Relato gay – Amizades estranhas

Pelo Beto acabei conhecendo o “Tena”, seu amigo de balada e que poderia dizer que tem todo o perfil do gay esteriótipo. O Tena, pelo menos até onde o conheci, vivia em exercício de auto-afirmação de sua sexualidade, tinha uma “super-mãe-gay” que ia até na The Week com ele – fato que o enchia de orgulho (gay) – fazia questão de divulgar seus dotes de vez em quando por aqui e por ali e, não menos importante, em uma ou duas festas de meu aniversário se insinuava para um amigo meu, heterossexual, e não somente se insinuava como tinha que comentar seu interesse pelo meu amigo, numa ideia de conversão – coisa bem gay de algumas pessoas que conhecemos por aí, que sonham numa “conversão de héteros para gays”.

Em outras palavras, o Tena oferecia uma amizade bastante diferente à minha para o Beto. E as vezes notava mudanças de comportamento do Beto quando estava com esse amigo, meio que seguindo o estilo, o seu “personagem gay”.

Acontece que num dos períodos que eu e o Beto ficamos mais ligados, em 2009, o meu amigo relatava um certo incômodo no contato com o Tena (também pudera). Parecia que o rapaz afirmava que o Beto tinha um envolvimento emocional, uma paixão enrustida por ele, que estava na hora de assumir, abrir o jogo e deixar aquela vontade desenrolar. Para o Beto aquela perseguição acabava obviamente o distanciando já que, segundo o meu amigo, era uma loucura intensa do Tena.

Não sei até que ponto, consciente ou inconscientemente, o meu amigo Beto realmente não criava esse tipo de vínculo, meio incerto com o Tena. Nunca presenciei algo que pudesse trazer essa percepção.

O que sei é que o Tena, pelo MSN, passou a me incluir nessa história: reforçava a mim essa “realidade”, que o nosso amigo em comum tinha problemas e que, a fundo, guardava um sentimento de paixão por ele. E mais: o Tena não se conformava com a situação, da coisa não desenrolar, do amigo não assumir, e que tinha certeza total no que estava afirmando.

Os meses foram passando e nada aconteceu. O Beto, na situação e por outros motivos acabava se aproximando mais de mim e eu comentava: “porque você não tem uma conversa franca e direta com seu amigo para desmistificar essa história? Ele fica viajando nisso e acho que um papo aberto resolveria”. E o Beto me respondia: “mas eu já tive essa conversa e ele não acredita!”.

Tena realmente insistia no assunto e agora, com o afastamento do amigo, começava a me indagar porque ele estava distante, se tinha feito alguma coisa ou se existia algum problema. Nesse momento resolvo cortar ou não me envolver mais no caso.

Amizades gays as vezes são um tanto complicadas. Esse foi um dos casos que vivenciei que me leva a crer que a integridade de uma amizade entre gays nem sempre é muito fácil. Integridade, de modo geral, exige maturidade e nem sempre maturidade tem a ver com a idade. O Tena é mais velho que eu, criou essas fantasias em sua cabeça e o pior: exteriorizou, envolveu outras pessoas e passou a assumir o “caso do Beto” como uma verdade.

Vez ou outra é até bom (ou humano) viver pequenas loucuras do tipo. Esse tipo de fantasia as vezes pode até nos completar. Mas no caso do amigo do Beto a coisa ficou um pouco doentia, passando a encarar a fantasia como realidade.

De fato não sei ao certo o quanto o meu amigo Beto não alimentou essa ideia do Tena entre as suas idas e vindas das baladas que não presenciei pois no contexto, quando “voltei ao mundo” em 2009, o Beto já estava numa tentativa de afastamento do Tena.

As vezes a gente acaba complicando as histórias e as relações. Precisa ser assim? Não precisa, mas num exercício do ego buscamos inventar para ter alguma coisa para contar, para nos preencher com algo no momento.

O Tena é um dos gays que respiram o meio e que não namora, que tem relacionamentos rotativos e rápidos e que prioriza contar seus feitos dessa rotatividade. Ele deve sentir um vazio de vez em quando. Eu sentiria porque não sei de fato até quando essas vivências “de nata”, da superfície do copo realmente nos preenche. Tenho a impressão que não nos preenche.

Já não tenho medo de me tornar um gay como o Tena. Mas isso, um dia, já foi receio para mim porque alguns gays vendem essa ideia, essa imagem e se a gente não é assim dá uma sensação de exlcusão. Mas de fato, nos tornarmos gays não quer dizer virar um “Tena da vida”. Isso sim é uma opção que envolve muitos fatores psicológicos, amadurecimento e consciência, mas definitivamente, nesse caso, podemos optar em que tipo de pessoa queremos ser para o mundo.

Não gosto da imagem que o Tena vende para o mundo e não foi uma vez que deixei expresso para o amigo Beto. Ser como ele é querer sonhos a viver a realidade.

2 comentários Adicione o seu

  1. Darkbringer disse:

    Me parece que ser gay requer uma grande maturidade, vivência e principalmente uma “barreira” para não se deixar influenciar pelas amizades. Quem diria que até no meio GLBT há estereótipos. Estereótipos precisam ser vencidos de qualquer jeito, pois não podemos, de maneira alguma, pegar um fato e generalizar. Há sempre exceções. Há sempre diversidade e temos que aprender a lidar com as diferenças de raça, sexo, cor, personalidade, religião, etc. Enfim, é preciso ter uma consciência muito boa para não acabar machucado.

    1. minhavidagay disse:

      Não diria barreira, mas sim, “escudo”, ou proteção, ou experiência!
      Consciência, Darkbringer, as vezes a gente adquire na prática…
      Abraços!

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