Ding, meu amigo gay mais velho


Conheci o “Ding” pelo “Tablito” que é uns 3 anos mais velho do que eu. Ding e Tablito foram namorados, numa relação que durou 5 anos.

Meu amigo Ding, hoje, deve ter uns 40 e poucos anos e foi ele o “líder dos escoteiros” que combinou toda a viagem para Ponta Negra, cenário romântico e passional que narro em “O quarto namoro de um gay“. Ding viveu a juventude nos anos 80, sentiu de perto o que foi o verdadeiro Rock’n Rio, viu no palco Barão Vermelho, Paralamas, Titãs e viveu sob a influência de Queen, entre outras bandas de alta expressão criativa daquela época.

Ding é uma pessoa muito bem relacionada com os profissionais da noite paulista, que são DJs, hostess e donos de casas noturnas. Foi com ele que boas vezes entrava na D-Edge como V.I.P. MASTER e podia ficar naquele camarote pequeno e chato, e ter bebidas na faixa (rs). Até dois anos atrás, a D-Edge tinha apenas uma pista e por si só já era uma balada meio VIP.

Foi com o amigo Ding e com a amiga Roca que, no final de uma balada experimentei cocaina pela primeira vez. Não farei apologia a droga nenhuma, mas é importante deixar expresso aqui que coca e whisky são combinações interessantes e que serviram a muitos jovens nos anos 80. Não é a toa que Renato Russo fala sobre o assunto e que o Cazuza fatalmente usava. Não duvide que seus pais não experimentaram (rs).

Não são todos que tem controle sobre esse tipo de coisa, da droga, e comigo rolou em situações pontuais, e foram “degustativos” importantes em momentos específicos da minha vida, solteira e responsável por mim mesmo.

Com o mesmo Ding é que fiz mais de uma viagem para a Ponta Negra, lugar incrível do tipo “paradisíaco”, e nos descontraíamos entre amigos, vendo belos caiçaras desfilando pela praia, caminhávamos até a cachoeira para passar algumas horas, fumar maconha o dia inteiro, cozinhar juntos e deixar rolar sons moderninhos pelo iPod como Air, Moby, Amy Winehouse e clássicos como “Burguesia” do Agenor de Miranda Araújo Neto. QUEM? O Cazuza (rs).

Ding é profissional de boa reputação na área congênere a medicina, cozinha incrivelmente bem e, talvez por fazer parte do grupo de gays que viveu a repressão aos homossexuais nos anos 80 principalmente pelo surto da AIDS, reserva sua sexualidade para seus amigos e, da família, apenas uma sobrinha sabe de sua realidade. O amigo também viveu a dinâmica efervescente daquela geração do pós-ditadura, dos anos de “sexo, droga e Rock and Roll” e, pela amizade, traz essa energia com resquícios de rebeldia com causa até a mim. Causa real faz toda a diferença e é tão complicado viver num Brasil hoje sem causa!

Meu amigo é para pular na piscina, pegar estrada e andar na chuva. É de não ter muito papo cabeça e de aproveitar mais cada momento. Ding, não é muito de compartilhar intimidades, é bastante seletivo, se sente um pouco deslocado quando tem muita meninada e acho que isso é mais do que natural. Deve ser meio estranho ter 40 e poucos anos e se sentir super a vontade entre pessoas de 20 e poucos. Estranho para quem tem 40 e se comporta como alguém de 20 e estranho para quem vê.

Mesmo não sendo totalmente assumido, esse meu amigo é exemplo de que, com seus maduros 40 e poucos anos, é possível ser gay, ter uma vida social ativa e não envolver seus familiares que não vivem em São Paulo.

Ding tem 40 e poucos mas tem um espírito de moleque. Que moleque hoje vai até uma praia com acesso apenas por barco ou por trilha, sem luz elétrica nem chuveiro elétrico? Gay faz dessas coisas? Heterossexuais modernos fazem dessas coisas? “Surfista” faz, “bicho grilo” faz, “naturalista” faz e nós fizemos (rs).

Meu amigo é um dos que me faz entender e me reforça que ser gay não quer dizer sempre ser gay.

Meu amigo me ajuda a aprender qual a importância de ideologias. Ideologia: é importante pelo menos ter uma para viver.

2 comentários Adicione o seu

  1. Darkbringer disse:

    Como os tempos mudam… Posso dizer que sou um adolescente bem velho, tanto pela maturidade modéstia à parte, tanto pelos gêneros musicais onde Renato Russo está incluído, e até mesmo o próprio Cazuza. Mas esses gêneros vem perdendo espaço na minha playlist para as músicas mais moderninhas. De toda forma, apesar de tudo, essa época deve ter sido muito boa. Pena que agora vivo nos tempos modernos, repletos de qualidades e ao mesmo tempo, defeitos. Será que atribuo à essa época ilusões e qualidades exageradamente em relação à época atual, em que vivo? Mesmo que eu não saiba muito sobre os anos 80 em diante, ainda assim tenho orgulho de alguém que viveu nessa época. Talvez até tenha vivido nas vidas passadas? Quem sabe… Eu queria viver ao menos um único dia de “anos 80”. Tenho quase certeza que isso me faria ainda mais feliz.

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