Relato gay – Meu segundo namoro


Algum tempo depois do meu primeiro namoro estava assumindo um novo relacionamento. A noite GLS e a vida solteira não me encantavam como gostaria ou, talvez, me sentisse muito mais seguro com alguém do que sozinho.

Tive receio de me envolver com um menor a princípio, estava com 25 anos e ele com apenas 16! Com os olhos de hoje, realmente, foi estranho! rs.

Posso dizer que a relação era menos apegada. Ele morava próximo a Campinas e nos víamos somente nos finais de semana no começo e depois de um ano e meio, já perto do fim, nos encontrávamos de 15 em 15 dias.

Esse meu segundo relacionamento me marcou por dois motivos: foi quando a mãe do meu namorado descobriu que ele era gay e foi quando a minha mãe encontrou um bilhete dele, que culminou toda abertura da minha vida gay a mama! (rs)

Primeiramente a mãe dele descobriu no período em que namorávamos. De imediato, aquela pessoa que me aceitava em sua casa e que levava a gente para viajar fechou o tempo, cheio de acusações, definida de que eu influenciava seu filho e que eu era responsável por estar tornando-o gay. Tenho até hoje (ou tinha até bem pouco tempo) a carta que ela me escreveu, falando de Deus, falando da contrariedade a natureza e de que nada daquilo era certo.

Não afirmo com toda certeza, mas possivelmente a situação de impedimentos que vieram depois que ela descobriu acabou influenciando no término do meu namoro. Primeiro que havia a distância e depois que chegar na casa desse meu ex-namorado e ter que esperá-lo sair porque a mãe não aceitava mais a minha presença foi um tanto estranho!

Depois daquela carta, fiz questão de sentar com ela, com meu namorado e conversar. Se eu não pudesse mais entrar na casa deles, não haveria problemas. Mas não poderia deixar de colocar todos meus pontos. Sempre fui de peitar as coisas, principalmente quando era desafiado. Aquela carta me enchia de orgulho ferido e inconformismo, motivos de sobra para ter uma boa conversa. A “ignorância” por achar que eu o influenciava também era um forte motivo para a conversa! (rs).

Assim, teve um dia que eu e meu ex-namorado passamos o final de semana juntos e quando o deixei em sua casa, sua mãe já estava informada e a espera. Sentamos todos na cozinha e começamos o bate papo. Ela reforçou com firmeza os pontos sobre a falta de naturalidade daquilo, de que Deus não fazia daquele jeito e que a minha influência não era boa. Rebatia todas as afirmações com firmeza, enquanto meu ex-namorado queimava uma comida qualquer no fogão (rs).

Ela foi bastante intransigente, colocando a situação de que não impediria a relação, mas eu não seria mais benvindo em sua casa. Aceitei com respeito e seguimos em frente. Obviamente algumas ou muitas lágrimas escorreram das três partes, mas não poderia deixar de expor meus ideais e seria um peso grande carregar uma possível culpa de influenciar alguém sem deixar registrada e marcada todas minhas palavras.

Meses depois, já não estava mais com meu segundo namorado, e minha mãe me apresentava uma carta que achou perdida e que guardava há 5 meses para tomar coragem e vir falar comigo, assunto para outro post!

Depois do fim, mantive contato online com meu ex-namorado. Apesar da crise familiar, acabamos terminando pelo fato do meu ex precisar (loucamente) experimentar outros corpos! E ele deixava isso muito evidente, mas não pela conversa. O desrespeito e a sensação ruim de andar com ele na rua e perceber o interesse em outros caras foi a gota d’água. Acho que terminamos antes de qualquer traição, embora traição as vezes se concebe na própria mente da pessoa antes de realizar.

Há aproximadamente três anos atrás fui até Hortolândia revê-lo. Nessa situação, cinco anos depois do namoro, mãe e irmão já estavam anos acostumados com a realidade gay do meu ex-namorado e já não existiam mais “fantasmas” que poderiam estar o influenciando. Chegando na mesma casa que aconteceu todas as histórias, sobre a mesa da cozinha estavam preparados todos os pratos de comida que eu mais gostava!

Fui com meu ex até o Shopping Dom Pedro para dar um passeio. Nessa época ele namorava e, obviamente, o namorado ficou cheio de ciúmes pelas suas fantasias e não pela realidade. Encontrei na Fnac o DVD do filme que de certa forma marcou o encontro entre eu, meu ex-namorado e sua mãe, na época em que ela ainda não sabia de nossa homossexualidade e que a relação fluia muito bem. O filme era “Sonhos” do Akira Kurosawa.

Voltamos para sua casa e dei de presente o filme. Entrei no carro e veio uma emoção muito boa. Uma sensação de dever cumprido, de um respeito ao tempo de cada um e ao amadurecimento das pessoas vieram à minha consciência. Não existia mais orgulho e sim entendimento. Confesso que foi emocionalmente crítico ter peitado a “ex-sogra” naquele período do namoro. Provavelmente não repetiria mais uma situação do tipo porque é uma exposição que talvez a gente só conceda uma vez na vida a uma outra pessoa. Natural sentir um tipo de “vitória” notando que cinco anos depois, aquela carga negativa, preconceituosa e de falsa responsabilidade sobre a homossexualidade do meu ex-namorado tomavam rumos certos e amadurecidos.

Dias depois, pelo MSN, meu ex-namorado lança: “Minha mãe me questionou porque não tento voltar com você”.

Achei muito engraçado e recompensador. A briga, os momentos extremamente tensos que nos desafiaram naquele dia, na cozinha (rs), tiveram uma importância a mim, ao meu ex e a sua mãe para a gente evoluir em pensamentos, nos tornarmos mais sensíveis às sutilezas das relações humanas, embora a crise em si não tenha sido nada sutil! (rs).

No final, o fim da história veio bem recentemente. É assim que a gente deixa algum rastro nas pessoas. Só assim imprimimos o sentido dos relacionamentos. Do contrário são casos de no máximo seis meses, sem pegada, sem mudança, sem movimento.

Brigar, as vezes, vale muito a pena.

9 comentários Adicione o seu

  1. Fernando disse:

    Olá,

    Parabéns pelo blog.Já venho lendo faz alguns dias e me impressionei com a qualidade da escrita e tudo mais…
    Uma coisa que acho interessante: você fala muito sobre as dificuldades do namoro gay e de como você acha válido afastar-se de (certos,alguns…) amigos, visando preservar o seu relacionamento….
    Por um outro lado, não entendi sua posição em relação à seus ex-namorados.A proximidade relatada em uma festa de aniversário e os contatos via redes sociais e até por meio de encontros(me perdoe se entendi errado…) não seriam mais “perigosas” na preservação de um atual namoro do que a proximidade de amigos??
    Questiono isso pois também namoro um rapaz mais jovem e sempre que tenho contato com algum ex-namorado meu surge um certo atrito entre eu e meu atual.Como o seu namorado lida com isso?
    Abs,
    Fernando

    1. minhavidagay disse:

      Excelente comentário, Fernando!

      Para mim funciona mais ou menos assim: ex-namorados, se você começa, vive e termina o relacionamento bem resolvido, não tem porque voltar ou ter recaídas. Recaídas nós temos se encerramos uma relação com alguma pendência, ou esperança ou algum tipo de sentimento mal resolvido. Da minha parte, busquei resolver todos ou praticamente todos. Quando terminamos é possível criar um laço de amizade, mas para isso é necessário a maturidade das partes, ou pelo menos de uma delas. Dificilmente os ex que tenho mais contato teriam liberdade para “dar em cima” ou algo semelhante. Certamente eu ficaria indignado e isso poderia criar ruídos na própria relação de amizade que é o fato e o que está se construindo. Vale o risco? Para mim não vale…

      De fato, com o meu primeiro namorado se estabeleceu uma relação amistosa e até com boa frequência de contato. Ele conhece meu namorado, eu conheço o marido dele e, na medida do possível nos encontramos todos e tudo flui bem.

      Nesse relato do “Meu segundo namorado”, não diria o mesmo. Tenho certo que não possuo mais envolvimento, mas não posso ter essa certeza pelo meu ex. Sua própria personalidade, de tempos em tempos, vem com insinuações que não sei se é brincadeira ou realidade.

      Na situação que nos reencontramos há 3 ou 4 anos eu estava solteiro, ele namorava, mas o respeito veio de mim.

      Na festa de aniversário realmente reuni todos, inclusive meu namorado que na época estava de começo de relação comigo. Acontece que os que eu poderia ter “riscos” por algo mal resolvido estavam acompanhados. Mesmo que eu tivesse algo por resolver com um deles, um toque de “elegância” é bastante importante. Seria uma viagem da minha parte, na festa, dar alguma brecha a um de meus antigos relacionamentos por conta de algo mal resolvido. Poderia bagunçar a minha própria festa ou provocar alguém!

      O atrito que pode existir com a presença de um ex é normal e compreensível. Mas, mais uma vez exige maturidade e consciência onde se está pisando. O problema não é o convívio em si, mas possibilidades de brechas, olhares, tratamentos mais íntimos que por ventura podem deixar o parceiro inseguro. A conduta normalmente é importante e, se acontecem atritos, ou o namorado dá realmente alguma brecha para um ex ou somos puramente inseguros ainda e projetamos nos “ex” as nossas inseguranças.

      Assim, temos que ser bastante amadurecidos, resolvidos e “elegantes” para lidar com essas situações e para que esse tipo de convívio se estabeleça, caso haja interesse. Tem gente que prefere o “ex bom morto”. Esses, possivelmente, não tem que passar por essa conscientização (rs).

      Daí, quando falo do afastamento de alguns amigos para preservação da relação é que de fato são poucas as pessoas que adquirem essas experiências, que tem esse olhar maduro para as relações e que se controlem para não deixar que carências respinguem na relação alheia.

      Por fim, Fernando, seu comentário foi muito bem colocado. O foco não está no convívio com ex ou com amigos, mas sim na maturidade e na forma como lidamos com essas pessoas. Nesse contexto, temos sim uma certa responsabilidade em passar confiança ao parceiro. Mas na prática, poucos são os que pensam ou o que são bem resolvidos a ponto de ter essas consciências todas. As vezes, estar cercado de ex ou amigos acaba sendo o exercício do ego de auto-afirmação pura que, se não amadurecido, pode trazer desconfortos ao parceiro. Mas veja bem: você acha que normalmente as pessoas pensam nisso tudo que estamos debatendo? Não pensam, deixam acontecer e ainda, as vezes, exigem que o outro tenha uma segurança natural, inata! rs

      Assim, respondendo a sua última dúvida, posso dizer que o meu namorado lida com boa naturalidade com esse meu modo de pensar. Parte porque busco conversar, mostrar o sentido para mim dessas pessoas e deixá-lo tranquilo para que eu não perca esse tipo de convívio que a mim é importante, e parte porque ele tem uma tranquilidade em sua natureza. Na nossa relação já compartilhamos tempo com ex-namorados meus e tudo fluiu amistosamente. E já compartilhamos tempo com amigos dele que, se bobear até hoje, vão querer se apoiar de alguma maneira em nossa relação. Amigos gays e heterossexuais.

      “Diga-me com quem tu andas que direi quem tu és”, frase que fala sobre um certo poder de julgamento para notar e selecionar pessoas. Só que com 35 anos é inevitável: ficamos mais seletivos, sabemos mais o que queremos, quem queremos e aprendemos a não dar brecha para atrapalhar o que está em equilíbrio ou do que é bom pra gente.

      Maturidade, vivência, consciência, tudo isso. E enquanto isso não vem ou enquanto não buscamos por tudo isso, vamos sofrendo aqui e ali pelo descuido, desconfiança, incertezas dos outros e de nós mesmos! rs

      C’est la vie! :)

      Abs!

      1. Fernando disse:

        Fico contente com a resposta!
        Realmente é muito difícil ver pessoas que pensam assim.É interessante no seu discurso o posicionamento, que eu concordo, no qual o foco do problema(atrito) estaria na maturidade e não na ação de falar, se encontrar, com um ex-namorado.
        No meu caso, quando era mais jovem, tinha um namorado mais velho e o que mais me incomodava na relação era exatamente isso: o falar natural dele sobre seus ex, a forma adulta de lidar com isso.Eu sempre ficava mexido e hoje estou na situação oposta….
        De fato, com a idade, a gente vai ganhando uma certa calmaria e tranquilidade para lidar com antigos fantasmas.Ao me encontrar ou falar com um ex, nunca passou por mim tentar uma volta….Tenho-os como amigos, e assim como você, não vejo impedimento para uma amizade pós relação, claro, com suas devidas exceções.
        Apesar da conversa com meu namorado, vejo nele a minha pessoa de antigamente, e assim sendo, eu o entendo muito….São pouquíssimos que possuem maturidade para lidar com uma situação dessas, e sejamos francos, não é fácil….
        Não espero do meu namorado uma aprovação, apenas um entendimento.Sei que segurança não nasce da noite para o dia…é uma construção, diária…Talvez eu não esteja transmitindo a segurança necessária, não sei.
        O fato é: uma relação exige conversa e discutir os seus pontos fracos acho ser o caminho certo para se fortalecer….
        E realmente, c’est la vie!!!

        Abs!

  2. Peter disse:

    Ou seja, o tempo é mesmo o mestre de todos os mestres… É engraçado, mas até hoje, as pessoas insistem em colocar Deus nesse tipo de conversa. Ora, Deus não é contra o amor. Há tanta coisa ruim por aí, e isso que realmente O chateia. Pra isso, é que realmente devemos abrir os olhos…

    Abraços!

  3. “Dias depois, pelo MSN, meu ex-namorado lança: “Minha mãe me questionou porque não tento voltar com você””. Ficamos espontaneamente emocionados aqui e depois sorrimos um para o outro com cara de surpresa, rs.

    1. minhavidagay disse:

      Ehehehe… experiências na vida…rs

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