Fatos de um namoro gay – Parte Final


Os relatos sobre a minha vida gay apresentam aqui diversos pontos de vista: do começo das relações afetivas, dos términos, da vida solteira no meio GLS de São Paulo, da relação de casais gays e seus comportamentos com a família e vice-versa, de experiências engraçadas, diferentes ou curiosas que acontecem na vida de um gay, das casas noturnas e bares GLS e das amizades gays que pintam por aí, coleguismos, amizades mais íntegras e amizades que no fundo tem intenções libidinosas! (rs)

O fato é que todos os casos desses capítulos dos últimos cinco posts mostram que a vida gay é tão comum como uma vida heterossexual. Diferenças, preconceitos, bloqueios ou restrições é a gente mesmo que cria como negação ou proteção. O tom que damos a nossa vida, de fato, independe da nossa sexualidade e, acreditar nisso ou não, faz diferença.

O foco desse último post da série “Fatos de um namoro gay” vai abordar o tema da amizade gay sob um ponto de vista particular, meio louco, bagunçado e que hoje, depois de MUITO ESFORÇO segue num fluxo transparente (rs).

O amigo Macarrone me apresentou para seu amigo, que tornaria-se meu namorado. Hoje, estamos juntos há mais de dois anos e tudo indica que a relação deve prosperar por mais alguns anos. Aquele “MVG” do primeiro namoro mudou muito em relação ao que sou hoje, com 35 anos. Mais de 10 anos se passaram e experiências enriquecedoras aconteceram, não somente por causa de “sorte” ou “azar”, mas o tipo de olhar para a vida, as crenças e, inclusive, nossos temores ajudam a nos conduzir para o bem ou para o mal, para tirar lições positivas ou negativas, para traumatizar e se limitar ou para traumatizar e superar.

Nos posts que digo que relacionamentos não são fáceis, na verdade, não são mesmo! São difíceis e costumam seguir alguns modelos genéricos: ou ficamos acorrentados a uma relação por muito mais tempo do que deveríamos, por puro comodismo e medo de nos encarar sozinhos novamente, “debilitados”, ou evitamos seguir num relacionamento pela falta de jeito, medo e falta de tato, ou traumatizamos e nos bloqueamos para evitar as dores da paixão de novo ou, por fim, superamos tudo, tentamos de novo e de novo, e buscamos tirar um proveito positivo das oportunidades que a vida nos dá.

A capacidade de se relacionar também vem com a prática. Seja com um único namoro longo, seja com um grupo de experiências consistentes, de envolvimento e de intimidade. Essas relações que não saem do prefácio, que não se cria nem intimidade real, nem história, não conta porque fica na superfície do copo de leite! Pode até ser nata, mas não tem profundidade! (rs)

Só que o ser humano é um bicho bobo, que não precisa ser gay, nem precisa ser heterossexual, mas que muitas vezes tem medo da entrega. Ou as vezes se entrega muito e cobra, espera algo em troca e frustra porque na maioria das vezes não fica inteligível o que se espera, como se o parceiro fosse obrigado a desvendar e apresentar der mão beijada o que queremos, como um príncipe-leitor-de-mente-encantado.

Relacionamento é difícil, mas se fosse fácil teria graça? Provavelmente não porque uma das graças de se relacionar, sendo gay, bissexual, heterossexual, transgênero ou transexual é justamente descobrir o poder de nos desvendar numa relação, de aprender a de fato dialogar e organizar pensamentos, a expor nossas intimidades mais profundas e, acima de tudo, descobrir quem realmente somos. É isso, gente: quanto mais nos relacionamos, mais nos tornamos capazes de nos enxergar e de perceber o que queremos e quando queremos, como se relacionar fosse um presente divino, do auto-conhecimento. Como já disse em algum post, relacionamento é espelho.

Iniciei o post pelo fim. Vamos para o começo:

Um esforço sobre-humano para chegar na paz. Nada como o amigo tempo.

Era para eu ter desistido do meu namoro nos primeiros meses. O contexto real era que o amigo Macarrone vivia uma crise intensa com seu namorado, de traição, brigas exaustivas e exposição na república que meu namorado fazia parte. Além de tudo, o Macarrone teve um breve caso comigo e meu futuro namorado mantinha uma paixão platônica por ele no começo da relação (DE NOVO!). O Macarrone era, até então, a única referência gay que existia para ele.

O amigo Macarrone, todo belo, com o perfil europeu que o brasileiro se deslumbra, inconscientemente as vezes e muitas vezes consciente, acabava manipulando as pessoas a sua volta para puro exercício do ego. No fundo, adorava ver o namorado escandalizar na república para chamar atenção, afinal, era seu “eu” que era colocado em evidência nessas situações e tinha 900 desculpas evidentes para lançar sob as costas do namorado, criando o perfil do lobo mal e, consequentemente, ele como a ovelha (ou a chapeuzinho vermelho – rs).

Ao mesmo tempo gostava de me jogar contra o namorado, para provocar o puro exercício do ciúme, já que eu e Macarrone tivemos um caso meses atrás. Vez ou outra manipulava seu amigo (meu namorado), em prol de seu egoismo para voltar-se contra o “louco, invasivo e perturbado”. Meu namorado chegou até a acompanhá-lo na balada, como “guarda-costas”, porque o “louco” estaria por lá (curioso alguém querer ir numa balada que vai correr o risco de apanhar, não?).

[Só que pra mim, desde o começo, o bem e o mal de um relacionamento sempre foram de responsabilidade de ambas as partes. Aquele perfil “ovelha” me soava muito estranho, não existe isso!]

Fez que fez que, num vai e volta, seu namoro acabou. Quando se deu conta eu já estava namorando com seu amigo e a relação caminhava bem: meu namorado assumia para a família, para os amigos e a minha referência como um outro indivíduo gay na turma – e para meu namorado – tirava o Macarrone do seu pedestal. Não teria mais desculpa para dizer que o meu namorado tinha baixa auto-estima, que não levava jeito para a coisa e que era sem graça.

[Eu via muita graça, a relação estava realmente se construindo e o amigo de segundo plano do Nike estava, inclusive, saindo-se melhor do que o próprio “mentor” nas questões de relacionamentos estáveis!]

E o que aconteceu? O Macarrone, agora sozinho e perseguido pelas neuroses do ex, começava a buscar problema onde não tinha, e na minha relação. Para algumas amigas em comum ao meu namorado dizia que realmente havia gostado de mim e que achava muito estranho eu me envolver com seu amigo. Para outros amigos, fãs dos seus pelinhos de ovelha, eu realmente tinha caráter duvidoso porque meninos e meninas inexperientes de relação nunca entenderam direito o que havia acontecido entre eu e o Macarrone e como poderia estar acontecendo algo entre eu e seu amigo.

Horrível ter que perceber que, numa festa entre amigos, havia uma grande plateia: quando o Macarrone se aproximava de mim as pessoas paravam de conversar para ver. Quando ele se aproximava do meu namorado o mesmo acontecia. E no fim, mais uma vez, ele conseguia o que queria: olhares de atenção.

[Mas perseverante e obstinado que sou, briguei, cuspia meu ponto de vista e até cheguei a criar uma estranheza com as amigas mais afeitas pelo Macarrone. Com muita paciência e confiança no tempo, briguei bastante, mas deixei mais a coisa acontecer]

A ovelhinha foi perdendo os pêlos, a ficha do meu namorado foi caindo a ponto da república, na configuração que estava, não mais se sustentar. Bem ou mal, certo ou errado, eu não era qualquer “rival” para o Macarrone, mas seu egocentrismo acabou tornado-o míope.

Foi morar justamente com uma das amigas que fiz questão de despejar verdades (rs). Claro que não comprou a minha ideia, mas comprou a dele. Pelo menos, na casa do meu namorado ele não mais ficaria.

Apesar de me mostrar guerreiro para o mundo, dentro de mim estava tudo meio “quebrado”. Inseguranças que estouraram em formato de ciúmes que meu namorado teve que resistir muito (rs) e minha terapeuta também (rs). Mas para o mundo que não sabia da minha intimidade, continuava impávido!

[Confesso que achava que o tempo estava demorando para me ajudar (rs). Quando o Macarrone finalmente saiu do apê eu já estava pedindo arrego, 45 minutos do segundo tempo! Mamãe, me tira daqui! Estou só o pó! (rs)]

A dualidade que se formou entre os amigos do Macarrone, que também eram amigos do meu namorado, era o maior motivo para minha tristeza. As pessoas não falavam, mas havia no ar um sentimento de questionamentos quanto a minha conduta, quanto a pessoa que era, que tinha acabado de entrar na turma e que, no pacote, causou o afastamento de ex-bons amigos.

O poder do tempo é algo incrível. A amiga que dividiu apartamento com o Macarrone está vendo maneiras diferentes de tirá-lo da casa hoje (rs). As amigas que gostavam de colocar uma palhinha na fogueira vieram pedir desculpas e teve até uma que chorou (rs). O Macarrone, que podia ser muito amigo, não vejo há quase um ano. Não vai nos encontros da turma e, por falar nessa turma, as energias fluem com naturalidade agora.

E o que sobrou? Lição de casa para todos: sobre preconceito, julgamentos precipitados, sobre caráter das pessoas, sobre o quanto devemos nos meter nas histórias dos outros, sobre verdades, mentiras, lobinhos que são ovelhas e ovelhinhas que são lobos (rs).

Virar gente grande não é fácil! Relacionamento não é fácil! E se fosse fácil não teria valor nenhum.

Mérito, merecimento, recompensa. Por mais que venha de forma tímida ou discreta nos preenche o suficiente.

E tudo isso porque, quando assumi o meu namoro, sabia que era eu entrando numa história e entrando do jeito que sei do amor. Mas isso a gente não revela para todo mundo. Revela para os leitores do MVG, aqueles que buscam por referências de muito ou um pouquinho do que podem fazer com as próprias vidas! ;)

4 comentários Adicione o seu

  1. Marc disse:

    Definitivamente esse é o melhor blog sobre o assunto. Adoro a naturalidade com que tudo é abordado, sem rodeios e na medidade exata, sem vulgaridade. E mesmo quando há a tal da vulgaridade, ela se mostra no tamanho certo e na proporção adequada para se fazer entendida como mensagem ou relato e não como apologia. Assim como tudo o que é discutido nesse espaço, preza-se o conteúdo e sua possível reverberação nos leitores. Percebo que há sempre um cuidado em cada postagem. O que eu adoro muito. É uma grande consideração! E sou grato por isso!

    Minha felicidade é maior ainda quando descubro que é um blog vivo. Como é bom encontrar raridades e antes de virarem relíquias é melhor ainda! Podemos assim dar seu devido valor e corresponder o bem causado.

    Seu blog tem um tom de realidade tão gostoso, que consigo ficar horas lendo e refletindo. E esse tom só não é mais real, pela qualidade de descrição e detalhes de acontecimentos. Hoje em dia isso é tão raro que parece mais roteiro de seriado americano. As vezes esquecemos que a arte imita a vida e achamos nossa vida banal e corriqueira. Você prova que tudo depende do foco que damos a ela e faz da sua uma obra digna de livro e cinema.

    É tão bom encontrar um referencial humano no meio gay. Meio esse que por vezes parece tão alienígia e super orgulhoso desse fato. Me sinto tão feliz por poder respirar e ver atestado que sexualidade é um fator dentre milhares de características que formam um indivíduo. Não é minha sexualidade que me define como pessoa. O mundo não está dividido apenas em hétero e homo. Se formos analisar direito, veremos que isso é só um dos fatores, pois há os altos e baixos, os magros e gordos, os belos e feios, os bons e maus, os educados e os estúpidos, enfim, mesmo dentro de cada um desses itens, pode-se abrir um novo leque com nuances sutis e infinitas combinações. Pra que gastar tempo se dividindo quando o bom mesmo é agregar e crescer como pessoa?

    Obrigado por me mostrar o ser humano maravilhoso que vc é. Obrigado por me dar um referencial maduro, mesmo que não precisasse ser gay pra ser aproveitado e reconhecido como tal, mas que como gay me tranquiliza mais ainda e ressoa com mais força em mim. Obrigado pela coragem de abrir sua vida. Obrigado pela sinceridade, muitas vezes constrangedora de tão ousada. Obrigado pela generosidade de dividir seu crescimento pessoal. Obrigado por ser tão inteligente e saber se expressar com tanta maestria. Obrigado pela clareza de sentimentos e por escrever tão bem tudo o que pensa.

    Você me dá esperança de ter o que sempre sonhei: uma família, um relacionamento, uma cumplicidade e comunhão que por anos a idéia de não ser hétero amputou de mim.

    Sim! Eu tenho vontade de sair fazendo sexo por aí, como um animal no cio, mas eu penso, eu sinto e eu tenho consciência de tudo isso. E é nisso, justamente nisso, que me diferencio dos animais e é justamente por isso que me controlo tanto. Busco significados! Não julgo quem faz, desde que me dêem motivos reais. Não tenho seu grau de maturidade, e se eu experimentasse isso, sair do meu eixo, seria perder o rumo de casa e do meu porto seguro, e não falo de casa literalmente, falo de alma (que por sua vez não é nada de realigião, sou um quase ateu) mas sim de essência, de vida. Preciso de clareza, preciso de um referencal fixo, preciso ter ideais bem definidos para eu saber quem eu sou e o que eu quero. E vc tem me dado isso. Um grande exemplo. Obrigado!
    Só não estou mais grato, por você não ser um amigo na vida real e estar tão distante!!!!
    Abração meu querido!

    1. minhavidagay disse:

      Puxa vida, Marc!
      Confesso ficar emocionado com as suas palavras.
      Expressou muito bem todos os fundamentos do MVG e, a sua maneira, traduziu com clareza as reais intenções do blog, de ser parte para apoiar os gays que buscam um sentido ou sentidos, ou melhor, apoiar seres humanos que são mais do que gays ou heterossexuais.
      Assim como vindo de você, ter esse reconhecimento é bastante gratificante. E mais gratificante é perceber que alguns dos leitores interagem por ver correspondência com as suas vidas.

      Como reforço sempre, o blog não carrega verdades absolutas embora, as vezes, apresente meus pontos como grandes verdades. Mas serve como uma de muitas referências que os leitores podem ou não se identificar.

      Obrigado pelo depoimento emocionante!

      Abraço! :)

  2. Darkbringer disse:

    Realmente, gostei pra caramba dessa série! Quanto mais leio os posts desse blog, mais descubro que nada vivi da vida, que nada sei. Em busca da evolução, a frase sábia que sempre se repete, e que sempre está e estará certa: “A vida é um eterno aprendizado.” É realmente incrível que possamos evoluir, absorver de situações e desafios que a vida nos apresenta lições de vida, sejam elas positivas ou negativas. Viver é arte… Sinto-me privilegiado em poder absorver dessas situações por você aqui escritas lições de vida tão importantes. É muito melhor quando o ser humano evolui. Definitivamente, a vida é a melhor das professoras! Acho sábio o ato de aprender com o tombo do outro. Isso não significa que ninguém tenha que quebrar a cara! A vida sempre nos surpreende! Só deixa de ser sábio aquele que insiste no mesmo erro. Somos humanos! Erramos! Mas é isso que nos faz crescer. O pensamento de o quanto evoluí até aqui e quanto tenho para evoluir me traz uma certa felicidade. Por saber que a vida proporciona à todos nós a chance de nos tornarmos pessoas melhores! Melhores do que fomos ontem, e ainda ter a consciência de que seremos melhores amanhã!

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