Vida gay – Anjos e demônios que habitam a gente


Nunca fui muito fã de seriados mas meu namorado “me pegou de jeito” com esse hábito e retomei contato com esse entretenimento recentemente. Lembro-me que apenas dois me chamaram a atenção na minha adolescência e pós-adolescência: Anos Incríveis e Dawson’s Creek. Mas foi nessas últimas semanas que descobri o Lost. Já tinha referência da época de sucesso, cheguei a ver os primeiros capítulos mas a coisa não me pegou. Pegou agora que tenho todos os capítulos acessíveis e estou podendo assistir um depois do outro sem ter que esperar anos!

O seriado Lost gira em torno do tema dos demônios que habitam a gente, do bem e do mal que não está lá fora, mas sim, dentro de cada um de nós. Não lembro de ter visto alguma produção com tantas personagens principais, que seria impossível não se identificar com um ou com muitos. É uma produção que tem uma pegada religiosa, com roupagem moderna e que certamente teve seu merecimento de sucesso com justa causa: lida com as questões do bem e do mal de maneira bastante original. E, assim como vampiros e zumbis, assim como Senhor dos Anéis e Guerra nas Estrelas, a curiosidade humana sobre essa dualidade resiste ao tempo, não sai de moda.

É sob esse tema que vejo propriedade em fazer uma relação com a vida gay: o quanto de demônios a gente enxerga na nossa homossexualidade? Ser gay nos leva ao mal? É pecado? Está fora do que enxergamos como correto para a vida? Coincidentemente (ou não) um leitor religioso e gay mandou um e-mail, questionando as críticas que faço no MVG sobre a religião. Essa coincidência só pode ser um efeito Lost! rs. Mas, como respondi a ele, “religião e política não se discute!”. Então, vamos a reflexão pertinente ao MVG:

Muitos gays que ainda não se assumiram e vivem suas crises por isso colocam a homossexualidade como algo “do mal”, que se fosse possível “virar a chave” fariam. Lembro do meu primeiro amigo gay, que conheci pelo chat do UOL há mais de 10 anos atrás e que estava na mesma toada que a minha na época: eu e ele começávamos a desvendar a homossexualidade, estávamos vivendo o mesmo período de descobertas e aceitação, mas tratávamos o assunto de maneira praticamente oposta. Oposta porque, apesar de realidades de vidas diferentes, de experiências diferentes e necessidades diferentes, a maneira como as nossas mentes absorviam o assunto “somos gays” influenciava diretamente nossos sentimentos e nossas reações perante ao que estávamos vivendo na época.

Para o meu amigo estava implícito que ser gay era um sofrimento. Ele foi uma pessoa que, na época, gostaria de ter uma “chavinha” para ser heterossexual. Muito provavelmente hoje, resolvido, ele conteste essa minha lembrança (rs). Mas afirmo que era assim: o meu amigo sofria por ser gay, achava tudo aquilo uma dificuldade muito grande, um peso, um castigo e carregava um medo absoluto dos comentários e olhares alheios.

Para mim a vida estava com uma coloração nova, era um peso da omissão comigo mesmo que tirava das costas e tudo do externo da vida gay que me aparecia a frente virava bolo de chocolate! (Na realidade, digo bolo de chocolate porque a maioria das pessoas têm desejo extremo por doces. Mas de fato, para mim que não gosto de doce virava uma bela torta de palmito – RS).

Lembro a primeira vez que fui a balada. Na época a SoGo que nem existe mais era o que o mercado GLS oferecia de novo, belo e de pessoas “maravilhosas”. Então, estava lá eu e meu amigo. Enquanto eu me expandia com um sorriso no rosto e me deslumbrava com as novas “cores” da noite, meu amigo se retraia, se incomodava fortemente com o ambiente e pedia para sairmos da balada com urgência. Nossas primeiras impressões sobre o meio gay se formaram de maneira bastante diferente. Saímos da balada e voltamos algumas ou muitas vezes. Para ele, parecia um exercício de desintoxicação, quando a gente é viciado numa droga e sofre com a abstinência. Para mim, era uma exercício de aceitação e curiosidade. Ambos estávamos descobrindo um “novo mundo”, mas cada um com seu olhar particular.

Em essência, a diferença entre eu e meu amigo, no mesmo exato momento de descoberta do mundo gay, era que para ele o medo dominava sua alma e aquilo caia de maneira indigesta, dava mal estar e assombros. “Assombro” talvez seja a palavra mais correta: parecia existir fantasmas que o assombravam pelo que ele era (e é) e pelo fato de estar assumindo. Posso dizer com propriedade que foi uma resposta negativa (bastante negativa) às experiências que estávamos vivenciando.

Para mim, apesar dos receios básicos, do incômodo com a muvuca e por estranhar tantos homens falarem e gesticularem como “bichas”, fui absorvendo tudo com uma resposta positiva, dando luz à diversidade das coisas que aquele concentrado de pessoas poderiam me proporcionar.

O ambiente externo, da Rua da Consolação, da noite GLS, da fila de entrada da SoGo, dos Gogo Boys, das luzes da pista, dos barmen, do balcão, do cheiro, das cores e das pessoas, era o mesmo. Mas os demônios que habitavam meu amigo naquele período, demônios enrustidos na insegurança e no medo de ser gay, de aceitar-se livremente como tal, acabavam traduzindo todo aquele cenário de maneira assustadora, limitada, preconceituosa e excludente.

Preferi dar vasão para os anjos que a mim habitavam. Anjos enrustidos na alegria, na simpatia, na excitação, na curiosidade e no sentimento de bem estar por estar fazendo a coisa certa, que me abastecia e me ajudava a seguir o caminho da minha totalidade.

O tempo passou e ambos estamos mais bem resolvidos. Tenho pouquíssimo contato com esse meu amigo e pra falar a verdade são dois anos que não o vejo. Falamos de vez em quando por Facebook e sei que hoje há mais anjos do que demônios.

Quanto tempo de “Lost” a gente dá para a nossa vida? Alguns podem enxergar os anjos com 15 anos, outros com 60. Mas anjos, se são anjos, não dependem do tempo, e os demônios não dizem respeito a nossa homossexualidade.

Demônios, de fato, concentram-se em nossos medos.

6 comentários Adicione o seu

  1. Fernando disse:

    Olá meu brother, blz?
    bom, queria um conselho e fazer um desabafo…
    tenho 19 anos, sou bonito, simpatico e muito sociavel. Sempre fui gay e nunca sequer toquei em uma menina.
    serio mesmo, abraço e beijo no rosto rsrs… quando tinha 15 anos, conheci meu grande amor, estamos juntos até hoje e depois de uma longa batalha judicial, conseguimos o direito de nos casar e marcamos pra setembro. (somos o primeiro casal da nossa cidade). Mas enfim… eu gosto muito dele, mas sou muito novo, só tive ele na vida… nunca fiquei com outra pessoa, nunca beijei outro (parece mentira mas é verdade).
    Enfim, la vai… de uns tempos pra ca, mais ou menos 6 meses, conheci um rapaz de 20 anos na empresa que eu trabalho.. nos damos super bem e e somos melhores amigos, o problema é que eu acho que me apaixonei por ele, embora ame muito meu noivo. E outra, ele é totalmente hetero e tem namorada, que por sinal nao me suporta… sabe, nossa amizade é estranha… parecemos um casal, ele tem ciumes e nao deixa eu ter amigos, ele fala que sou um idiota por casar tao cedo e que vou passar o resto da vida ao lado de um otario…
    O que eu faco? eu amo muito meu noivo, me doi muito so de pensar em magoa-lo, jamais faria isso.
    mas esse amigo me provoca muito, principalmente sexualmente falando, tenho muita atraçao por ele..
    Sera que vale a pena trocar o certo pelo duvidoso?
    ah, meu noivo tem 22 anos.

    obrigado,
    Fernando

    1. minhavidagay disse:

      Oi Fernando,
      bom dia.

      Para seu relato tenho alguns pontos de vista.

      Primeiramente, sua história me lembrou uma conversa que tive ontem com um de meus futuros sócios. Ele trabalha comigo faz 10 anos, é heterossexual e há um tempo atrás viveu dois anos de solterice pura, descobertas, criou seus próprios laços de amizade de maneira mais definitiva e adquiriu muita segurança em alguns pontos que um namoro de 5 anos que o fez amadurecer em alguns aspectos, em outros não fez. Saiu dessa fase e encontrou uma mulher. Namora faz um pouco mais de um ano e, eis que de repente, surge em sua vida uma outra menina. Ele me questionou: “será que quando a gente realmente está bem com uma pessoa, a gente deseja outra?”. Respondi a ele que se fosse há uns dois anos atrás eu pensaria assim, a maioria das pessoas pensa assim, que quando a gente tem interesse por outra pessoa é porque a relação não anda bem, e realmente esse pensamento faz sentido.

      Mas para mim hoje existe um novo sentido: quando a gente está bem com a gente mesmo não desejamos outra pessoa. Ou seja, não é a pessoa que a gente ama que garante o nosso magnetismo pela relação, e garante que não tenhamos uma caída por outro alguém. É quando o nosso “eu” que está resolvido e é quando estamos amadurecidos que essa possibilidade de troca se torna remota. Num contexto de vida, que é de trabalho, família, amigos e relacionamento, se a gente está bem, em equilíbrio com a gente mesmo, seguro e consciente de onde estamos pisando, não precisamos de mudanças e não sentimos desinteresses ou dúvidas. E isso vem de dentro para fora.

      Acontece só que a gente acaba buscando um bode expiatório para alguns de nossos desejos que estão reprimidos ou não resolvidos, que podemos ter um nível de consciência ou não. Todo o contexto desse seu tipo de “flerte” com o amigo do trabalho é envolvente, remete a fantasias. Mas será que ele não é somente uma desculpa para a sua parte que ainda não vivenciou outras histórias? E isso não desqualifica seu sentimento pelo seu namorado. Mas alguma coisa tem aí, não é verdade?

      Por outro lado, em sã consciência e razão, o que é esse seu amigo se comportando dessa forma, com essa posse, numa traição pela namorada meio enrustida, não deixando você ter amigos e ainda criticando seu namorado? Essa pessoa é bastante mal resolvida, Fernando! Desculpe dizer, mas não dá para criar uma amizade com alguém que faça assim. Não é possível sacar sinceridade e possivelmente essa amizade te trará decepções ainda. Pode até te dar a cama e o sexo. Mas te trará muita instabilidade também.

      E você, pelo visto, permite as atitudes invasivas do seu amigo, hein? Talvez até goste achando que assim é um jeito legal do outro gostar. Será que é legal, Fernando? Será que vale a pena nutrir essa paixão? Ou talvez encarar que a sua vontade mesmo, ou parte de você tem vontade de curtir situações novas que a vida dois não permita?

      Puxa vida, talvez tenha te dado umas “porradas” (rs). Mas o bom é que parece que você está refletindo antes de tomar qualquer atitude. Nem eu, nem seu namorado estamos presenciando o que ocorre no dia a dia de trabalho, nem conseguimos medir o nível de intimidade que você tem com seu amigo (rs).

      De qualquer forma, Fernando, caso você opte pelo “duvidoso”, termine antes com seu namorado!

      Sometimes when you loose you win…

      Abraço!

  2. Dan disse:

    Que post incrível!
    Antes de me assumir, os mesmos demônios que assombravam o seu amigo também me martirizavam! Com 14 anos, eu cheguei a me relacionar com um rapaz de minha turma… Era horrível, porque apesar de gostar dele, me sentia como se estivesse cometendo o maior dos pecados do mundo (e ele também). Além disso, por ser as escondidas, ficava sempre temendo que alguém descobrisse a verdade, especialmente meus pais. Com 16 anos, tentando encontrar uma “chave” para reverter este processo, eu entrei numa Igreja… A justificativa que eu dava para a minha família era de puro interesse religioso, mas, para mim, se tratava de uma tentativa de me livrar da homossexualidade… Foram anos de sofrimento, onde as ilusões eram facilmente alimentadas… Cheguei a me envolver com garotas, mas não conseguia sentir nada por elas… Próximo dos 19, quando eu teria que me tornar um missionário, eu decidi abandonar a Igreja… Foi a partir daí que pude encarar o fato de ser gay com maior naturalidade, mas somente agora, com 23, que pude verbalizar esta condição sem nenhum receio… Realmente, os demônios só nos dominam se alimentamos nossos medos e ilusões…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s