Relato – Meu casamento gay

No post “Crises de um casamento gay” fiz diversas críticas negativas sob o ponto de vista de que, muitas vezes, a gente quer “juntar os trapos” numa relação entre dois homens e seguimos no encanto, mas costumamos esquecer das problemáticas que é dividir um mesmo espaço, das responsabilidades e da consciência que devemos ter sobre o que é estar casado. Realmente, o governo legalizar o casamento entre pares do mesmo sexo já é uma evolução. Mas será que os gays brasileiros, principalmente os homens, estão preparados para essa realidade de convívio? Acho que raros são os que estão preparados.

De qualquer forma, esse post de tema “Casamento gay” vem para mostrar o outro lado da moeda da minha experiência, casado durante quase três anos. Notei que andei bastante crítico, no sentido negativo, sobre o casamento numa tentativa de trazer consciência para os leitores. Mas vamos a parte “mar de rosas” que também existe!

Conheci meu “ex-marido” na balada, alguns anos depois da inauguração da Bubu e naquela época ainda não furtavam celulares lá dentro como hoje!

Estava no mezanino junto com dois amigos, que era um 1/4 do tamanho que é hoje e naqueles tempos tocava música dos anos 80 no bom estilo da Lôca aos domingos. Em determinado momento uma menina se aproxima de mim com o velho texto: “Tenho um amigo que está a fim de você”. Dei a mão para ela e lá fomos ao encontro do amigo.

O rapaz era italiano, chegou cheio dos sotaques e a conversa que durou apenas alguns minutos ou segundos. Nos agarramos lá mesmo e ficamos balada a dentro naquele estado.

Ao final trocamos os telefones naquela sensação “quem vai ligar?”.

Resolvi tomar a frente e liguei para o rapaz dois dias depois. Nos encontramos e ficamos numa dificuldade de comunicação. Mas quem precisa se comunicar quando os hormônios estão acima da razão? Foi um sexo bem interessante no banco de trás do meu carro, próximo a sua casa. (rs)

Seguimos com os encontros e alguns comportamentos do meu “futuro marido” começavam a ficar estranhos: histórias que não batiam, sotaque que desaparecia em determinadas conversas e BOOM!

BOOM porque por meio de uma carta, depois que o deixei em sua casa e que li só mais tarde, havia a revelação que ele não era italiano PORRA nenhuma (rs). Foi uma mistura de irritação, frustração e um sentimento muito ruim quando se é enganado. Hoje me divirto com essas lembranças, mas na época sei o quanto foi decepcionante cair nesse truque! rs

Decepção aqui e ali, penso a respeito, penso no envolvimento, compartilho com meu ex-sócio e resolvo ligar. Quando ele atende a frase imediata que me vem a cabeça é: “Será que a partir de agora dá para conhecer a pessoa que você é?”. O bicho gelou e como gelou (rs). O texto veio sob medida e foi ponte para um recomeço. Conheci a versão brasileira do falso italiano (rs) e, depois das devidas desculpas pelo “truque de balada” fui desvendando quem era a pessoa, sua realidade e, no pacote, veio toda uma família enorme de irmãos, cunhados e cunhadas compreensíveis com a nossa realidade gay e uma mãe, daquelas “super mães gays” que erguem a bandeira, com forte emoção para o bem e para o mal (rs).

Seis meses depois estaria assumindo minha empresa sozinho e com essa realidade de autonomia, veio também um desejo enorme de sair da casa de meus pais. Tinha 26 ou 27 anos, era 2005 e meu pai tinha acabado de descobrir sobre a minha sexualidade. Não somente por isso, mas por outros “n” motivos de divergências e personalidades, a minha relação com ele não andava bem. Tive e tenho um pai ultraprotetor, de fechar as asas com Super Bonder. Só que eu, ariano que sou, não podia conviver com os excessos de preocupação sem questionar, desafiar, enfrentar ou contestar (rs).

Nesse contexto, mais a paixão que se estabelecia na nova relação, surgiu a ideia de conciliar tudo: empresa de carreira solo, nova casa e um casamento. Mais uma vez, ariano que sou, sempre gostei de assumir responsabilidades na intensidade (rs). Achava que daria conta e deu!

Contra a super proteção de meu pai, sai de casa a contragosto para um aluguel, assumi a empresa sozinho e casei. Minha mãe sempre apoiou minhas decisões, sempre entendeu a minha rebeldia e a minha maneira “Forest Gump” de seguir pelas minhas vontades sem o julgamento e o preconceito que muitas vezes nos segura. Tinha 25 anos e uma sensação de nada a perder.

Por um lado, meu namorado que viraria marido, tinha um medo tremendo de sair de sua realidade, se afastar de sua mãe e de seus amigos. Por outro, tinha outro medo terrível de me ver sozinho, sem impedimentos, morando na minha própria casa (rs). Pesa aqui, pesa acolá, entrou no pacote!

Foi nesse contexto jovem, impetuoso e sem medo das novas obrigações, que dei essa salto na minha vida. Não fosse esse pulo, não teria a clareza das coisas que tenho hoje e, muito provavelmente, as palavras do MVG não existiriam.

O impulso do casamento foi ótimo nos primeiros dois anos. Tive uma família por parte do meu marido. Churrasco, festas de aniversário, encontro com “cunhados”, almoço na sogra e, assim, formava meu primeiro contato real com parentes, inserido num grupo familiar.

Experiência incrível essa, até o momento que a gente percebe que família grande, bem ou mal, acaba tendo intrigas e fofocas mais do que se imagina. É cunhada que não se dá bem com irmã, é sogra que não se bica com o tio e assim vai! Coisa de grandes famílias que estabelecem um convívio mais intenso.

Com meu marido aprendi a me preocupar menos com coisas pequenas. Costumava a encanar com algumas bobagens, que me tornavam metódico demais. Ainda me sinto metódico, mas hoje aprendi a dosar mais.

Enquanto durou a paixão, dividíamos as responsabilidades da casa e dos “filhos” cachorros.

Foram três anos importantes de convívio diário com uma outra pessoa sob o mesmo teto. Não tem como não tirar lições desse estilo de vida. A gente cresce muito por um lado. Em compensação, por outro, a minha parte “adolescente hormonal” ainda dava seus gritos. E a dele também. Não foi uma ou duas vezes que o peguei em situações duvidosas quanto a interesses em outras pessoas. E acho que isso é coisa do homem. Do homem imaturo e dos hormônios (rs).

O ciúme, de certa forma, foi a barreira para o bem e para o mal, para que evoluíssemos na relação. E teve uma hora que não deu mais. As fantasias, cobranças e limitações cresciam de tal maneira que passaram a conduzir a própria relação.

Me sentia aprisionado para muito além do que era fato, a ponto de ser um alívio ficar sozinho na frente de tevê enquanto ele passava um sábado na casa dos pais.

De qualquer forma, com o olhar de hoje, posso afirmar com toda certeza que os três anos de casado foram um verdadeiro exercício de maturidade. Muitas vezes a gente abdica de viver determinadas situações ou por medo ou por não querer assumir certas responsabilidades. Nos achamos jovens para fazer isso ou aquilo e deixamos para depois.

Nesse meu caso, caímos de cabeça no casamento sem pensar muito. Por um lado, precipitado e pouco pensado. Por outro, rico de experiências e de situações que exigiram uma reflexão mais profunda sobre as nuances de um relacionamento. Se não refletíssemos diante algumas situações alguém poderia sair literalmente machucado.

Poderia ficar eternamente traumatizado ou traumatizado por longos anos. Mas preferi viver as lições positivas que o meu casamento gay me proporcionou durante e depois.

Com muita intensidade, para o bem e para o mal, nossa relação fez despertar em mim um lado muito racional em contraposição ao lado dele tão emocional e dramático.

Apesar do estado de alerta constante no final da relação, e isso a princípio parecer ruim, foi testando meus limites e as vezes até mesmo ultrapassando que eu fui aprendendo a ser homem.

5 comentários Adicione o seu

  1. Peter disse:

    Poxa, que experiência de vida! Eu realmente só não entendi porque raios ele fingiu ser italiano! Existe um certo fetiche gay pelos gringos, é isso? Que coisa, hahaha!

    1. minhavidagay disse:

      Ah ah! Não creio que seja pelo fetiche. Mas possivelmente o “italiano” conferia um lado de status, coisa de auto-estima provavelmente! EU até me senti bem em namorar um italiano, ahahahaha!

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