Vida gay – Meu primeiro namoro

Seguindo os primeiros resultados da pesquisa, deixo aqui um relato pessoal do meu primeiro namoro. Quem já acompanha alguns dos posts sabe que nunca desenvolvi nenhum tipo de relacionamento com o sexo oposto. Assim, meu negócio sempre foi homem! rs.

O começo foi um pouco esquisito, meio avesso, embora não tenha nenhum sentimento de culpa.

Acontece que o meu amigo que comento no post “Anjos e demônios” já tinha vivido um primeiro e rápido relacionamento. Se não me falha a memória foi algo de 5 meses.

Fui desenvolvendo uma boa relação com esse amigo. E naquela época, pelo menos para mim que me sentia intimidado em sair conhecendo pessoas do meio, me via mais confortável em trocar ideias durante dias pelo “falecido” ICQ (substituído pelo MSN Messenger) para conhecer melhor a pessoa, antes de um encontro pessoalmente. Foi assim com o cara da minha primeira transa, foi assim também com esse amigo.

A sua relação com um menino de 17 anos na época parecia ter tido um término mal resolvido. Mantiveram contato pelo velho ICQ mas não mais haviam se encontrado pessoalmente.

Foi numa noite de papos com esse meu amigo que ele lança: “comentei de você para meu ex-namorado e ele está a fim de te conhecer”. De imediato achei estranho sua postura. Mas com uma certa ingenuidade na época aceitei “receber” seu ex-namorado pelo ICQ.

Sem propósitos a conversa era muito boa. Basicamente, trocamos fotos e o achei bastante interessante. O menino estava para completar 18 anos e isso tirava um pouco do receio de me envolver com um menor! (rs) Conversa vai, conversa vem e um interesse mais intenso de conhecer pessoalmente começou a rolar de ambas as partes. Primeiro, falávamos todos os dias por telefone e creio que isso durou apenas uma semana (rs). No final de semana estávamos nos encontrando.

Lembro como se fosse hoje que, logo que assumi a minha homossexualidade para mim mesmo, um desejo muito intenso de formar um par veio a tona. Eu tinha um propósito muito forte comigo mesmo de encontrar alguém para namorar. Não passava pela minha cabeça de 22 ou 23 anos curtir a vida adoidado e sair desenfreado pelo mundo GLS sem uma companhia certa. O que tinha mesmo em mente, com muita força, era a necessidade de curtir um namoro, essa vontade que estava reprimida há mais de 10 anos e um desejo de desvendar – com as “próprias mãos” – que dois homens eram capazes de criar um vínculo afetivo real (real subendentia-se sério e íntimo para mim na época).

Pensando hoje, até parece coisa de nerd querer priorizar tanto um namoro a abrir as portas da noite GLS livre, solteiro e desempedido. Mas verdade seja dita: eu era e sou um cara que, em sã consciência e na medida do possível, priorizo formar um par.

Fui ao encontro do menino que me esperava em baixo do Trianon MASP. Acho que foi paixão a primeira vista. Sentamos no Bar Opção, lá pertinho, e passamos horas conversando.

Foi uma fase muito boa de reconhecimento, de poder sentir uma emoção especial por outra pessoa, que estava extremamente potencializada dentro de mim. Não beijei no primeiro, nem no segundo, nem no terceiro encontro.

Não me lembro ao certo se foi depois de uma semana ou um mês. Fomos na boa e velha SoGo (na época que a birosca funcionava bem) e foi lá, depois desse tempo de uma semana ou um mês (rs) que o desejo fortíssimo veio. Nos atracamos noite a dentro e possivelmente, com aquela energia adolescente e pós-adolescente, nos agarramos em quase todos os cantos da balada (rs).

Meu amigo, que havia apresentado via ICQ o seu ex-namorado a mim, ficou chateadíssimo. Não imaginava, muito menos tinha consciência que esse meu camarada, por vontade própria de me apresentar ao ex, poderia ficar tão transtornado! Esse fato gerou algumas outras situações desagradáveis, competitivas, que acabou nos afastando por alguns bons anos.

Um parênteses bastante importante: de fato, quando conheci meu amigo pelo Chat do UOL, ele teve um interesse por mim. Mas não foi recíproco e tinha deixado bem claro a situação. Criamos assim uma amizade, de sair algumas (ou muitas) vezes juntos e no meu entender, na época, tudo estava resolvido. Mas a verdade é que era tudo muito (muito mesmo) virgem, de terreno novo, desconhecido, das atitudes alheias, das minhas atitudes, de interesses ou desinteresses, de reconhecer melhor as pessoas, da coisa que é meio confusa, que se faz mais pela inconsciência, quando se tem 18 ou 20 (pelo menos foi assim para mim)!

Foi com meu primeiro namorado que descobri o que era dar e receber flores. Na realidade, quem tomou essa atitude primeiro foi ele e guardo essa lembrança nítida e de como o gesto me emocionou: era possível sim dois homens se amarem.

Descobri o que era presentear e ser presenteado. Poder fazer viagens juntos, descobrir lugares para jantar, tomar sorvete ou simplesmente andar na rua ou ir ao cinema.

Descobri também o que era o Dark-Room. Entendi o que é o glory hole e lembro com diversão a nossa tentativa de sexo numa das cabines enquanto a vontade alheia tentava espiar pelo buraco que, eu e meu namorado, esforçadamente tapávamos com nossos All Star’s.

Creio que, quando a gente diz que o primeiro namorado a gente nunca esquece, talvez, sejam por esses fatos. Pelas descobertas – no sentido literal de sentir e vivenciar pela primeira vez sentimentos e situações novas de casal – que quando vinham eram motivo de muito entusiasmo e alegria. Essas emoções liberavam químicas em nosso sangue e imprimiam imagens daqueles momentos que acho bem difícil de esquecer.

Talvez seja por essas e por outras que mantivemos uma amizade até hoje. Na realidade, namoramos 1 ano e 11 meses. Contando todo o tempo que nos conhecemos somos mais amigos hoje do que ex-namorados. Onze anos se passaram.

Hoje, ele está casado e eu num namoro bem resolvido. Nossas obrigações para com os nossos parceiros e com as responsabilidades da vida adulta nos mantém naturalmente mais afastados.

No dia 29 de março desse ano ele não me mandou mensagem de parabéns. Mas mandou dois dias depois se desculpando do atraso por ter perdido a data do meu aniversário. No dia 10 e setembro ele sempre fará um ano a mais de vida e creio que essa data seja uma das poucas que o meu “HD mental” vai sempre se lembrar. Mesmo porque, virou até piada: um dia antes do destruidor 11 de setembro nos EUA (rs). Osama, hey ho!

E foi um pouco assim que a gente fez. Brigamos muito meses antes do término. O ciúmes foi uma das principais doenças daquela relação. Quando terminamos até tivemos uma tentativa de volta. Mas a realidade é que naquela época tínhamos um mundo inteiro para desvendar, com a vontade conduzida pela curiosidade, pela libido e pela necessidade de crescer como pessoas. Eu, não muito tempo depois engatei um outro namoro. Ele viveu namoros mais passageiros, ficou reconhecidíssimo nas baladas, até encontrar seu marido!

Naquela época tanto eu quanto ele erámos apenas uma pequena parte do que somos hoje e nos faltava muita consciência ainda para nos reservar aquele universo particular. De qualquer forma, se hoje é mais amizade (daquelas que se pode passar anos sem falar que quando reencontra parece que foi ontem a última vez que se viu), é porque o amor se transformou. Falo isso com orgulho e até uma emoção.

Isso sim, queridos leitores, não tem preço. :)

Quando é que a gente se dá a oportunidade de fazer a afeição, o sentimento e o amor desse jeito? Digo que uma vez na minha vida já me fez ir para além de mim.

18 comentários Adicione o seu

  1. Peter disse:

    Poxa… espero um dia, de verdade, poder viver tudo isso…

    Quem sabe, né?

    Abraços!

    1. minhavidagay disse:

      O que falta para começar? :)

  2. Eu sempre “viajo” enquanto leio essas histórias. Adoro!

  3. samuel disse:

    Quando vocês terminaram ainda rolava sentimento? , passaram a ser amigos logo em seguida ou precisou de um tempo pra amdurecer/superar? Abraço

    1. minhavidagay disse:

      Oi Samuel!

      Tudo bem?

      Ficamos alguns meses sem falar. Talvez 6 meses? Não me lembro bem…

      Eu tinha um carinho muito grande por ele. Mesmo depois que terminei, afinal foi minha primeira paixão…

      Veja se te respondi.

      Abs,
      MVG!

      1. samuel disse:

        Entendi, respondeu sim…estou passando por uma situação chata mas não com o primeiro e sim segundo namorado, a questão é que ainda rola sentimento(da minha parte, não sei da outra) mas dentre tantas questões e ponderamentos, vejo que o melhor é não voltar (ele ainda é mal resolvido por ser uma pessoa pública ), mas sempre, quase todos os dias, me pego pensando nele,as vezes acho que nunca vou esquecer… bate aquela saudade, ele veio atrás algumas vezes( por e-mail, nunca ligando, o que deixa no ar um certo desinteresse) mas como proteção pra não fazer besteira comigo mesmo acabo achando melhor me afastar, mas tenho um carinho grande por ele e sinto ciúmes só de pensar que ele pode estar com outra pessoa( eu fui seu primeiro namorado) e meio que não sei se deixo pra lá de vez e espero acontecer as coisas naturalmente quando tiver superado, porque não sou de entrar em sites de encontro ou ir pra lugares gays, então é complicado, sou bem resolvido mas não gosto de balada e nem encontros às escuras(já gostei), acabo ficando com medo da solidão… to compartilhando com você apesar de não ser seu amigo, porque não tenho amigos gays e aqui me sinto de igual pra igual…Não sou de entrar em blogs, mas esse merece destaque. Gostei muito dos temas que você aborda e percebe-se que você é um cara bem resolvido. Parabéns pelo blog.

      2. minhavidagay disse:

        Oi Samuel,
        entendo suas questões. Imagino que se envolver por alguém que está na mídia e ainda ser gay não deve ser uma das tarefas mais fáceis. O ideal era você trazê-lo para uma conversa, e acho que vocês já fizeram isso. Eu, no seu lugar, se ficou claro que não há como continuar essa relação eu partia para outra. Entendo que fique esse sentimento meio preso justamente por as indecisões serem da parte dele. Mas, querido Samuel, tem horas que é importante a pessoa ser mais objetiva e tomar atitudes. É complicado ficarmos alimentando relacionamentos de migalhas.

        Obrigado pelos comentários sobre o Blog!

        Abs,
        MVG

  4. samuel disse:

    Muito boa sua opinião, Obrigado! Você disse que troca emails com alguns leitores, qual seu contato? Abraço

    1. minhavidagay disse:

      Oi Samuel!
      Você pode escrever para o queroumtoque@gmail.com

      Abraço,
      MVG

  5. kaike disse:

    muito legal seu blog, gostei dessa experiencia
    começo a perceber e a aceitar que sou gay agora, acho que estou na mesma situaçao que vc descreveu acima, quero muito namorar e me libertar das caras e bocas que tem sido minha vida.
    gostaria de ter alguem so pra conversar mesmo, vc sabe a gente fica meio confuso com tudo isso.
    vou te adicionar no gmail, so quero ter alguem pra desabafar de vez em quando. ok.

    1. minhavidagay disse:

      Ok Kaike!

      Abs,
      MVG

  6. Thiago disse:

    Ola gostaria de ter sua opinao sobre meu relacionamento, tenho um relacionamento bom de 5 anos, mas acho q preciso de uma ajuda, conheci essa pessoa com 18 anos, foi o cara com quem tive relacao sexual pela primeira vez e ate hoje somente com ele, por nao ter vivido com alguem antes (apenas e

    ter
    ficados com 3 caras , nada alem de beijos)

  7. Thiago disse:

    O problema agora é que para ele o namoro ja chegou em um ponto de estabilidade,os beijos sao bons os carinhos tbm, ele me da atencao, mas eu ainda continuo cobrando ad coisas do inicio do namoro, como mandar msg na hora q chega e sai do servico, alfumas coisas bobas, sei tbm que posso perder este namoro por cobrar demais, e eu consigo deixar algumas situacoes de lado, e eu cobrando estou sendo chato… Enfim a historia é longa, mas preciso de uma ajuda para nao estragar essa relacao.

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