigação de dar satisfação apenas para “me, myself and I“. Foi nessa época que depois das 19h horas, de quarta a domingo já estava na rua, como bem relatei no post “Do céu ao inferno” que sempre que releio me enche de boas lembranças.

Quando completei 33 anos, e como comentei por aqui em algum post, fiz uma grande festa que reuniu meus ex-namorados (todos), alguns acompanhados e outros não, amigos próximos, muitas amizades gays que havia feito no ano anterior, pessoal da empresa, e alguns amigos que não via há mais de cinco ou mais anos. A casa ficou cheia, e deviam ser uns 50 convidados. Essa foi a última festa de um período de cinco outras anteriores do mesmo estilo: casa repleta de gente, música, e bebidas e comidas por conta do aniversariante. Começavam as 19h e costumavam terminar no mínimo as 3h da matina.

As festas e principalmente a última eram celebrações cheias de significados para mim. Reunir em um mesmo momento pessoas de universos diferentes, materializando assim a prática da diversidade, me enchia de satisfação. Amigos do colegial que conheço há mais de 20 anos, amigos da faculdade de comunicação social, amigos que me acompanham no trabalho há mais de dez anos, ex-sócios e parceiros, vizinhos, amigos gays e ex-namorados dividindo o mesmo espaço para celebrar um “bem em comum” (eu), foi realmente gratificante. Fora o fato de receber muitos presentes, já que eu bancava a festa inteira.

Foi assim dos meus 28 anos até os 33. Cinco ou seis anos que, uma vez por ano, celebrava o meu ego dessa maneira repleta, com muita bebida, algumas baixarias e muita diversão.

Ficava entusiasmado em saber que eu, gay, era capaz de agregar pessoas tão diferentes e coletivizar o bem estar daquelas celebrações.

Até os meus 33 anos estava me formando como um indivíduo adulto. Já tinha passado por três experiências de namoro e um casamento de praticamente três anos. Comecei a minha empresa com 23 e com os 33 poderia dizer que essa “filha” estava realmente se consolidando.

Tinha ainda muitas questões para resolver com meu pai, de enxergar e aceitar as diferenças, as semelhanças, das inseguranças de um pai para com seu filho mais velho e das minhas inseguranças de um filho não compreendido pelo pai. De conseguirmos esforçadamente entender que os caminhos escolhidos por um e por outro não significavam ser um contra o outro.

Tinha o meu bloqueio de me limitar em ser somente ativo na cama, coisa que aos poucos fui resolvendo nesses períodos e percebendo que o “ser somente ativo” estava amarrado à questões mal resolvidas que nem se quer imaginava que poderia ter alguma relação.

Tinha ainda um gasto de energia com determinadas bobagens: de precisar me auto-afirmar em outras pessoas para afirmar que eu tinha razão ou era mais capacitado.

Tinha um tipo de “formigamento”, da forte libido, dos hormônios ainda gritando e da vontade de estar namorando, mas também estar transando outros corpos, corpos idealizados. Embora nunca tivesse traído nenhum dos meus relacionamentos, hoje tenho consciência que a minha cabeça estava assim ainda.

Eu era uma pessoa que não controlava facilmente os extremos do meu temperamento. Muito alegre mas também muito agressivo quando algo ou alguém me ofendia. Os meus idealismos eram confusos e, apesar de ser uma pessoa idealista, não sabia quando um ideal vinha como um escudo contra os meus medos ou como ideal de fato.

E no fundo, até chegar aos meus 33 anos eu era tudo ou mais um pouco de jovem gay que estava virando homem. Muito do que a gente vê e sente por aí. Muitíssimo do que leio nos posts e e-mails aqui no MVG.

Com os meus 34 anos passei a perceber que essa história de ciclos de vida realmente acontecem. E, no meu caso, foi bem marcado por parte da consciência, por parte da inconsciência e por parte do que o mundo coloca a nossa frente.

Hoje, com 35 anos, me sinto menos dado a todas essas pessoas porque não preciso mais da aceitação e do acolhimento. Porque as minhas inseguranças mais profundas estão sob o meu controle. Porque tenho um relacionamento pautado em afinidades. Porque, sim, estou mais velho e não nego as características dos meus 35 anos.

Nessa coisa de ser mais “velho” a gente aprende a focar energias em questões que são mais produtivas. Antigamente, focava muita energia na atenção que queria de determinada pessoa, em querer fazer alguém gostar de mim e, quando surgia alguma crítica era uma frustração imensa. Era como se todo o meu esforço de parecer legal, de ser legal, de ser alguém divertido ou carismático fosse descartado de uma vez só.

Só que eu não chorava, nem me encaramujava. Da minha personalidade, a minha reação a uma hipotética crítica ou rejeição sempre foi com agressividade, com o contestamento e com a verbalização. Eu era de não deixar barato. E ainda sou assim, mas hoje de uma maneira muito mais certeira.

Não sei se é porque eu sou gay, ou porque sou gay nessa sociedade de limitações, mas sempre fui alguém na busca de aceitação, da valorização, e de uma maneira sempre intensa ou quase vital. De fato, continuo intenso. Mas com 35 anos, gasto a energia com mais foco porque a vivência faz a gente mais esperto.

Com 35 anos também estou com mais preguiça. Preguiça porque a gente já sabe melhor o que a gente quer, o que a gente gosta e até onde a gente entra para não se sentir incomodado. Preguiça porque com a maturidade a gente já descobriu mais das coisas da vida, já se arriscou e se submeteu a situações que a gente não precisa repetir. Quando a gente é jovem, a gente não tem o discernimento porque ainda não experimentou. E depois que a gente experimenta e não quer vivenciar de novo, natural sentir preguiça!

Com 35 anos a gente não precisa ficar se provando de muitas coisas. A gente já provou do que gosta e do que não gosta e a tendência é seguir a fundo naquilo que realmente traz prazer e benefícios. Provar cada vez mais daquilo que nos faz bem.

Assim com 35 anos não preciso mais de todo mundo, de encher a casa, de ganhar presentes. Não preciso dar um pouco de mim para muitos.

Com 35 anos prefiro jantar somente com meu namorado. Dou a maioria de mim para apenas um.

3 comentários Adicione o seu

  1. Anderson disse:

    Parabéns atrasado pelo aniversário!

    Lindo post!

  2. Carlos Rodrigues disse:

    A cada dia eu amo mais esse blog… E a cada dia lhe tenho mais como um ideal que gostaria de seguir.
    No fundo do fundo, me identifiquei com algumas coisas que você disse (apesar de eu ter apenas 16 anos!). Como:
    -“Eu era uma pessoa que não controlava facilmente os extremos do meu temperamento. Muito alegre mas também muito agressivo quando algo ou alguém me ofendia. Os meus idealismos eram confusos e, apesar de ser uma pessoa idealista, não sabia quando um ideal vinha como um escudo contra os meus medos ou como ideal de fato.”

    Me identifiquei bastante com isso!
    Basicamente é como eu já havia postado uma vez: Você possui um estilo de vida, que eu futuramente gostaria de conquistar.

    Estou postando isso só no finalzinho do ano, por que estou lendo todo o blog MVG!
    De qualquer forma, não posso desejar um feliz aniversário por ser muito tarde, mas desejo um Feliz Ano Novo ^^!! xD!
    Ótimo blog! Está de parabéns!

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