O quarto namoro de um gay – Parte 2

O início de uma história confusa

O calor humano daquela balada GLS, em pleno feriado da Parada GLBTZYX, funcionava para lavar minha alma. Ao som da batida do DJ Pomba, provavelmente anos 80, mantinha os olhos fechados e me deixava levar pelo ritmo, pelo movimento de pessoas e pelas luzes.

Quando abri os olhos, de um lado o mineiro continuava a me fuzilar e o ex-namorado do meu amigo retornava com um sorriso no rosto. Começava a se aproximar de mim e, de repente, aquela sua fisionomia realmente parecia de interesse.

Naquele fluxo de pessoas, som alto, agitação e intesidade, alguma coisa me dominou, dessas coisas que costumamos liberar quando há álcool no sangue e interesses óbvios. Tinha duas opções: andar dois passos para direita e beijar o mineiro, ou apenas me virar para a esquerda e beijar o ex-namorado do meu amigo que era um dos maiores incentivadores da situação.

Num lampejo pensei que ficar com alguém com histórico mais conhecido seria mais saudável (rs). Segundos depois estava eu e o menino em beijos e abraços apertados.

A noite se seguiu nesse modelo na pista, no banheiro e no andar de cima da Lôca.

Começava a amanhecer e o ar da balada já estava muito mais respirável.

Fiz a CAGADA de comentar para o rapaz, numa ingenuidade, sobre meu conhecimento do caso do meu amigo que na época que o namorava tinha um amante. Não me parecia óbvio ele não saber, muito pelo contrário! Mas não sabia. Gelei e no dia seguinte foi alguns minutos de conversa por telefone com meu amigo-ex-namorado que exclamou: “PUTA, VOCÊ CONTOU. AÍ, QUE MERDA!”. (rs) Bom que esse caso se resolveu rapidamente! rs

Na saída da balada, já de dia, na frente da casa dei um selinho de despedida no menino que sequencialmente exclamou: “Nossa, ninguém nunca despediu-se assim de mim”. Achei bastante estranho seu comentário, no momento que gestos assim eram tão comuns a mim. Mas não havia mais energia para falar sobre o assunto.

No dia seguinte, rolou a Parada GLBTXYZ, seria a terceira que iria, mas a ressaca, o cansaço e a preguiça daquele movimento para quem já foi em duas em anos anteriores me fez ficar quieto em casa. Mandei uma mensagem para o menino: “Curti a gente se conhecer”, mas não fui correspondido!

O feriado acabou e durante a semana o menino pediu ao seu ex o meu MSN.

A partir desse dia, longas conversas sobre nós, sobre o mundo e as afinidades se desenrolaram.

Ele ainda reservava um sentimento pelo meu amigo e, a princípio, assumi uma condição de amigo/psicólogo, dando conselhos.

Depois de um tempo, pelo menos uma vez por semana o menino fazia uma visita em casa. Comíamos, cozinhávamos, pedíamos pizza, batíamos um papo e compartilhávamos também um prazer pela maconha. Para algumas pessoas, bem ou mal, a maconha é instrumento que simboliza afinidades e até mesmo intimidade. Para mim, que já tive minha fase intensa da época de faculdade, esse pensamento seria adolescente demais. Mas para ele, maconha tinha toda uma representação de afinidades, de inclusão, coisas que as drogas no geral fazem quando somos adolescentes. Ele não era mais adolescente, mas entendia a maconha assim.

A frequência de encontros acabava formalizando um relacionamento mais sério e eu não estava sacando bem qual era dele. Não queria nada sério, mas também não bloqueava as suas vontades de comparecer pelo menos uma vez por semana. Uma vez, duas, passou a dormir em casa mas ficava me questionando que relação era aquela. Eu não queria um envolvimento sério, mas se aquilo era sério queria entender se era namoro. Ele fazia questão da frequência, mas ao mesmo tempo repudiava a ideia de namorar.

Assim, naquele chove-mas-não-molha que durou alguns meses tomei a decisão e falei: “se não temos nada sério, acho melhor a gente evitar de se ver. Sei que o que a gente está começando tem todo um jeito de paixão e porque não dizer amor? Mas acabei um casamento sufocante, como você sabe, muito recentemente e acho melhor eu curtir um pouco mais”. Ele levou um susto, mas concordou. E, embora tenha concordado, queria continuar a me ver com uma frequência. Ficou atônito quando falei sobre o amor com aquela naturalidade e o tema, amor, virou assunto por meses a fio em mensagens pelo MSN.

Dessa maneira, ele vinha com a sua frequência, mas eu não deixava de conhecer outras pessoas. Cheguei a entrar numa fase intensa e promíscua e de certa forma entrei nessa onda para puro conforto do ego: cheguei a transar com um na sexta, outro no sábado e com ele no domingo.

Abusei, aproveitei, rompi o suficiente com o meu moralismo, ética ou qualquer que seja o valor que julgue a promiscuidade e, como castigo, peguei uma gonorréia! (rs).

[Para quem não sabe, gonorréia é uma DST bastante comum de pegar. Como sintoma acontece uma ardência na hora de urinar, sai pus pelo canal, mancha cueca e as bolas dóem. Existem medicamentos que se toma de uma semana e que resolvem rapidamente o problema. Não querendo dar um de moralista, não aconselho ninguém a não transar sem camisinha, por essas e por outras. E no caso da gonorréia tem gente que tem mas não tem os sintomas!].

Peguei a doença e passei por um período de abstinência sexual e incômodo. Logo que me consultei comprei meus remédios e comprei para o menino também. Explique a ele a situação e ele se medicou no período. Continuava a me visitar na frequência que entendia como bom e havia comentado: “se soubesse de outra pessoa, muito provavelmente eu me incomodaria”. Não entendi a sua afirmação e até hoje tenho dúvidas a respeito (rs). De qualquer forma, naquela época não tinha mais sexo e não ficávamos.

No ano novo, depois da ceia, saímos juntos para a balada. Saímos muitas outras vezes juntos. Eu ficava um pouco aqui e ele ficava um pouco ali.

Chegava o carnaval e junto com amigos faríamos uma viagem para Ponta Negra, uma praia pequenina e tranquila próxima a Paraty, litoral do Rio. Já estava tudo certo e combinado e quase não pude ir por causa das responsabilidades novas com a minha empresa naquele momento.

Confesso que a insistência e a “bronca” que recebi do menino me fez repensar. Me reorganizei e fomos eu, ele, um amigo dele e dois amigos meus. Meus dois amigos, mais velhos, são pessoas que desde conheci até hoje – e isso faz uns seis anos – são pessoas de alta confiança, daquelas de sentar para contar de intimidades e ter bons conselhos, ou cair na balada pelo simples prazer da companhia. O amigo do menino, um molecão de 30 anos que, para mim, guardava um sentimento mal resolvido por ele acabava indo para que o menino não se sentisse deslocado.

No final éramos cinco gays solteiros fugindo para uma praia pequena e vazia, para brincar de cozinhar, beber, jogar baralho, comer peixe na beira da praia, mergulhar, tomar banho de cachoeira, fumar maconha e ficar de papo para o ar madrugada a dentro, numa belíssima situação de aproveitar a paz.

A atmosfera da praia acabou sendo cenário ideal para que, numa madrugada, quando todos já dormiam, eu e o menino na varanda da casa continuássemos nossos assuntos de afinidades, bêbados e fumados, começássemos com insinuações e nos pegássemos com um desejo imenso um pelo outro, madrugada a dentro.

Voltamos para São Paulo como namorados.

[Continua no próximo post]

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