Ser gay é tão diferente assim?

Ontem pude rever um amigo, o “Júlio”, que hoje tem 35 anos, está casado, com dois filhos pequenos e leva uma vida no estilo “Família Margarina” como ele mesmo classificou.

O Júlio é um dos amigos heterossexuais com quem construi uma amizade íntima, prática e de muito jogo aberto.

Ontem numa crise com a esposa, me recorreu para sair um pouco e comer algo por aí. Fomos até o Umai Sushi que fica na Morato Coelho, serve cerveja de garrafa e pudemos trocar algumas boas horas de conversa.

“Família Margarina”, eis um bom conceito: daquele casal politicamente correto, íntimos dos pais e parentes, com filhos bonitos e bem educados, ambos com trabalhos estáveis, irmãos que se encontram com frequência – todos saudáveis – e com um relacionamento ímpar, sem brigas, desentendimentos e sem crises. Família muito boa das aparências, exemplar.

Acontece que uma parte do meu amigo Júlio anda em crise com esse modelo. Uma parte que pulou uma fase da vida, a fase das descobertas, da auto-afirmação, de se sentir desejado pelas mulheres e de poder conquistar e ser conquistado. Lembro bem, e ele também, que quando estava começando a se encontrar como homem, interessante, com seus atributos e que poderia conquistar belas mulheres, conheceu a sua futura esposa e logo casou. Queria filhos.

Casou e entrou nesse modelo que é predominantemente da sua esposa. Passou a ser parte integrante da “Família Margarina”, fundamental como progenitor de belos filhos, de uma casa bonita e do sonho de muitas pessoas, na maioria alguns homens gays e mulheres, que querem construir um lar “perfeito” e “ideal”.

Só que meu amigo, que conheço há mais de 15 anos, insatisfeito com determinadas relações, invasões de sogra na educação de seus filhos, prioridade grande aos pais da esposa cujos valores conflitam em alguns aspectos com os do meu amigo, e nesse desejo de viver uma etapa da vida que ficou dentro dele ainda por desenvolver, Júlio acabou ficando com duas meninas nos últimos meses.

Com uma delas teve beijo e com a outra teve tudo, menos penetração.

Sentido de mulher e esposa é aguçado: ela desconfiou, jogou verde e, por hora, Júlio está negando.

Existe um clima, existe uma “regra” de continuar seguindo a linha do politicamente correto, mas talvez não exista mais o encanto entre o casal. O que Júlio afirma é que não abriria mão de forma nenhuma de seguir presente na educação dos filhos, que são o elo e o principal sentido de existência para ele da “Família Margarina”.

Como amigo de Júlio pude dar conselhos e três caminhos:

1 – Ser perseverante, segurar as pontas com seus desejos íntimos e individuais, superar os sentimentos críticos que tem pela sogra ou por alguns aspectos do modelo e seguir com a sua “Família Margarina” redescobrindo o encanto da relação;

2 – Abdicar de tudo, romper com o modelo, superar crises e conflitos que viriam e seguir a fundo com a sua fase acumulada, potencializada em si que o enche de desejos e expectativas;

3 – E por fim, estabelecer esse modelo de traição que hoje se configura em breves tentativas e experiências com outras mulheres – sempre bêbado – mas que pode se consolidar como um estilo de vida, como acontece com muitas pessoas;

4 – Seria improvável a quarta opção de abrir o jogo para a esposa e o casal se permitir, tanto ele quanto ela, uma vida de romancetes furtivos por aí. Não para uma esposa que super valoriza a “Família Margarina”.

Complexo não? Conheço o amigo há um ótimo tempo e sempre soube dessa lacuna de vivências que estaria abdicando. Eu vivi com intensidade mas ele guarda essa intesidade em seu íntimo. Para mim foi incontrolável.

Ao mesmo tempo vive o sonho de relacionamento de muitos casais, inclusive de gays que buscam por consolidar um relacionamento íntimo e duradouro.

Brinquei com ele que, no programa da “Família Margarina” quase perfeita, ele encontrou uma “falha no sistema”. Uma família que presa pela aparência da perfeição, muito provavelmente omitiria o fato de um dos integrantes, o Júlio, pular a cerca perante seus grupos sociais. Em outras palavras, a terceira opção um pouco lá e um pouco cá poderia até se estabelecer na vida.

Mas não sei se seria espiritulamente evoluído. Tive já um punhado de “sogros e sogras” que vivenciaram situações semelhantes. Tive situações do tipo com tias e o que posso dizer que esse caminho “do meio”, um pouco lá e um pouco cá, traz um troco, traz problemas e uma vida adulta bastante ingrata.

Mas tudo isso são conselhos e pensamentos particulares. Quem está insatisfeito é meu amigo e o que pude fazer e ter compartilhado meus pontos de vista. As decisões que virão, firmes e íntegras, ou parciais e cômodas dependem exclusivamente dele.

A “plenitude” da Família Margarina pode ser real. Mas quem se sente incompleto dentro dela é meu amigo. Então não é plena. Pode ser vazia, racional, compassada, sem emoção.

As vezes, ou muitas vezes, a gente acha que o estilo de vida gay traz complicações e dificuldades nos relacionamentos. Mas a grande sacada é que questões de relacionamentos, crises existenciais e complexidades só mudam de endereço. As questões estão dentro de cada indivíduo e não em sua sexualidade.

Ninguém garante uma integridade de valores a todo momento. Isso é ser humano. Não defendo meu amigo, mas também não o julgo como “maldito” pois conheço todo o contexto. Ninguém quer sofrer com situações desse tipo e muitos gays se desencorajam a seguir em um relacionamento por situções como essa que podem acabar acontecendo.

Mas se a gente não vive como ator em cenários como esse, vamos viver para quê afinal? Ser feliz nas ruas a todo momento mas quando encostar a cabeça no travesseiro sentir um vazio no peito? Meu amigo Júlio sente esse tipo de vazio dentro da Família Margarina. Por outro lado, gays solteiros que buscam algo mais duradouro também. E os gays casados há anos, vivem exatamente a mesma crise e precisam lidar com o mesmo vazio.

Acontece que, quando esse vazio nos domina é hora de mudar (para dentro ou para fora), de movimentar, de fazer alguma coisa e sair do estado do comodismo e da rotina. Paz interior se adquire vivendo experiências, transformando e superando. Teorias não funcionam muito para a coisa de relacionamentos. E ficar parado responsabilizando o que está fora da gente muito menos.

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