Um gay no meio de muitos héteros

Faz praticamente um ano que não sei o que é A Lôca, Bar da Dida, Praça Benedito Calixto, D-Edge, The Week, Sonique e nem tive o trabalho de conhecer a Lions Club.

Dos amigos gays que tenho falado mais é o Tablito e contato mesmo tenho com o Kota, mesmo assim em doses homeopáticas.

Assim, faz um bom tempo que não respiro as particularidades e as esquinas da vida gay de São Paulo, os hábitos, as manias e as eternas buscas de quem vive no meio LGBTXYZ, coisa que fazia com profundidade e intensidade como narrei em alguns relatos anteriores. Achava que um pouco disso tinha influência do meu namoro e certamente tem. Mas ando tão em sintonia com o trabalho, com as responsabilidades de uma vida adulta que não tenho sentido falta. Aliás, até estranho por não sentir falta! Mas não estou brigando com isso dessa vez.

Minha equipe, meus clientes e a grande maioria dos amigos que mantenho uma frequência para encontrar fazem parte do universo heterossexual.

Vez ou outra acho que tenho saudade daquela agitação toda que perdi por aí, em algum lugar dentro de mim que quero deixar quieto. Paro para refletir um pouco mais a respeito e percebo que nada está me estimulando para ser G, nenhum link, nenhum motivo ou propósito. Então por que precisaria mexer em algo que está funcionando bem, que me dá paz e que tem fluído sem ansiedade?

Hoje estive em reunião com um cliente de grande porte, com sede em Tamboré e a minha empresa, junto com outra empresa parceira, está elaborando um projeto para a web bastante desafiador. Interessante perceber que até uns 3 anos atrás, quando lidava com contatos de empresas de grande porte, batia uma insegurança, um medo de não saber se a minha exposição era envolvente o suficiente para despertar a atenção de um cliente grande sobre os meus serviços. E era diferente quando lidava com o cliente menor. Parecia que fluia com mais naturalidade ou não tinha a fantasia de achar que, por ser cliente grande, eu teria que ser “grande” também.

Mas o encontro de hoje, assim como todos que tem acontecido nos últimos anos, seja de micro, pequena, média ou grande empresas, se revelou esclarecedor: estou atuando com a minha empresa há 12 anos, mesma quantidade de tempo que sou assumido E, depois desses anos, entre altos e baixos, alegrias e decepções, certezas e incertezas por ter uma empresa, eu olho para um cliente desses e penso: “Poutz, mas eu sei três vezes mais que ele! Já estou surfando nessa onda há muito mais tempo!”.

E enquanto a conversa se desenrolava e eu percebia a falta de conhecimento, cansei da confusão, pedi licença para me levantar, fui até a enorme lousa de vidro da super-sala-de-reuniões e comecei a desenhar gráficos e fazer avaliações de conceitos. Quando me dei conta, já tinha vendido a minha ideia! Pego meu parceiro tirando fotos dos infográficos representados na parede com seu iPhone.

Antes que o post possa passar alguma imagem de arrogância ou prepotência, é importante contextualizar os usuários do MVG que não estou escrevendo essas linhas nem como mérito, nem como um demérito, mas apenas como uma imagem de exemplo do meu cotidiano que é exatamente essa: pegar meu carro, cumprir a agenda, enfrentar o trânsito que pode vir de todas as zonas de São Paulo, entrar numa sala de reuniões com o cliente, apresentar minha empresa, ideias e soluções e me dar ao máximo para oferecer uma proposta atraente, usar as palavras certas e dar uma entonação entusiasmada quando for necessário, vender o “peixe” e fazer jus ao orçamento apresentado. O meu discurso está ficando cada vez mais rico. E caro também (rs).

Eis a minha rotina.

O grande tesão de tudo isso é que acabo conhecendo centenas de pessoas por ano. Revejo boa parte delas, o que é bom também, já que cada encontro tende a fortalecer mais o relacionamento. A outra parte é gente nova, um novo nome para decorar, uma nova filosofia para perceber e um novo teste de sensibilidade para que em 10 minutos eu desvende o jeito da pessoa e, numa atuação profissional e comercial, traduza ao potencial cliente qual o recurso ou recursos que mais se adequa(m) a sua demanda.

Minhas energias, as mesmas que se manifestaram intensamente em anos anteriores para ser o “reconhecido da balada”, estão focadas amplamente no trabalho.

Volto da rua com boas novas pelo fechamento de um novo projeto, mas não quer dizer que sempre é assim. Sento na cadeira, ligo meu computador e lido com as solicitações internas, respondo e-mails, defino alinhamentos com a equipe e tomo um xarope para uma gripe mal curada! Aliás, a tosse noturna que me ataca tem prejudicado meu sono que sempre foi tão profundo! Tão profundo que raras vezes lembro dos meus sonhos (rs).

A rotina com a minha dog-velhota é sempre motivo bom para a abstração. Olho para ela, ela me olha, trocamos algumas conversas e me sinto acolhido com a sua companhia.

Tenho visto meu namorado mais nos finais de semana ultimamente pois ele está fazendo pós e está cheio de projetos também. Bom que nesses encontros mais curtos a vontade de sermos “nós e o mundo” ou “nós sem o mundo” é muito maior.

Meus pais vão bem, a medida que a idade da maturidade permite. Meu pai está naquela onda de repetir ideias constantemente e a minha mãe, com sua alma elevada, tem feito suas aulas de artesanato e de dança. E não deixa de exercitar seu “talento” mandando em seu auge dos 65 anos mensagens a mim pelo Facebook!

Aos domingos a tarde vem aquela vontade inconsciente de preparar algo na cozinha para deixar para a semana. Claro, acompanhado do meu namorado que fica se entretendo com alguma coisa enquanto pratico minha terapia de panelas.

Busco encontrar pelo menos uma vez por mês com um grande amigo, da época do colegial, ou amigo há 18 anos! Está com câncer e com ele tenho momentos interessantes de exercícios de espiritualidade.

Dias atrás teve o “Dia das Mães” e meu irmão, que mora no Rio, voltou para se reunir com a família toda. Fomos em um lugar diferente no sábado porque meu pai odeia a muvuca (rs). No domingo estive na “sogrinha” que estava sem marido e sem a filha, para que eu e meu namorado fizéssemos valer o seu dia.

Estou aqui no meu escritório home office digitando essas linhas para deixar a questão: “Gay, gay, cadê tu dentro de mim? Me passaste um trote! Sois uma parte tão pequenina que no momento preciso me esforçar para me lembrar de ti!”.

É ainda estranho reconhecer que não preciso mais da minha parte gay. Não mais como antes.

Mas se está bom assim para que forçar?

4 comentários Adicione o seu

  1. Will disse:

    Muito bom quando as coisas na nossa vida trabalho/amor/saúde estão dando certo. Seja que rotina for.

    Gosto da ambição do seu namorado em fazer pós. Ele cursa o quê?

    1. minhavidagay disse:

      Está cursando marketing =)

  2. Ekial disse:

    Interessante esse abrandamento da condição de ser gay. Mais curioso ainda é quando isso se manifesta em alguém bem resolvido, pois às vezes penso que a maioria dos gays acha que um bem resolvido é tão simplesmente um cara que não se incomoda em dar pinta.

    MVG, você já foi confundido ou enrustido, mal resolvido ou gay que quer bancar o hétero?

    1. minhavidagay disse:

      Oi Ekialssawa!
      Já fui enrustido e mal resolvido, certamente. Até meus 23 anos não manifestava nenhuma sexualidade, o que intrigrava meus amigos mais próximos. A partir daí fui me assumindo, fui me resolvendo e hoje sou assumido. Agora, em termos de resoluções, sempre temos algo novo em vista, não é verdade? Pelo menos quero ter resoluções para mais 35 anos! Depois disso acho que posso me contentar com o que é (rs).

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