Viga gay – As descobertas

Sou um “caso gay” que sempre soube da minha homossexualidade. Sempre, ou a partir do momento que comecei a perceber o mundo e as pessoas. Talvez, um tipo de consciência veio mesmo aos oito anos quando me pegava excitado brincando com meus amiguinhos. Claro que com oito anos não se tem o reconhecimento ou o contexto do sexo. Mas já tinha algum tipo de prazer que não se traduzia ainda.

Nunca transei uma mulher. Fora as revistas pornográficas que se via quando ainda não existia a web, não faço ideia da cor de uma vagina (rs). Parece que eu nasci definido, não tinha curiosidade e nem vontade de experimentar. Só fui conhecer o gosto do meu sexo gay com 23 anos e a primeira experiência foi terrível! Mas 30 minutos depois foi incrível e, hoje, já sou tão gay e tão contextualizado que não faria nenhum sentido ter alguma dúvida.

Shots de memória da minha infância e começo da adolescência na praia

Alguns lances e situações com o universo gay ficaram registrados na minha memória desde muito pequeno. Meu pai teve anos uma casa de praia em Toque-Toque Pequeno, litoral norte de São Paulo. Lembro que vez ou outra, quando uma de minhas amigas e seus pais não iam para a praia, um tio e seu namorado ficavam em sua casa. Adorava visitá-los e passar um tempo com eles. Certa vez minha mãe até interveio: “Ah, não vá tanto lá. Eles são gays!”. Creio que foi a primeira personificação de um indivíduo gay mas que, independentemente da intervenção da mamãe, lembro que insistia: “Mas qual o problema, mãe? Gosto de ir lá”. Voltava porque a minha mãe, belamente, não via maldade ou malícia. E realmente não tinha nada disso. Tinha uma conexão.

Foi numa masturbação no chuveiro que, pensando numa menina, veio a imagem de um colega da escola. Apaguei rapidamente a imagem da minha cabeça, fiquei preocupado. Mas já no segundo dia me permitia masturbar fantasiando com esse colega. Foi nessa situação que veio pela primeira vez a dúvida: “acho que sou gay”.

Já tinha uns 15 anos e nessa mesma vida praieira em Toque-Toque Pequeno conheci o Diogo. Ele devia ter uns 14 anos ou 13, não lembro bem. Era um menino educado, delicado e tranquilo. E quem tinha 15 anos naquela época, como eu, carregava um nível de inocência muitíssimo maior dos meninos de 15 de hoje. Creio que o Diogo foi a minha primeira paixão gay. Não tinha desejos sexuais por ele embora já soubesse o que era ter prazer por um corpo masculino. Mas tinha algum sentimento a mais, um tipo de paz em estar com ele que não saberia descrever agora. Foi num dia de inverno, que estávamos passeando num terreno vazio pós chuva que ele escorregou e diretamente me abraçou. A sensação foi muito boa, não foi de sexo, mas algo olho no olho, cara a cara e uma vontade de beijá-lo.

Agora, com 18 anos, o demônio dos hormônios já gritava dentro de mim. Divertido foi o dia na casa da praia, quando eu e mais dois amigos abrimos Playboys no quarto. Foi excitante e confuso ver dois amigos, com corpos definidos de 18 anos, com as “barracas armadas” (como diríamos na época) sob as bermudas de surfista. Mas a história não parou por aí (rs). Havíamos escapado das amigas da turma para esse momento. Eis que, do lado de fora, da janela do quarto, ouvimos risadinhas! Eram elas, safadas, bisbilhotando a gente! Saímos correndo, elas partiram em disparada até a praia. Seguimos até o mar e, numa mistura de vergonha, vexame e gargalhadas acabamos todos molhados, curtindo um pouco dessa coisa que é viver.

Shots de memória da minha adolescência

Minha adolescência gay foi mascarada! Parti para um personagem hippie de faculdade, maconheiro e criativo. Minha “prisão” assexuada foi essa. Foi uma adolescência sem sexo, enquanto meus amigos íntimos e heterossexuais comiam as menininhas da lavanderia! Que inveja, meu Deus! (rs). Me divertia com a maconha, com tentativas de poesias e foi nessa época que descobri a MPB, uma vertente importante que deu luz ao meu repertório musical. Virei publicitário e hoje sou mais marketeiro do que qualquer outra coisa. A música tem me acompanhado embora, ultimamente, tenha preferência pelo som do silêncio.

Voltei para Toque-Toque Pequeno algumas vezes. Faltavam poucos anos para meu pai vender a casa da praia. Casa dos meus “Anos Incríveis”. Foram épocas boas de Tom Jobim e uma paixão mútua e platônica por uma amiga, uma das que correu da gente no dia das Playboys (rs). Uma linda amiga de olhos verdes. Tive uma relação gostosa com ela, sem sexo, mas com um tipo de paz, daquela mesma paz que tive quando conheci o Diogo.

Entrava a onda do surfe entre meus amigos heterossexuais praieiros. Enquanto um ouvia Elvis, o outro Bob Marley. Redemption Song tocava no rádio do carro de um desses amigos. Ele estava no volante e eu no banco do pasageiro. Começou a falar de uma menina e, dirigindo de sunga, ficou de pau duro. Que coisa, menino!

Shots do primeiro contato

Tinha 23 anos e assumiria a minha homossexualidade em 2001. O chat do UOL era a válvula de escape, onde inclusive conheci o amigo do post “Anjos e demônios que habitam a gente“. Foi por lá que conheci o meu primeiro beijo, meu primeiro mal estar por beijar um homem e meu primeiro sexo depois de meia hora do mal estar (rs). Estava muito bem definido que não queria nada com aquele moço, que nem lembro o nome, que não fosse experimentar o sexo. Rolou na casa dos meus pais enquanto viajavam.

Seis meses depois estava namorando, não com esse menino, mas com o “primeiro amor da vida”. Relacionamento que durou dois anos e que se perpetua em formato de amizade até hoje. Namoro que, juntos, nos aventuramos nas baladas e nos primeiros anos das nossas vidas gays. Ele, apesar de mais novo, estava “adiantado” uns 5 meses em suas pequenas aventuras sexuais. Entramos pela primeira vez no Dark-Room e fizemos sexo tampando o Glory Hole. Engraçadíssimo lembrar daquela cena, das pessoas querendo ver o nosso sexo e a gente tampando o buraco com nossos All Star’s. Foi uma dificuldade transar e ficar segurando os dois pares de tênis para não cair do buraco! (rs).

Bacana ter essas lembranças e poder compartilhar. Me fez relembrar que viver é muito bom e que não me arrependo de nada que fiz (ou do que não fiz)! :D

A tal da ingenuidade que acompanhou a minha vida gay nos primeiros anos das descobertas foi definitiva para ter a paz de hoje.

2 comentários Adicione o seu

  1. H disse:

    A forma que você escreve faz com que sintamos como se tivesse vivido. Na verdade vivi mesmo parte das coisas que você citou, na verdade os sentimentos de desajustes. Só que não vivi essa fase de me misturar com amigos héteros, mas era óbvio sempre que eu não me encaixava nas conversas e nem nos maneirismos. Eles sempre tentavam me “converter”, mesmo eu batendo de pés juntos que não era gay (a quem eu estava enganando mesmo?). Assim, como não tinha amizades gays por medo de automaticamente me assumir (perdi um oportunidade imensa de ser mais feliz), não podia ter amizade masculina e nem feminina. Vim ter amizade com uma amiga travesti e muitos hétero, amigos gays tá meio fora do meu repertório de relacionamentos (acho que os excluo e eles também me excluem. Tentei sair com gays comuns, mas não me encaixo, por isso até agora só me relacionei sexualmente com um, um pouco afeminado, mais o sexo com ele foi ótimo simplesmente porque ele não me tratou como um objeto descartável como os caras casados com os quais atualmente me relaciono me tratam.

    Tenho real preguiça de sair com esses caras atualmente, embora ainda saia. Pra quem vive sonhando em pegar o “hétero”, o “macho-alfa”, o “fora do meio” esteja preparado psicologicamente pra ter seus sentimentos reprimidos para não prejudicar uma pessoal bissexual que jamais abriria mão do privilégio de viver também uma vida hétero.. Moro em uma cidade pequena e isso é muito recorrente. Penso em morar em uma cidade como São Paulo , onde dizem que essas coisas são menos corriqueiras e haja encaixe de mentes, não apenas de corpos viciados em sexo. Penso assim pois me correspondo e até “namoro” via Facebook e Skype alguns dessa cidade e são pessoas com uma mente bem desenvolvida em relação as pessoas daqui.. Um dia pretendo conhecer e possivelmente morar… ;)

    1. minhavidagay disse:

      Oi H!

      Valeu pelo breve relato. Só ajuda a enriquecer mais o Blog! :)

      Um abraço,
      MVG

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