Relato de um amigo gay que não é LGBT


A comunidade LGBT na realidade é um pouco míope porque enxerga, basicamente, aqueles gays que de alguma maneira se expressam dentro de um nicho marcado, da frequência em determinados lugares, de alguns hábitos padrões, de um tipo de exposição. Em outras palavras, e no meu ponto de vista, essa coisa LGBT acaba segregando também e excluindo um grupo grande de gays que não se identificam propriamente com o movimento, que podem ser enrustidos ou assumidos.

O meu amigo “Tommy” é gay e não se enquadra em nenhum critério mais óbvio do que a comunidade apresenta.

Conheci o amigo faz 5 anos e paqueramos em alguns períodos. Digo amigo porque não concebemos um relacionamento que não passasse de dois meses.

O Tommy é um cara bastante sociável. Foi um dos cabeças da comissão de sua formatura na época da faculdade, é o queridinho da vizinhança e é considerado o filho exemplar, bem empregado e ambicioso nas coisas da profissão.

Só que uma vez tentei levá-lo no meu querido Bar da Dida e, na frente do boteco ele travou, negando-se veementemente de ficar por lá. O bar nem GLS assumido é, muito tranquilo por sinal, sem pegação e uma variação grande de pessoas que ilustram bem a diversidade de São Paulo.

O Tommy é um gay que evita ao máximo tudo que vem, cheira ou tem cor de LGBT. E muito provavelmente ele não é o único do Brasil que consegue ser gay mas não precise degustar do que é gay.

Confesso que um dos motivos para não levarmos a frente um relacionamento mais sério foi esse aparente “bloqueio”. Mas fico me questionando: será que realmente é bloqueio ou não há gays que preferem viver suas vidas sem fazer parte do meio?

Sei que hoje ele está namorando, se entretém com seus amigos heterossexuais e seu namorado, não sei em que nível já está assumido ao seu grupo social e evita ao máximo qualquer contato com o universo gay.

O que antes me parecia preconceito ou cisma, talvez seja mesmo um estilo de vida.

Ainda acho que ele deva pelo menos sentar, as vezes, num bar GLS para ter referência, para perceber como as pessoas se comportam e respirar um pouco do ar da comunidade, rompendo de vez com qualquer tipo de barreira ou possível preconceito. Em outras palavras, não é muito diferente de dizer que não gosta de maçã sem nunca ter experimentado.

Talvez exista um medo de ser corrompido, de se perder no turbilhão gay e nos vícios comportamentais que o meio apresenta. Não sei bem.

O fato é que hoje, ao contrário de ontem, fica mais compreensível a mim querer viver a vida sem precisar estar entre os gays.

Para sermos alguma coisa, precisamos nos provar, mas quanto precisamos nos submeter ou nos tornar parte de um meio para sermos realizados? Tem gente que se realiza, tem gente que não e não existe um padrão.

Enquanto escrevo essas linhas do post, meu namorado está ao meu lado assistindo um filme pelo Netflix. Não sei o que é ser gay há mais de oito meses. Sábado passado tivemos um casamento, da prima do meu namorado, com centenas de pessoas e fazíamos parte dos casais da balada. Simplesmente casais. Ficamos até as 5h30 da manhã, aproveitamos até os últimos minutos como indivíduos que estavam se divertindo na festa de pessoas queridas, na pista, sem parar um instante.

Nada gay.

Aliás, nos últimos meses, lembro da minha sexualidade apenas quando abro o MVG para me corresponder com algum leitor ou quando vou regidir algum post. Lembro apenas quando estou com um amigo gay e conversamos de algumas intimidades.

Será que ser gay não tem que ser assim? Tão comum que a gente nem lembra que é gay, ou nem lembra que ser gay é uma questão em nossas vidas?

Que ser gay não é um estilo, nem lugares para se frequentar ou assuntos específicos para se falar?

Que ser gay não são hábitos particulares ou excludentes?

O meu amigo Tommy está aí para comprovar.

Que diferença faz ser gay mesmo?

3 comentários Adicione o seu

  1. Peter disse:

    Eu sou como “Tommy”. Não me vejo e não acho tão necessário estar muito presente no meio gay. Sim, por um lado, estar num ambiente assim apaga aquelas dúvidas que muitos têm em relação ao que é normal e o que não é, porém por outro, passa a impressão que por sermos gay, temos o nosso lugar e de lá não devemos sair. E não é bem assim.

    Enfim, se algum dia eu perder esse meu “medo” bobo, vou conhecer o Bar do Dida, que tanto fala!

    Abração!

    1. Peter disse:

      Eu de novo! Tava lendo o Top 10 do Bar do Dida, e achei o máximo essas duas perguntas:

      1. O bar é GLS? O bar não tem orientação sexual. Todos são bem-vindos.
      6. Tem brinde para o(a) aniversariante? Não.

      Hahaha, simples e direto!

      1. minhavidagay disse:

        Rs… Isso é a cara da Dida rs

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