Tablito, quando a profissão antecedeu a amizade gay

Em 2005 um amigo passava a trabalhar na área de sustentabilidade de uma multinacional, marca bastante reconhecida e popular. Foi por meio desse contato que conheci o “Tablito” que era um dos profissionais responsáveis pelo departamento de comunicação corporativa da empresa.

Por ser o tal do âmbito profissional, não via de maneira nenhuma ter que anunciar a minha parte gay, embora nosso amigo em comum já tivesse comunicado essa informação para mim e para o Tablito.

De qualquer forma, revelávamos nossas aptidões profissionais, quando depois de um ano prestando serviço para a empresa o Tablito me convida para fumar um cigarro “lá fora”.

Saímos e ele mencionou discretamente sua sexualidade. Essa pessoa que se tornaria um dos amigos mais íntimos e de uma amizade bastante madura, mostrava-se uma ótima pessoa para trocar ideia, no sentido de que “os santos” tinham batido de imediato, mesmo as vezes acontecendo algumas discordâncias entre fornecedor e empresa.

Fui cultivando esse relacionamento na base de oportunidades profissionais, até o ano que me separei do marido e me vi diante daquele cenário que narro em “O quarto namoro de um gay“.

Diante daquele sentimento de estar perdido, sem saber por onde começar minha vida solteira e um pouco dependente do meu amigo-primeiro-amorado que tinha cultivado uma boa experiência na noite GLS mas que também estava enrolado entre um namoro e um amante, resolvi escrever um e-mail honesto, sincero e direto: “preciso de amigos. Sei que nosso vínculo maior é o profissional, mas desde o princípio simpatizei com você. Quer ser meu amigo?” – essa foi a ideia central de um longo e-mail que escrevi que imediatamente tive resposta de coração aberto e bastante disponível.

Começava aí uma amizade gay verdadeira, honesta e de jogo aberto.

O Tablito, uns 3 anos mais velho do que eu, sugere o Bar da Dida para um primeiro papo. Achei incrível já que foi lá que tinha acabado de recomeçar pela sugestão do meu amigo-primeiro-namorado.

Sentamos no bar e foi um exercício fluido de contar das intimidades, das questões da vida e foi nesse encontro que tomava consciência que o Tablito, não muito tempo, tinha terminado um namoro recentemente com o Ding.

Não demorou muito para conhecer o Ding, a Roca, entre outros amigos mais velhos do que eu e que, numa boa sintonia entre pessoas, me “acolheriam” rapidamente para fazer parte da turma. Em semanas estaríamos saindo para a balada todos juntos, passaria a entrar como VIP na D-Edge e descobriria uma das casas noturnas mais undergrounds e antigas do meio GLS, que ficava na Morato Coelho: “A Torre” (do Dr. Zero), que infezlimente fechou mas que foi lá que tive a oportunidade de conhecer figuras de relevância na noite, como DJ’s e hostess.

Não muito tempo depois, armaríamos viagens juntos e conheceria o lado “Rock and Roll” do amigo Ding.

O Tablito era e é um amigo para sentar num restaurante ou num bar para falar de intimidades. Da mesma vibe que eu, de não poupar para conhecer restaurantes, foi com ele que firmei passagem em locais como o Spot, O bistrô La Tartine, o Mestiço, o Takô na Liberdade, Mullingan’s na Bela Cintra, o Bardo Batata, entre muitos outros que seriam cenários para muitas conversas sobre a vida, sobre a minha energia inquieta que me dominava na época e sobre o meu título de “ONG” – dado por ele – por levar comigo sempre amigos tão diversos para a mesma mesa de bar.

A amizade perdeu um pouco da dinâmica intensa de encontros quando comecei meu quarto namoro. Não percebia com clareza na época, mas pelo ciúmes discreto do meu ex-quarto-namorado, acabei me distanciando do Tablito sem me dar conta. Me distanciei também porque é natural a gente dar um tempo com algumas sintonias de amizades solteiras que estão em outras frequências. E isso o Tablito sempre entendeu muito bem pelo simples fato de ser um “velho de guerra”, assim como eu, nessa coisa de relacionamentos íntimos e longos.

A medida que ia entrando no namoro, depois de nossa viagem para Ponta Negra, quando eu, Tablito, Ding, meu quarto e seu amigo nos divertimos a beça, o Tablito ia se dando conta de um “fiozinho” que o unia ao Ding ainda, que na mesma medida que dava um certo conforto pela amizade totalmente disponível, não oferecia a liberdade psicológica para cair no mundo de fato.

Em outras palavras, um dos assuntos que mais conversamos nesse período, foi desse “fiozinho” entre ele e Ding, e de como aquilo era um pouco ainda de relação mesmo com o namoro terminado.

Tablito passava a se dar conta disso e iniciava uma jornada mais “pecadora”, de “sair a caça” e muito disso aconteceu no “Director’s Gourmet”.

Muito próximo do final do meu quarto namoro, na virada de ano de 2008 para 2009, o Tablito passa o reveillon na casa de amigos em São Paulo mesmo já que teria que trabalhar. Foi aí que em meio a uma celebração tranquila, ele, junto com o “Luzzi” – seu amigo há mais de 10 anos – resolvem dar uma “passadinha” na 269 para ver o que estava pegando.

Trashera Master passar a virada de ano por lá (rs) e o Tablito tinha plena consciência de que era! (rs). E foi lá, já muito embriagados, que os dois acabam se atracando. Estão praticamente três anos juntos e assim, uma prova concreta de que uma amizade de 10 anos pode virar relacionamento, se estabelecia.

Quando sai do namoro, o Tablito estava no começo. Eu estava todo meio fragmentado com os fatos chatos do meu ex-namorado. Tablito foi alguém que me deu umas broncas bem dadas e uns puxões e orelha para que eu acordasse e, certamente por essa amizade e pelos conselhos, tive mais uma fonte de força para viver meu inferno feliz (rs).

Foi nesse período que me aproximei mais de Ding, que ainda estava solteiro e vivendo sua liberdade sem o “fiozinho” do Tablito.

Bacana dos amigos maduros é isso: eu era oficialmente amigo do Tablito. Mas, mediante a convergência de vibrações naquele momento, me aproximei mais de Ding e em nenhuma vez se quer tive do Tablito uma imposição de sua amizade a frente a de Ding, o que é bastante raro entre os amigos gays que forçam uma autonomia pela amizades mais próximas como se fosse um dever perante a própria amizade.

Uma vez, teve um comentário de ciúme, que foi franco, honesto e direto. Resolvemos o problema na hora e assim pude partir para todas as loucuras de ego junto com o Ding, com o Beto, com o Charosk, com meu ex-primeiro-namorado que nomeio agora de “Lutier”, entre outros que vieram e serão descritos brevemente nos próximos posts.

A amizade do Tablito vale a pena porque tem um amor autêntico, desprendido e sincero. Daqueles que já comentei por aqui: os anos passam e podemos até ficar um bom período distantes. Mas quando nos reencontramos parece que foi ontem a última vez que nos vimos.

Eis um exemplo de uma amizade que nasceu da profissão. Normalmente dá muito certo. Normalmente.

3 comentários Adicione o seu

  1. Will disse:

    Amigos é uma coisa tão importante, né mesmo? Que pena que eu não valorizei as amizades como eu as valorizo hoje. Agora tenho que arrumar um novo ciclo de amigos e começar do 0.

    Esse blog tá sendo um referencial pra mim. Parabéns [eu sei que manter um blog e dar aquela inspiração pra escrever, às vezes, é difícil….muito bom]

    1. minhavidagay disse:

      Valeu Will!
      Realmente, o que provoca um blog são os momentos de inspiração. Mas, humano que sou (rs), me contento em lançar alguns posts ótimos, alguns bons e muitos “OK” (rs). Por enquanto e assim espero daqui por diante, fazer o MVG durar!

      Abraço!

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