A vida gay de cada dia

No post anterior comento que já me acostumei tanto com a minha homossexualidade que nem lembro mais que sou gay. Isso pode ser sinal de que cheguei num ponto da vida que a minha homossexualidade está bem definida, já tem lugar certo e já é uma parte integrante da minha vida que não me traz imprevistos ou reflexões, como um estado de bom humor ou mal humor que é comum para qualquer pessoa.

Nem sempre foi assim, quando principalmente, me aceitar como tal e viver o que o mundo me ofereceria era o morango do sorvete. E isso, no passado já foi prioridade, numa fase da vida que nós gays, na maioria das vezes, passamos e muitas vezes continuamos porque sair desse fluxo de aceitação parece nos descaracterizar de novo, sendo que levamos um tempo enorme para assumir e depois mais um tempo para se firmar.

Nem oito, nem oitenta, ou talvez um pouco de tudo, cheguei aqui com essa sensação de que ser gay hoje não me impede de nada.

Há três semanas estou com um novo profissional na equipe. É estagiário, tem 18 anos, aparentemente namora com uma menina há um bom tempo e se mostra sensível e bastante esperto às demandas de trabalho.

Na hora do almoço, quando posso me reunir com parte da equipe, falamos muito sobre assuntos gerais e o menino, apesar dos 18 anos, tem um repertório cultural bastante amplo e próximo das referências da minha geração, como Elis Regina, Chico Buarque e Alfred Hitchcock.

Acontece que ele não sabe que sou gay e, ao contrário do passado, que me revelaria logo nos primeiros dias de contato, estou preferindo deixar essa minha intimidade para ser anunciada naturalmente, em algum momento de assuntos sobre relacionamentos ou até mesmo sobre sexualidade.

Para mim, já está evidente que pela sua sensibilidade e pela minha experiências de “came out” lidando com as reações das pessoas, o rapaz terá uma naturalidade que a maioria dos jovens de 18 anos tem hoje, dessa geração que nasceu em meados da década de 90. O que me dá um pouco de preguiça e que provavelmente me faz estender essa conversa é que, quase certo, virão aqueles questionamentos triviais: “quando você descobriu?”, “como foi para seus pais?”, “nossa, você não aparenta nada. Como pode?”, “puxa vida, eu jamais desconfiaria. Mas aí, me conta sobre X, Y, Z, ativo ou passivo”, e assim vai, como sempre costuma ser quando as pessoas se sentiam e se sentem a vontade para falar sobre sexualidade.

No passado, contar essas histórias era um prazer! Fazia parte da minha aceitação, da minha inclusão e da maior proximidade entre eu e a pessoa que criava comigo o diálogo. E de fato foi muito bom, espero que todos gays vivam esses momentos de aceitação e liberação. Mas hoje, não me enche mais de prazer.

A minha casa também é sede para meu escritório. Assim, sócios e equipe vêm até meu lar todos os dias. Faz um tempo que meu namorado não dorme por aqui durante a semana pois anda com responsabilidades altas no trabalho e eu também estou nessa frequência. Calhou da semana passada ele querer dormir aqui e expliquei o contexto do novo funcionário. Ando focando fortemente os aspectos de liderança, formação dos meus novos sócios, e alinhando modelos de gestão de trabalho no dia a dia. Meu namorado sair do quarto, dar bom dia para todos e seguir seu caminho não seria a maneira mais natural do menino desconfiar/descobrir da minha sexualidade. Quero reservar esse momento para um conversa, para quando tiver tempo e, principalmente paciência. Convenhamos: jovens de 18 anos são curiosíssimos! rs

Expliquei a situação para meu namorado e, no contexto, ele compreendeu muito bem, mas eu também expliquei com clareza. Poderia anunciar a qualquer hora ou já poderia ter anunciado para não ter limitações. Mas antes de expor a minha intimidade, quero embasar firmemente os vínculos profissionais e deixar para que os laços pessoais se desenvolvam naturalmente. Meu namorado sair do quarto, que dá de frente para a sala da empresa, e também se expor dessa maneira, não seria o jeito mais tranquilo de começar. Seria mais uma imposição do que um esclarecimento.

Já vivi a minha fase intensa de auto-afirmação que normalmente perdura a partir do momento que nos assumimos a nós mesmos e pode continuar pelo resto da vida. Quantos não foram os amigos que souberam “na lata” e até mesmo colegas profissionais que, durante uma reunião falavam de mulheres, eu me enchia e dizia: “então, o correspondente da empresa aqui, que se materializa a sua frente nesse instante, é gay. Me poupe desses assuntos de vagina!” (rs).

De segunda a sexta, das 8h da manhã até o momento que desligo meu computador não sou gay. Sou dono de uma empresa que está cheia de responsabilidades. A partir daí, se por ventura calhar de falar da minha intimidade, não teria reticências.

Meu namorado compreendeu, estou em paz com essa escolha e, outrora, lembro como ficava numa ansiedade para me revelar, muitas vezes impondo situações para que o assunto viesse a tona.

Quando a gente entra num fluxo de sair do armário, e estamos finalmente felizes com isso, as vezes não medimos a “carga” de como revelar. Pela minha personalidade, lembro como eu impunha essa verdade sem deixar tempo para a pessoa refletir. A ficha acabava caindo depois, quando a pessoa me via pela segunda ou terceira vez para compartilhar suas dúvidas (rs). As velhas, boas e eternas dúvidas trivias da intimidade homossexual (rs).

Relendo esse texto, me noto um gay mais vivido (ou velho! rs). Me bateu até uma saudade de quando a coisa vinha, eu soltava e a pessoa que se virasse com a informação! (rs). Mas, brincadeiras a parte, é muito melhor assim nesse contexto.

Ufa! Ser gay para mim e ter a reciprocidade pelo fato já não são minhas prioridades.

4 comentários Adicione o seu

  1. Peter disse:

    Poxa, e esse (novo) tipo de gay, na minha humilde opinião, é o mais correto de ser. Pois a vida é sua, você não deve satisfações dela. Ora, um hétero não precisa ficar se auto-afirmando (a não ser que tenha “dúvidas”, ahahaha), então porque nós gays teríamos?

    Enfim, dei risada aqui com o que você fazia nas conversas sobre vagina! Fiquei imaginando a cara das pessoas ao ouvir isso!!

    Abraços!
    PS: Caraca, vários post nessa temporada, hein? Acho que li todos, rsrs

    1. minhavidagay disse:

      Aproveitei o feriado em SP para atualizar o MVG. Amanhã devo postar mais algo :)

  2. Bruno disse:

    KKK é engraçado isso de querer criar situaçoes pra fazer o assunto sexualidade vir a tona. Me identifiquei (mais uma vez) com o post, já passei por isso de querer falar pras pessoas que sou gay apenas pra chamar um pouco do atençao pra mim e poder responder a todas essa perguntas que nos fazem.
    Parabéns pelos excelentes posts! É sempre um aprendizado pra mim ler o seu blog.

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado Bruno!
      E valeu por acompanhar o MVG. :)

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