Beijo gay na TV

Já faz alguns anos que a tevê brasileira, principalmente a Globo, vem ensaiando o primeiro beijo gay nas novelas. Nos últimos anos a mídia tem dividido espaço entre o esteriótipo das “bichinhas” com um novo perfil de personagem gay, aquele de boa família, estudado, educado, sem excessos e que tem pequenos traços de sensibilidade que o fazem gay mas não o coloca numa imagem esteriotipada.

A mídia de massa, fundalmentalmente a tv, vem mostrando com sua maneira óbvia a importância de uma conscientização da diversidade. A novela da Glogo do horário nobre, vira e mexe, busca abordar temas de preconceito racial, sexual, das desigualdades sociais e faz – de jeito contido – alertas quanto a questões sociais numa rasa sugestão de orientação. No final, temáticas como doentes com câncer e filhos gays colaboram com a audiência, sem provocar movimentos sociais no dia seguinte, e isso é o mais importante para uma emissora. O valor educacional, de mudanças ou provocações, é amplamente constestável.

De qualquer forma, a presença de personagens gays inseridos na família de classe média brasileira já aponta para alguns esclarecimentos: ser gay é mais comum do que se imagina e está mais próximo do que a gente pensa. Isso é uma verdade que as famílias podem acreditar.

Mas e o beijo gay na tv? Por que ainda não virou?

Tenho algumas impressões sobre essa questão. Primeiramente, a grande maioria dos brasileiros, que não são da classe média nem da alta, tem um vínculo intenso com a religião católica. Talvez boa parte dos leitores do MVG não percebam isso porque, acredito, pertençam a classes mais independentes da religião. Acontece que não podemos esquecer que o catolicismo e suas vertentes protestantes, evangélicas e outras que nem sei o nome, influenciam ainda a grande maioria dos brasileiros. Projetar o beijo gay, entre dois homens (principalmente), no horário nobre da tevê pode dar audiência naquele instante, mas certamente vai gerar movimentos religiosos e protestos no dia seguinte.

Nem sempre a rejeição está vinculada a religião. Não acho difícil pais de formação tradicional, da classe média e alta, ficarem estarrecidos numa situacão em que o filho presencie uma cena dessas. “O que explicar?”, “o que dizer?”, “não quero meu filho vendo coisas dessas!”.

Outro ponto é do contexto. Um beijo gay na tv pode ser muito bem aplicado se não tiver o interesse exclusivo de chocar. Numa história da novela, o contexto define o “sucesso” ou o “fracasso” da cena e, indiretamente, pode impactar no meio GLS. Não creio que a direção da Globo queira sofrer esse tipo de risco, do primeiro beijo gay que não traga uma repercussão positiva, ou até, tenha um efeito reverso: um viés preconceituoso.

A sociedade brasileira, no geral, não está ainda preparada para esse ato de intimidade exposto numa cena de novela. Os valores e as percepções das coisas são divergentes e hoje a mídia no meu ponto de vista não tem mais a autoridade para transmitir ideais. No passado, tevê e rádio, que são mídias de massa, tinham produções e produtos para orientar sobre questões políticas, culturais e sociais. A mídia era meio para protesto. Na década de 60 e 70 a música narrava questões políticas e o cinema contava sobre questões sociais. Hoje, o que se tem é o entretenimento sem limites.

Diante de todos esses contextos da sociedade religiosa, das famílias traidicionais e de um mídia que tem o propósito máximo de gerar audiência pelo entretenimento, o beijo gay ainda não saiu!

Não tenho dúvidas que uma cena dessas daria audência, e esses dados a Globo já tem de sobra. O medo é da “ressaca” do dia seguinte, dos grupos religiosos e das famílias tradicionais. A verdade é que indústria do entretenimento há anos não mexe mais com questões ideológicas que provoquem reações evidentes como fazia no passado. E para falar a verdade, não precisa. O beijo gay na tv vai rolar quando a sociedade tiver um reflexo positivo, na maioria. Do contrário não vai acontecer. A tv não tem mais o papel de gerar movimentos porque pode provocar uma queda de audiência.

Esse assunto não é muito diferente de quando John Lennon disse que os Beatles eram mais famosos que Jesus Cristo. Essa afirmação ecoou pelo mundo todo. Mas no dia seguinte inúmeros fãs estavam queimando discos.

4 comentários Adicione o seu

  1. Peter disse:

    O fato é que desde que anunciaram o primeiro casal gay numa novela das 21h, ficou essa expectativa toda sobre um possível beijo gay. A imprensa dizia que sairia, pois o autor escrevera, a imprensa dizia que sairia, pois a cena tinha sido gravada, e no final, nada. Então o público gay frustra, movimentos GLS ficam revoltados, promovem boicotes, e logo o ciclo se repete, com uma nova novela.

    Eu, como gay, acho desnecessário um beijo gay numa novela, bem pelos motivos que você apontou. Porém, mostrar o gay como uma pessoal comum, que tem sentimentos, que ama, que vive uma vida a dois como qualquer casal hetero, isso sim é importante. “Ti-ti-ti” mostrou isso, “Insensato coração” também, e achei bem válido, mesmo sabendo que certas cenas foram cortadas.

    Enfim, vamos aguardar os próximos capítulos!

    Abraços!

  2. minhavidagay disse:

    Muito bem, seu noveleiro! :P

  3. lucas sarif disse:

    Oi.. Estou adorando o blog!! Você é demais!!!

    Suas dicas de gays enrustidos, das baladas, de como começar esta nova vida.. Quero mto viver feliz, sendo quem eu sou e seu blog vai me ajudar!!

    PS: pelo que vi o Peter é fã de carteirinha do blog hehe me add no msn para trocarmos histórias lukas.gatoo@hotmail.com

    Beijos a todos!!!

    1. minhavidagay disse:

      Oi Lucas!
      Muitas felicidades com as suas descobertas!

      PS: Não passo meu MSN porque na realidade criei essa política de me relacionar com os usuários por aqui e pelo e-mail. Deixa o trabalho mais profissional, acredito eu. Não me entenda mal… :)

      Um abraço!

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