Quando a homossexualidade vira assunto entre um gay e um amigo heterossexual

“Pablito” me reconhece como gay há uns 6 anos, sendo 12 anos o tempo que me formo como homossexual assumido.

Meu amigo que está seguindo pela carreira de professor, comenta em suas reflexões antropológicas e sociológicas, embasadas inclusive em estudos realizados na faculdade de letras sobre homossexuais, que a sociedade estará realmente livre de barreiras, preconceitos e limites quando ser gay não for mais questão.

E realmente concordo com ele, quando puxei esse assunto no post “Vida gay em 2042. Como será?” quando brinquei de previsões sobre a questão da bissexualidade, quando meninas e meninos poderão experimentar seus desejos focando no indivíduo e não no gênero ou na sexualidade.

Pablito lida com alunos na faixa dos 10 anos e seus colegas professores, na grande maioria são mulheres.

Narrou um fato bastante interessante quando diz que pelo menos um garoto por ano já vem com uma carga, trejeitos e identificação com o que é feminino. Disse que esse ano fizeram um tipo de “Show de Calouros” com as crianças no qual meninos e meninas viriam com uma escolha de artista para interpretar para os colegas. Eis que um dos meninos trouxe peruca, roupa feminina, vestido e maquiagem e de maneira impressiontante fez uma interpretação “perfeita e miniaturizada” da Amy Winehouse.

Parece que a escola parou para ver a performance. Os colegas de Pablito, na maioria mulheres de 25 a 40 anos ficaram “horrorizadas”. Finalizada a apresentação parece que os professores se reuniram para levantar a questão: “O que fazer com essa situação?!” – naquele tom ou histérico ou de inconformismo.

Nesse momento coloco minha opinião: “Como assim ‘o que fazer?’. Não tem que fazer nada!”. E meu amigo na sequência exclama com a lucidez da nossa amizade: “EXATO!”.

Não há o que fazer, não tem que fazer e não existe nada de errado numa situação dessas. Mas é impressionante como a fuga dos padrões “normais” em grupos sociais e no caso na escola, colocam as pessoas a se questionar como se houvesse uma obrigatoriedade ou responsabilidade para se fazer alguma coisa. De ter que mexer em algo, de se preparar para alguma coisa.

Outro fato interessante nessa conversa, validado por um professor que atua com crianças de 10 anos de uma escola particular construtivista, é que levantei a dúvida de como os colegas reagem a esse “um gay evidente” que surge por ano.

Meu amigo Pablito comentou que, desses meninos que evidentemente buscam referências femininas no modo, no jeito de falar e inclusive no jeito de pensar, passam por situações diferentes.

Aqueles que tiram boas notas, ou são comunicativos, ou legais com todos – de uma maneira geral – são bem aceitos pelas meninas e meninos. Já aqueles que se resumem apenas nos trejeitos e não na socialização acabam virando alvo principalmente dos grupos de meninos. (Está aí um exemplo de que a totalidade ofusca a sexualidade).

Normalmente essa criança se depara com algumas situações: tem aqueles colegas que são ingênuos que não percebem e convivem naturalmente, tem aqueles que percebem e se relacionam, tem aqueles que percebem e provocam atitudes preconceituosas e, na grande maioria das vezes, esses meninos que puxam desde muito cedo essa tendência mais feminina e entram na escola, diretamente se relacionam com outras meninas da classe. Há uma identificação maior no modo de agir (externo) e no modo de pensar (interno) com o que vem do feminino.

Por fim falamos um pouco da origem da homossexualidade e no ponto de vista do meu amigo que é educador, existem inúmeras combinações, relações, referências dos pais e identificação que fazem uma pessoa se formar como gay. No ponto de vista do Pablito a formação da homossexualidade é totalmente social e nada genético. São inúmeras e incontáveis combinações da maneira que os pais educam os filhos e de como cada filho se identifica com os pais que essa possibilidade pode se formar.

E obviamente, não existe culpa ou culpados. Não é somente a forma que os pais lidam com o filho que definem a sexualidade da criança. Mas como o filho enxerga o mundo e como a sintonia fina e “invisível” de sua relação íntima e única com seus pais acontece.

Meu amigo Pablito não é necessariamente um simpatizante. O meu ex-marido por exemplo, da maneira que se expunha, gerava um certo incômodo para o meu amigo. Meu amigo entende, assim como eu, para ser como somos, afeminados ou não, não é necessário forçar coisas que vem do sexo.

Assim como eu, meu amigo entende que o gay que força dá margem a criação dos esteriótipos e dos preconceitos. Em outras palavras, há gays que num exercício de auto-afirmação precisam criar um certo repúdio de algumas pessoas e uma certa adoração de outras.

E enquanto a sociedade viver nessas inconstâncias, de uma necessidade intensa de afirmação homossexual, segundo meu amigo Pablito que enxerga a minha totalidade, a “coisa” não vai evoluir.

Em outras palavras, tanto eu quanto ele, um gay assumido há 12 anos e um heterossexual, acreditamos que o “ser gay” precisa ser menos dito, menos enaltecido e menos super valorizado. O ser gay precisa ser simplesmente vivido e a sexualidade, como pessoas de bons modos, deve ficar na intimidade.

Fale menos da sua parte que é a sua sexualidade e exerça mais a sua totalidade, eis o toque do meu amigo Pablito, heterossexual, educador e meu amigo há mais de 10 anos.

2 comentários Adicione o seu

  1. W.P disse:

    Acabei de conhecer este blog e adorei muito

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado WP!
      Retorne ao blog. Sempre colocarei novidades sobre o assunto! Abraço!

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