Gays assumidos

Afinal o que é um gay assumido?

Assumir subentende um ato ou ação de expor algo a alguém, ato de compartilhar, exteriorizar e de colocar para fora uma verdade que outrora não estava evidenciada ou esclarecida.

Assumir-se gay, no meu sincero ponto de vista é um processo, que vai de pequenas realizações como contar para uma amiga mais íntima, um colega de trabalho ou mesmo frequentar o meio, até a plenitude da aceitação que se inicia com o revelar para os pais e finaliza no assumir a si mesmo de uma maneira mais plena. Plena no sentido de que a realidade da hossexualidade não é motivo nem para restrições ou para exaltações, nem dúvidas ou certezas absolutas, mas é mais uma característica dentre tantas outras que tange a naturalidade ou a simplicidade de ser humano.

O processo de se assumir não segue uma ordem lógica, mas tende por um fluxo do aparentemente mais fácil para o aparentemente mais difícil. E o critério de “fácil” ou “difícil” varia de gay para gay.

Por que a influência do assumir para os pais parece ser mais desafiador?

A resposta, para mim, é mais simples do que aparenta: pais costumam ser as nossas principais referências de vida, seja num lar no qual as relações familiares são acolhedoras, seja num lar onde as relações são mais conflituosas. Pais, naturalmente, projetam nos filhos expectativas, idealizam, como o “filho bem sucedido”, “o filho carinhoso”, “o filho artista” ou o “filho inteligente”. E não é ainda comum ou natural os pais projetarem a ideia do “filho gay”! No processo natural das relações de pais e filhos, os pais vão descobrindo maneiras de dar asas para os rebentos e os filhos vão percebendo o desafio que é tornarem-se adultos como os pais. Consequentemente, existe um tipo de elo de responsabilidade entre pais e filhos, existem “pactos” e, assumir a homossexualidade para os pais não deixa de ser um desafio maior que, quando bem sucedido, traz uma paz importante, profunda que costuma nos assegurar fortemente para enfrentar melhor o mundo em um sentido mais amplo.

Em outras palavras, pais são alicerces, mesmo que psicológicos. São base e referência do ser adulto e sempre que “o buraco é mais em baixo” são os pais que darão o sustento emocional para chegarmos lá.

As relações entre amigos ou colegas de trabalho costumam possuir elos menos “intensos” ou resistentes, o que não quer dizer que não exista autenticidade. Acontece só que pais são realidades por quase toda vida, seja perto ou distante, seja em vida ou como uma lembrança. Amizades e coleguismos se formam de maneiras diferentes das relações que temos com os pais. Pais são nossas projeções reais e vice-versa.

Consequentemente a representação psicológica e emocional de assumir para os pais tem mais valia ou a sensação de mais importância.

Assim assumir-se como gay, na realidade, é quando abrimos o jogo para os nossos pais.

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Todo esse texto faz bastante sentido para mim e provavelmente para uma maioria dos gays.

Mas existe também uma reflexão diferente dessa. Existem aqueles gays que não concebem os pais como os indivíduos mais importantes da vida. Então, abstraindo um pouco dos conceitos mais comuns, de relações mais estáveis e que seguem modelos mais “tradicionais”, reintero todo esse discurso e revelo: nos assumimos gays quando revelamos para as pessoas mais importantes de nossas vidas. Aquelas que de pensar em contar dá um frio na barriga, um medo da rejeição, de decepcionar, chatear ou frustrar.

Poxa vida, acho que estou confundindo…

Afinal, quando é que um gay é realmente assumido?

O gay realmente assumido é aquele que já se aceitou amplamente como tal e que está preparado para revelar para as pessoas que mais ama. E não é somente o amor da aceitação óbvia, mas as vezes, e principalmente, daquele amor que nos coloca na dúvida da reação. Esse amor, definitivamente, mexe com a gente!

No meu caso, me assumi definitivamente gay quando revelei para meus pais e principalmente para meu pai.

Até chegar lá, queridos usuários, são somente ensaios.

1 comentário Adicione o seu

  1. Darkbringer disse:

    Vi uma reportagem no Profissão Repórter e fiquei um pouco intrigado. A reportagem mostrava o cotidiano dos casais héteros e gays. Mostraram um pouco das lésbicas na Rua Augusta e dos gays na Rua Frei Caneca (se me lembro bem) e a maioria dos casais deixou contatos com a repórter, mas no dia seguinte recusaram mostrar o cotidiano. De tantos entrevistados, apenas um casal aceitou num almoço com a família. Durante a reportagem, a repórter perguntou: “Por que vocês aceitaram fazer a reportagem?” e os pais responderam seus pontos de vista. Se não me engano, o pai disse que eles são uma família como qualquer outra. E ainda teve a avó, que disse que não acha as relações homossexuais normais, mas que se é o desejo do casal, que eles sejam felizes. Pude sentir um pouco da dor deles. Da dor de ter que passar por um longo processo de aceitação própria, arranjar alguém para namorar e até casar, para depois ter que passar por mais um longo processo de assumir-se e de aceitação da família. Já os casais héteros pareciam muito mais felizes quando o assunto é família. Havia alguma coisa no homossexual e sua família que parecia meio escondida, meio implícita. Uma dor que eu creio compreender em partes. Também havia mostrado na reportagem uma lésbica, que deu seu depoimento e contou como se assumiu para o pai. No fim, ela completou: “Aquela foi a única oportunidade (de assumir-se), pois ele (o pai dela) morreu pouco depois.”
    Ela havia se assumido para ele no ano passado.

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