O quarto namoro de um gay – Parte 1

Então já narrei aqui o meu primeiro e inesquecível namoro (1 ano de 11 meses), meu segundo namoro meio a distância (1 ano e meio), meu casamento de quase três anos e agora vou narrar meu quarto, que durou um ano e três meses.

Mais do que contabilizar em números, que não é o objetivo, o interessante é contextualizar os leitores das fases da minha vida gay e não gay, dos ganhos, das perdas e da representação de pessoas na minha formação, das relações mais profundas que fizeram a diferença no exercício de intimidade e no aprendizado do que é se relacionar. No final, em 11 anos assumido na vida gay foi mais tempo namorando que solteiro! (rs) Impossível não dizer que nas idas e vindas e nos altos e baixos do meu amadurecimento, tive por perto pessoas muito importantes que me fizeram desvendar um pouco dessa coisa do amor e que fizeram brotar de mim as intensidades da paixão.

Entre um tempo e outro aconteceram encontros com outros, mas em formato de “casos” porque para mim não dá para dizer que 4 meses é namoro!


Introdução: do fim do meu casamento ao meu próprio reencontro

Tinha saído de um casamento que me privou em absoluto de respirar a vida gay que, na época, me fazia falta. Relato bastante a situação crítica entre eu e meu marido no post “Crises de um casamento (gay)”. Foram quase três anos sem saber de baladas e, a contragosto, até os amigos gays já não estavam mais próximos.

Como comentei, meu primeiro namorado – depois da nossa relação – passou por um longo período de solteirice e namoricos curtos, tornou-se razoavelmente reconhecido no meio e, na ocasião do meu término do casamento, estava namorando com um menino.

A sensação que ficava do meu casamento foi de uma prisão, da falta de ar e parecia que eu era “virgem” novamente sobre as coisas do meio gay. Precisava de um apoio, um norte para me reencontrar como alguém solteiro para entender novamente o que era estar sozinho e o que era sentar num bar do “quadrilátero rosáceo”.

Precisava aprender a me socializar de novo.

Foi aí que recorri ao meu primeiro namorado, que mais anos de amizade do que namorado, foi extremamente solícito e me levou no Bar da Dida. Não é à toa que fiquei apaixonado por aquele lugar, fato é que já dediquei posts exclusivos para falar do boteco: estava totalmente retraído, perdido e sem saber por onde começar. A vibração do meu casamento me fez sentir aprisionado, com teto baixo e paredes estreitas. Quando conheci o Bar da Dida, totalmente simpatizante, com mesas ao céu aberto (e como eu diria de pé direito infinito), simples e ainda tocando Beatles, indie rock e MPB das caixas de som, foi uma simpatia imediata. Me agarrei àquele bar e ele foi a minha oportunidade para meu próprio reencontro.

Naquela noite, do primeiro contato com o mundo depois do casamento desfeito, duas situações curiosas aconteceram: a primeira é que o meu amigo/primeiro namorado começava a narrar sua atual situação MUNDANA de vida (rs). Estava há 6 meses namorando o tal menino mas ao mesmo tempo estava de caso com um cara casado! E eu, todo humilde e recatado, redescobrindo o mundo, recebi aquela informação como uma bomba: como o meu primeiro namorado, hoje amigo, que mantinha um relacionamento super fiel comigo como namorado (2 anos) e amigo (6 anos) poderia ficar “PUTIANDO” daquele jeito?! (rs). Confesso que foi um susto logo na primeira saída. E o pior: o menino estava ainda vindo ao nosso encontro em algumas horas! Teria que forçar uma linha “elegante”, sendo que a ideia era relaxar! rs

Outra surpresa que levei, logo na minha primeira saída como solteiro recém terminado de um casamento foi que lá na Dida um rapaz bastante interessante estava me paquerando desde o início da noite, ou pelo menos eu tinha uma leve desconfiança de que era isso. Estava sozinho, bebeu todas e em determinado momento me chamou de canto para uma conversa, daquele jeito de mexer a cabeça dizendo “vem aqui”. Nessa hora, meu amigo já estava na companhia do namorado (inclusive um belo namorado). Brinquei: “bom, agora vocês estão juntos. Aquele rapaz bonito que me paquerou a noite toda me chamou para conversar. Vou deixar os pombinhos por aqui”. Só lembro da reação dos dois: “VERDADE?!” (rs).

A primeira noite já terminou em sexo no carro. E para fechar com chave de ouro, o rapaz confessa ser casado!

Ficava pensando comigo enquanto voltava para casa: que beleza… sai de um casamento todo regrado pelo ciúmes, que me fechou em um mundo a dois ao extremo e na minha primeiríssima oportunidade de me reconectar com a civilização vou direto para a ala do INFERNO! rs

Confesso que toda aquela vibração estava me agradando bastante. Estava curioso com os casos do meu amigo e seu relacionamento com namorado e com o amante, e curioso com aquela figura que tinha acabado de ficar e transar: esse mundo gay está um inferno, meu filho! (rs) De fato, os religiosos que me perdoem (rs) (rs) (rs) era disso que estava precisando! :P

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E lá vem o novo namoro…

O tempo se passou e pude durante seis ou oito meses me recompor como alguém solteiro. O que tinha de certo é que não queria um relacionamento tão cedo! Os rastros do casamento ainda estavam marcados, surtos e ligações dramáticas aqui, aparições surpreendentes acolá, mas com o tempo estávamos nos desconectando como forçadamente havíamos nos proposto. Foi no segundo semestre de 2007, no feriado da Parada GLBTXYZ daquele ano que eu e meu amigo-primeiro-namorado combinamos de cair na Lôca no feriado da Parada. Meu amigo já não mais namorava o menino que estava tomando chifres, mas o rapaz também iria a balada na base da amizade. Assim, combinamos todos e mais dois outros amigos para nos encontrar no “bar do Zé”, ao lado da Lôca.

Cheguei primeiro e o meu amigo-primeiro-namorado havia comentado que chegaria atrasado, mas que o ex já estava no bar. Comentei que não lembrava direito da fisionomia do rapaz, mas fui até lá. Encostei num canto enquanto esperava meu amigo chegar com a sua tropa. Nisso, um menino se aproxima de mim e se apresenta: “oi, sou eu!”. Realmente era ele (rs), o ex-namorado do meu amigo. Ficamos lá conversando um tempo até que a turma se reuniu e fomos para a fila da Lôca.

A balada estava impressionantemente cheia e era a primeira vez que estava conhecendo aquele canto escuro. Feriado da Parada as baladas GLS ficam exatamente assim. É gente que vem de todos os cantos do Brasil e do mundo para ofegar em meio a diversas possibilidades!

O meu amigo-ex-namorado já estava com um caso novo que encontrou na balada. De tão intransitável que estava passamos a maior parte do tempo numa rodinha no mesmo lugar. A paquera do meu amigo era engraçado, baixinho e “parecia” um Smurf barbudo (rs). Acabei fazendo uma piada maldosa para o ex do meu amigo que estava ao meu lado e o assunto virou motivo para puxarmos outras conversas.

De súbito, um mineiro muito interessante mas extremamente bêbado chega próximo e começa e me fuzilar. Só que o rapaz estava tão bêbado que acabou perdendo um pouco a graça. Voltei a conversar com o ex do meu amigo e ficamos dando muitas risadas sobre assuntos quaisquer de pessoas que já estavam semi-bêbadas.

Teve um momento que queríamos ir todos ou quase todos no banheiro e naquela extrema concentração de pessoas o jeito foi um segurar no outro para que a gente não se perdesse. Nessa situação, o ex no meu amigo que vinha atrás de mim me segurou de um jeito bastante íntimo. Percebi isso durante centésimos de segundo e depois desencanei. Depois de enfrentar a fila da privada e descarregar um longo “number one”, enquanto lavava as mãos meu amigo-ex-namorado se aproxima e diz: “estou achando que meu ex está a fim de você”. Em um primeiro instante estranhei sua postura, mas logo em seguida veio a mente que, de fato, ele nunca havia gostado do menino. Afinal, ter uma relação durante 6 meses com um caso em paralelo mostrava um desinteresse.

De qualquer forma, desconversei e seguimos, na nossa fila indiana para algum lugar em meio aquele formigueiro!

Resolvemos parar próximo as escadas, entre o salão do bar e a pista e por lá entramos na vibe do som. Nessas horas estavamos todos bêbados e curtindo a vibe da balada. Notei mais uma vez o meu amigo-primeiro-namorado sinalizar com risadinhas que o ex dele estava ligado em mim. Resolvi não reparar muito naquilo e cai na dança.

Quando abro os olhos noto que o mineiro estava ao meu lado, mais bêbado do que antes e praticamente se apoiando em mim. Nesse momento, quando o mineirinho começa a balbuciar algumas palavras ininteligíveis para mim, o ex do meu amigo rapidamente sai de cena e se atraca com algum fulano no canto da balada. Pronto! Foi motivo para saber que era viagem do meu amigo!

Só que o mineirinho estava transtornado de bêbado. Não falava coisa com coisa, o bafo estava PUNK e não conseguia se firmar no chão. A situação que poderia ser legal ficou brochante. Resolvi dar um gelo, fechei os olhos e cai no transe do som.

Uma ou duas músicas, olhos fechados e a sensação boa de uma liberdade que ainda estava redescobrindo. Até o calor de sauna e o frenesi de centenas de pessoas me faziam bem naquele momento. Aquela agitação que poderia me “intoxicar” em outra situação, naquele dia estava lavando a minha alma.

[Esse post ficou de bom tamanho! Continuo a história no próximo]

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