Vida gay antes e depois da Internet

Todo mundo ou quase todo mundo já sabe que a Internet tem revolucionado a maneira da sociedade se relacionar. A Internet tem influenciado o mercado de uma maneira definitiva, transformando conceitos de comunicação, negócios e entretenimento.

Mas e do ponto de vista da vida gay? Qual o impacto da Internet entre nós?

Pude acompanhar o mundo antes e depois da Internet, um dos meus trabalhos envolve web e é uma obrigação profissional ficar atento aos movimentos que a virtualidade tem proporcionado as pessoas.

Antes da Internet, ter contato com o universo gay era notoriamente restrito. Ou você ia para a rua e adentrava nas baladas e bares LGBTXYZ ou você ficava chupando o dedo na compra furtiva de uma revista pornô gay escondida a sete-chaves. Essa era a realidade para se ter acesso a vida gay com mais veracidade. O papel era a prova definitiva da homossexualidade. Verdade que pode ser rapidamente evitada limpando o cache do navegador.

Quando a web funcionava por meio do modem, nos primórdios desse conceito, que nem faz tanto tempo assim (aproximadamente 15 anos), os portais de informação como UOL e IG disponibilizavam para os usuários as famosas salas de bate-papo. Chats gays viravam uma moda obsessiva e os apelidos escolhidos eram os mais variados e popularescos: “Gay Ativo 25a”, “Dá o cu no centro já”, “Curioso Bi 18a”, “Gato 30a”, “Loiro safado quer dar”, “Oriental 35a”, “Negro bem dotado” e assim fluia as fantasias e desejos dos usuários.

Das salas de bate-papo gays, as pessoas que percebiam algum tipo de afinidade rapidamente trocavam ICQ ou MSN e pulavam para uma conversa mais íntima, descrições mais detalhadas de gostos e físico e a princípio trocas de fotos. Colecionávamos uma lista infindável de pessoas no MSN criado exclusivamente para isso.

Existiram trocas de fotos até o momento que a Internet ficou mais rápida e pipocou por todos os lados a moda da webcam. Webcam ficou barata e acessível e, assim, o sexo virtual virava mania, algo do voyerismo de se despir pela câmera, dos fetiches e fantasias virtuais. E essa moda que se estabeleceu foi recente, apenas 5 anos atrás.

Em paralelo a esses novos hábitos, sites e blogs pornôs, sites de garotos de programa proliferaram pela web e, hoje, numa busca rápida no Google encontramos um cardápio gigantesco e de fácil acesso.

Os sites de relacionamentos gringos chegaram em Terra Brasilis e, até hoje, Manhunt (EUA) e Gaydar (UK) são projetos vencedores, que se consolidaram e ganham diariamente milhares de usuários, dos “camarões sem cabeça”, dos gordos, peludos, teens, bissexuais, transgêneros, transexuais e assim vai: perfil com foto, descrição e uma troca frenética de mensagens com teor mais sexual predominante e, as vezes, para algo mais sério ou para a amizade.

Agora, com o acesso a web cada vez mais possível, novos gadgets como smartphones ganham também aplicativos exclusivos para encontros gays, como o Grindr, sucesso de download para celulares e que tem o diferencial de localizar os usuários por proximidade física! Ter um encontro a qualquer momento ficou facílimo!

Acredito fortemente que a Internet tem colaborado com a comunidade LGBTXYZ, para a compreensão do que somos, como funcionamos e sobre o contexto diverso em que vivemos. Obviamente, a grande maioria utiliza esses recursos para assuntos relacionados ao sexo que é o que mais vende independentemente se é gay ou heterossexual. Mas, não fosse a Internet, a identificação do gay com seu meio, a propagação de informações sobre sexualidade, a quantificação de gays por meio de acesso a sites e aplicativos que nos torna um público amplo e real, e inclusive o blog gay que é o MVG, não estaríamos visíveis e conscientes, e a sensação de solidão e exclusão seria muito mais evidente. E foi.

A vida gay melhorou bastante depois da web. Podemos ter acesso a realidade gay a todo momento, independentemente se somos enrustidos ou assumidos, se temos dúvidas, se temos família e filhos, se vivemos uma vida bissexual, se somos religiosos ou apenas curiosos do momento.

Antes da banalização do sexo, o que a Internet tem feito para os gays é o reconhecimento de uma realidade que outrora ficava muito mais contida e potencializada dentro da gente. Era angustiante, escondido e limitado.

Vivi o antes, vivi o depois e posso dizer que tivemos um salto incrível. Nada mais apropriado existir blogs como o MVG, servindo como referência para quem está por trás de cada tela. Quem nasceu nesse contexto deve se sentir mais privilegiado.

A referência do antes não é uma das melhores.

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