O bem e o mal da diversidade


Diversidade. Palavra tão comum em nosso meio e sempre carregada de intepretações positivas, entusiasmo, alegria e um sentido quase que sinômimo de liberdade. Liberdade de expressão, liberdade de ir e vir, liberdade de ser o que é.

Me parece claro que a maioria de nós entende a ideia da diversidade sexual, comportamental, cultural e social como algo positivo, digno e maior.

Mas será que a diversidade tem somente a faceta positiva? Não paramos para pensar muito a respeito pois o conceito da diversidade está cristalizado nas coisas boas e nem cogitamos questionar.

Como quase tudo na vida existe algo do Ying e do Yang, ação e reação, ponto e contraponto. Pelo menos é um pouco assim que conduzo a minha vida.

A diversidade, de diverso, é quase oposto do que é igual, único. Vivemos numa sociedade de bens, renda e educação que não são distribuídos de maneira igualitária e sim, de maneira diversa. O mais pobre no Brasil não carrega 10 reais no bolso. O mais rico tem investido bilhões em fundos de investimento, gado, imóveis ou outros negócios.

O Brasil não tem uma identidade racial/cultural. Logo, origens e culturas também são diversas. Se por um lado é rico justamente pela mistura, traz dificuldades que se materializam em diferenças de valores, diferenças de línguas, diferenças de credos, limites diferentes de tolerância à determinadas situações e por consequência, essa diversidade emana também o preconceito. Preconceito nada mais é que o repúdio ao que nos aparenta ser diferente, fora dos valores dos grupos que seguimos. Uma ideia ou conceito que se forma antes mesmo de querer saber com mais clareza do que se trata.

Países antigos como os europeus possuem um sentido maior de pátria pois valores e até mesmo raça tendem a ser semelhantes, foram construídos juntos a milênios. Brasileiro não tem senso de pátria, não sente o poder da nação porque vive numa sociedade fragmentada de culturas diversas, numa sociedade que tem apenas centenas de anos.

O Brasil, pela diversidade geográfica ampla, coloca grupos sociais em situações diferentes: nas montanhas, próximos ao mar, no deserto, em planícies e planaltos. Os climas são diferentes e até mesmo os horários. Difícil coordenar tudo numa mesma frequência, não?

Na sociedade temos dos mais humildes aos mais ricos, temos negros, descendentes de índios, italianos, africanos, portugueses, espanhóis, chineses, japoneses, coreanos, árabes, libaneses, judeus e toda uma carga cultural de regiões distantes e diferentes do mundo que acabam se concentrando por aqui, em “células” culturais que até se cruzam em espaços públicos todos os dias, e que costumam cultuar algumas das tradições ou costumes dentro de casa. Eis um viés de choque cultural que a gente sente a todo momento.

Além disso, o brasileiro rico – no geral – adora se destacar e alimenta sua auto-estima com marcas e produtos. Sabe também que em um país como o Brasil, ostentar algumas grifes o colocará diferente de quem não tem o mesmo poder de compra. Diferente do Japão, por exemplo, que existe uma loja de grife francesa do lado de uma peixaria, numa cidade do interior, e que as condições de consumo são mais comum a todos.

Assim, costumamos ter dificuldade de lidar com padrões. Só que padrões, muitas vezes, é a forma de conseguir produzir, alinhar, construir e “monetizar”. Para brasileiro, seguir padrões as vezes é coisa de “gente coxinha”. Para outras culturas de fora, seguir padrões é a oportunidade de gerar riqueza.

Não posso dizer que não adoro a diversidade. A todo momento exalto esse conceito. Mas não costumo ser “arroz de festa” e acho importante entender a diversidade com propriedade: é essa mesma diversidade que, por um lado a propaganda enaltece como uma das grandes riquezas do Brasil, que também rega as raízes do preconceito.

Lutamos muito para ser igual mas ao mesmo tempo supervalorizamos a diversidade. Eis um contrasenso que diz respeito a desigualdade social – diferenças de classe – conflitos raciais e, inclusive, preconceito dentro do meio gay.

Ouvir de um amigo gay estudado e esclarecido que não se envolve com um cara que não tenha carro ou utilize celular pré-pago tem um gosto meio amargo. Gosto que também vem da diversidade.

3 comentários Adicione o seu

  1. Ekial disse:

    Sempre imaginei o mundo real como bastante diverso, com pessoas de vários hábitos, estilos e pensamentos convivendo respeitosa e harmoniosamente juntas, mas é difícil crer que isso venha a se concretizar sendo que ainda temos de parar e pensar constantemente se seremos aceitos ou não pelos demais. Por mais bem resolvida que a pessoa seja, sempre fica um pouquinho desse receio, vai. Sendo assim, talvez o mundo ideal seria no estilo “cada um no seu quadrado”: eu não me meto no que você faz/gosta e você não se mete no que eu faço/gosto, mas ele seria muito limitado e engessado, além de utópico, pois não há como se separar as pessoas de forma que um grupo realmente não interfira no outro.

    Assunto complicado esse!

    Sobre seu amigo, fiquei curioso numa coisa: o aspecto financeiro que ele citou ser considerado antes de escolher uma companhia. Às vezes acho que muitas vezes o próprio meio é que cria a separação: pouco provavelmente um gay sem condições financeiras será visto num cruzeiro GLS ou em lugares “VIPs”, então, se ele frequenta estes lugares, naturalmente os gays que lá estarão seriam sim pessoas que provavelmente terão um carro e telefone pós-pago, via satélite, quântico, etc. Não seria isso o que ele se referiria?

    1. minhavidagay disse:

      Bons pensamentos Ekialssawa!
      Fico orgulhoso da riqueza de reflxões. :}

      Sobre meu amigo, acontece que basta ter um rostinho enquadrado nos quesitos de beleza estética que você consegue fazer parte do mainstream GLS, o que não quer dizer poder aquisitivo. O meu amigo se referia a selecionar por condições financeiras. Chegou até a se envolver por um rapaz mas que tinha esse status: sem carro e com celular pré-pago. Não evoluiu com a relação embora tenha mostrado interesse pela pessoa.

      Ele não foi o único que anunciou esse critério. Tenho outro amigo, na verdade um colega que não veja há anos, que definia suas relações por essas condições.

      A questão é que quem classifica relacionamentos por condições de aquisição de bens materiais certamente sente-se excluído no momento que se depara com um grupo “superior” nesses quesitos. Pessoas assim acabam se sentindo também engessadas porque enxergam o mundo por meio de poder de consumo. Ao passo de que uma pessoa que não tenha essa visão tão anunciada ou clara pode conseguir se envolver em todos os grupos pois não enxerga as coisas medidas pelo poder de compra.

      De fato, numa sociedade diversa e desigual como a nossa vai existir pessoas “abaixo” e pessoas “acima” de nós. E como fazer? Nos limitar sempre as que estão na nossa frequência social ou um pouco acima? Limitado, não? Como se um indivíduo não tivesse condições de subir ou até mesmo descer.

      Essa maneira de classificar também faz parte dessa nossa diversidade! Dois conhecidos devem ser espelhos de milhares de outros.

  2. Sergio disse:

    Eu concordo com o texto ,não acho que tantas diferenças sejam algo positivo já que causa o antagonismo a todo instante ,penso que os povos mais homogêneos resolvem muito melhor suas questões, e penso que tantas diferenças individuais e coletivas não permitirão que o Brasil cresça, é apenas a minha opinião,muitos valores estão se desconstruindo e acho que os países que estão nessa linha de que tudo pode estão em um campo minado e fadados a perder a sua identidade.

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