Fatos de um namoro gay – Parte 4


Vocação para família

Uma das principais atenções entre os casais gays são as relações familiares. Os que não são assumidos aos pais vendem o perfil do “amizade inseparável” e a família até compra porque, na maioria das vezes, acaba sendo mais cômodo não entrar nas verdades. Ou por um ponto de vista mais amadurecido, a intimidade do filho é particular e alguns pais entram apenas na hora que são convidados.

Por outro lado, os que são assumidos, costumam vivenciar três realidades: daqueles que preferem uma relação sem grande intimidade familiar, talvez por respeito ou modo que os integrantes da família se relacionam, daqueles pais (normalmente a mãe) que já eram os melhores amigos do filho e acabam erguendo a bandeira por ele e pelo mundo gay (rs) ou daqueles que, nem oito nem oitenta, alcançam um tipo de relacionamento comum, com independência no dia a dia e com mais intimidade em momentos específicos.

Durante meus relacionamentos transitei por um pouco de tudo. Com o primeiro namoro, meu ex assumiu sua sexualidade durante nosso relacionamento. O pai se aproximou do filho, sua mãe abominou e não cheguei a conhecê-los como namorado. Anos depois tive contato como amigo, numa feijoada de família, e a relação se tornou bastante natural.

Com o segundo namoro, mais uma vez a ex-sogra me conheceu durante a relação. Brigou, bateu o pé, falou de religião e afirmava que estava levando seu filho para o caminho do mal! Só que, curiosamente, enquanto “amigo inseparável” do menino até viajávamos todos juntos. Anos depois, num reencontro, forrou a mesa do almoço com todos meus pratos preferidos! :D

No contexto do meu casamento, conheci meu ex-marido e toda a família já sabia. A mãe tinha o perfil da super-mãe-gay que gostava de alardear até um pouco demais e precisava se auto-afirmar como uma mãe apaixonada pelo filho e, no caso, também por mim (rs). O pai já era discreto, de prosa tranquila e sempre respeitoso.

No meu quarto namoro, a mãe e a irmã também descobriram do filho, meu namorado, no momento que cultivávamos nosso relacionamento (detalhe: é muito comum os gays se revelarem para a família enquanto estão num namoro. Primeiro porque esse status define com muito mais clareza a sexualidade quando ainda existem dúvidas, ou seja, se um homem está namorando com outro homem e a relação está estabelecida a pessoa fica mais certa e confiante que é gay, e, depois, que quando se está namorando existe uma companhia certa para chorar as pitangas caso necessário. “Chorar as pitangas”, lembrei da minha mãe agora – rs).

A reação de mãe e irmã quando souberam foi de extrema discrição. Nunca comentaram absolutamente nada. Em um dia eu entrava na casa da família como amigo, no outro como namorado e absolutamente nada aconteceu, nem comentários, nem conversa de canto, nada, nadinha, nadica!

E foi agora, ou dois anos atrás que meu namorado se sentiu a vontade para assumir primeiramente para sua mãe e para sua irmã. Os dias iniciais com a verdade foram um pouco aflitivos. De questionamentos, de reflexões de influências, de certo ou errado, mas todos os conceitos pautados em diálogo e numa busca da aceitação.

Meses depois sua mãe junto com a sua irmã percebem meu nome muito frequentemente nos relatos do filho/irmão e o diálogo óbvio logo veio: “Mãe, o ‘MVG’ é meu namorado”. Sua mãe: “Ah, filho, bem que eu desconfiava”.

Pouco tempo depois de revelar o namoro para mãe e irmã, estive em Maresias com o Charosk e um novo amigo inglês, o Non. Meu namorado estava na casa de praia da família, muito próximo, e combinamos de marcar uma visita. Mas a família, no total naquela situação, era de umas 15 pessoas, entre tios, primos, primas, namorados, pai, mãe e irmã.

Tudo bem, não seria a primeira vez que teria que me socializar com familiares do meu namorado. O Charosk é totalmente bandeiroso (rs) e o amigo inglês disfarçava por ser da terra da rainha mas trinta minutos conversando com ele já se percebia uma suavidade no ar (rs). Meu namorado consentiu com a situação e fomos ao encontro num dia de churrasco.

O inglês virou atração principal: mania de brasileiro ficar idolatrando gringos, pow! (rs).

O Charosk, muito bêbado, deu um piti comigo no meio do nada, na frente da “plateia”, mas graças aos céus já era o final do encontro.

E eu tive uma boa conversa com o pai, que não sabia. Aproveitei a deixa para indiretamente ir preparando o sogro para a verdade (rs).

(Entre um movimento e outro, meu namorado me puxou para a dispensa, e nos agarramos um pouquinho por lá – rs)

Mãe e irmã estavam tendo o primeiro contato, materializado, real, de bermuda e regata: o NAMORADO do filho/irmão estava lá no “meio de nós”! (rs)

Resumo da ópera: primos e primas questionam a sexualidade do Charosk e do Non. E dizem assim: “os dois dava para perceber de cara! Mas o ‘MVG’?! Só dá pra saber porque estava junto!” (rs).

Por enquanto ninguém sabia de mim com meu namorado, exceto sua mãe e sua irmã. Nenhum parente ainda sabia dele inclusive, fora as duas. Só que, uma coisa é saber que o filho é gay e que estava namorando com uma pessoa. Outra coisa era ver materializar o próprio, junto ainda com dois amigos bibas! (rs).

Só sei que na volta da viagem, meu sogro ficou na praia, e a mãe e irmã ficaram na orelha do meu namorado a viagem toda de volta, para ter certeza de que tudo aquilo era real! Nesse momento, já estava no meu quarto em São Paulo prestes a dormir enquanto meu namorado me enviava SMS’s irritadíssimo e com as orelhas quentes. (rs)

Mas o susto passou e um tempo mais tarde meu sogro estaria sabendo. Os rumores eram enormes que ele não aceitaria, que lidaria com agressividade ou falta de decoro. Mas para a surpresa de todos ele lança uma frase sábia para o filho: “Eu dei a educação e condições que pude para você. Não criei você para mim mas criei você para o mundo”.

FODIDO. Achei incrível, tão incrível que a frase ficou registrada no meu HD interno que repito aqui com prazer (rs).

Claro que o pai passou por altos e baixos de consciência daquela verdade. Teve seus momentos de culpa, de buscar algum estudo sobre a origem daquilo e, até onde eu sei hoje, ele me cumprimenta com um abraço e um beijo no rosto como faz com os filhos e com todos sobrinhos.

No final das contas, com a família do meu namoradão tive mais barreiras com a irmã, vejam só que curioso e improvável! (rs). Um pouco de ciúmes daqui, um pouco de desconfiança dali e mais um ponto para o importante tempo mostrar que tudo aquilo era real, palpável e fluido. Deu-se um jeito. Somos bem queridos um ao outro hoje.

Numa atitude também bastante improvável e peculiar, mais ou menos depois de um ano de relacionamento, a mãe do meu namorado propõe ser a interlocutora para anunciar para irmãos, sobrinhos e agregados. No total de aproximadamente 60 integrantes dessa pequenina família! Por um lado, confortável para meu namorado, por outro, importante para minha sogra. A “corrente de anunciação” é feita.

Primos mais novos, meninos, chegam com as perguntas ingênuas e triviais ao meu namorado: “quem come quem?”, “como descobriu?”, “e aquela mina que você catava?! era uma farsa?!” (rs), e assim por diante. As meninas, “superpoderosas” e mais amadurecidas trataram e tratam com a maior naturalidade possível até hoje.

Óbvio, queridos leitores, que num cenário de tantos integrantes, uma conversinha aqui ou ali nos bastidores deve acontecer! Aliás, quem tem família grande e unida sabe muito bem que sempre vai ter conversinhas sobre todos os tipos de coisas: é a prima que rivaliza com a outra prima, é a esposa do primo que não gosta da esposa do outro primo, são os dois primos mais novos que brigam no meio da rua, “and so it goes”. Ser humano? Família grande? VIXE MARIA! Não precisa ser só gay para ter algum rumor todos os meses (rs).

O meu namorado que não leia, para não ficar muito orgulhoso, mas as experiências que tive com a sua família, com ele, desde o começo da relação foram as mais engrandecedoras.

Costumo dizer que a gente aprende a conviver com pessoas lidando com pessoas. Os exercícios de atenção e relacionamento são os que mais nos consomem. Mas, ao mesmo tempo, são os que mais nos fazem crescer.

Mostrei nesse post o aspecto familiar entre os gays. Fatos inseridos nas minhas experiências de vida que servem (ou não) como referência para os leitores do MVG.

Só que o “Fatos de um namoro gay” merece mais um capítulo como sugeri anteriormente. Vou falar do amigo Macarrone e como se desenrolou a história dessa personalidade entre eu e meu namorado.

[Fica assim para o próximo post]

4 comentários Adicione o seu

  1. Will disse:

    Fico lendo seu blog e penso: “Uau, muito bom de ler.”

    Tenho que me inserir no mercado de trabalho pra ter $$$$ e viver essas experiências de balada, bar e namoros que nunca tive.

    Continue postando, sou leitor-fã.

    1. minhavidagay disse:

      Realmente, querido Will, nesse planetinha se a gente não tem uma fonte a gente acaba meio restrito perante as possibilidades.
      Muito obrigado por ser um leitor que gosta do MVG. A ideia é continuar escrevendo e trazendo situações e cenários diversos para ilustrar nossas vidas gays!

      Abraço!

  2. Darkbringer disse:

    Também sou leitor-fã e nunca deixo de acompanhar as postagens. É como uma novela, sempre bate aquela ansiedade para saber o que vai acontecer no próximo capítulo. Principalmente com situações engraçadas e constrangedoras. Assino embaixo!

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