Sexo gay no Brasil precisa ainda ser melhor compreendido

Não sei se é bom ou ruim o fato da maior ocorrência de busca no MVG ainda abordar as temáticas de gays ativos e passivos. Me incomoda um pouco os gays brasileiros ficarem tão ligados a essa dualidade que é excludente.

É extremamente limitante ter que pensar que nós, gays, precisamos escolher ou decidir pela passividade ou atividade na hora do sexo, é como só fosse possível ser assim ou assado.

E quando dois gays ativos ficam interessados um pelo outro? Ou quando dois gays passivos se sentem apaixonados? Na hora “H” essa dualidade sexual tem que interferir a ponto de impedir que o relacionamento se desenvolva? Qual o real sentido de dividir em dois, gay ativo e gay passivo?

A mim não faz sentido nenhum. Na realidade o sentido diz respeito a falta de lucidez e clareza de que, como gays, não precisamos nos dividir em duas partes. Não existe complementariedade nessa relação, entre dois homens. Essa dualidade tem até vertentes machistas e preconceituosas, colocando o gay ativo como “homem” e o gay passivo como “mulher”.

Quando pensamos no universo heterossexual, quando o homem tem um pênis e a mulher uma vagina, existe um sentido complementar: “um objeto fálico e um buraco”. E mesmo assim, nada impede de um homem heterossexual receber um “fio terra” e sentir o prazer que todos os homens podem ter por trás.

Mas em quatro paredes, quando são dois homens, não faz sentido nenhum criar essa divisão, que é totalmente psicológica e não fisiológica. É psicológica e social e, pensando assim, acabamos nos limitando. É como se dois homens “ativos” não pudessem se relacionar completamente, ou dois homens “passivos” também tivessem essa barreira para o relacionamento se tornar pleno.

Para sermos gays precisamos nos classificar dessa maneira, ou optamos por essa maneira para tentar imitar o que é socialmente aceito?

Aqui no MVG, sempre que puder ou achar pertinente, vou contestar essa postura da maioria dos gays brasileiros ter que definir entre o sexo ativo ou o sexo passivo. No momento que é fato a existência do prazer anal para todos os homens, quais os sentidos psicológicos e sociais que fazem uma pessoa ter que definir por essas duas opções?

Opção que na realidade nos limita. Quem é ativo tem medo de dar e a dor é somente um reflexo dos bloqueios da cabeça de cima. E quem é passivo tem medo de se descaracterizar de alguma forma. Aliás, ambos têm medo de se descaracterizar. Mas que insegurança é essa que nos prende a essas opções excludentes?

O gay passivo precisa de um “homem” e o gay ativo precisa exercer uma “masculinidade”?

E ainda, para complicar mais, o gay mistura atividade e passividade com ser gay masculinizado ou ser gay afeminado. Tudo misturado assim fica difícil! A gente fica acreditando que um gay ativo tem trejeitos masculinos e um gay passivo tem trejeitos mais femininos e assim restringimos tanto as possibilidades que a chance de um relacionamento dar certo não passa de 25%!

Será que ser gay deve ser tão complexo e restritivo assim? Será que não está na hora de cair a ficha e perceber que os modelos heterossexuais de homem e mulher não se aplicam entre os gays?

Os gays brasileiros precisam criar seus próprios modelos, sem as referências da heterossexualidade, partindo do pressuposto verdadeiro que o prazer anal nos homens é fisiologicamente possível. Tentar aplicar valores heterossexuais no universo gay é consentir com modelo gay vinculado ao modelo heterossexual, é aceitar um tipo de dependência.

Gay ativo e gay passivo são duas ideias limitantes que não nos complementam. São ideias que tentam “heterossexualizar” a nossa realidade, talvez, para nos sentirmos mais aceitos ou fazer algum sentido. Mas, de fato, não faz sentido nenhum tentar replicar valores heterossexuais nesse caso.

Gay que é gay resolvido na questão sexual se permite de todas as formas. Do contrário fica a pergunta para pensar: “Por que temos gosto em dividir o universo gay entre ativos e passivos?”.

18 comentários Adicione o seu

  1. Ekial disse:

    Olá MVG,

    Nossa, que susto! Quando li o título pensei que o MVG estava incentivando algo como turismo sexual gay ou prostituição homossexual no país! Uff, nada que uma boa lida não resolva, mas que o título ficou um pouco ambíguo, ah, sim, ficou, rs.

    Sobre o assunto, eu concordo em parte. Só acho que tem gente que ao invés de explicar tudo isso para definir este conceito, simplesmente vai dizer “flex” e evitar maiores perguntas. Entretanto, como funciona a questão da preferência, MVG? Quase todos os gays que conheço têm preferência por um papel específico na cama e poucos se dizem efetivamente versáteis entre quatro paredes.

    Sobre os casais gays, em vários fica mesmo um tanto evidente o fato de um representar o “homem” e o outro a “mulher” da relação se traçarmos um paralelo com os papéis”de cada um com um casal heterossexual. Mas até que ponto isso é mesmo negativo? Não que eu ache necessário que os gays fiquem representando o modelo de casais heterossexuais, afinal, casa um que represente o papel que desejar, mas trangredir toda uma invenção cultural fortemente arraigada dentro de todas as pessoas desde o momento em que nascem não é tão fácil [talvez a Suécia, e olhe lá, está um passo adiante dos demais nesse sentido].

    Além disso, não sei se há algo errado em homossexuais se identificarem ligeiramente mais com o equivalente à figura feminina dentro de um relacionamento que com a figura masculina: ou entendi errado, ou isso é bem paradoxal ao afirmar que trata-se de um certo machismo.

    Bah, não quero parecer tão heterodoxo, rs. São 2h30 da manhã e talvez metade dos meus neurônios já estejam dormindo. Mas vamos lá, quero aprender também debatendo com o MVG! ;D

    1. minhavidagay disse:

      Oi Ekial!
      Realmente o título ficou ambíguo, rs!
      Corrigi agora porque não quero incentivar nem turismo nem prostituição! :P

      Pois é Ekial. No meu ponto de vista, preferência também está inserida no estigma padrão heterossexual, como você verá no relato em sequência que um usuário apresentou aqui no MVG e que vou autorizar e comentar em seguida. Essas especificidades, ativo ou passivo, nada mais é do que fruto dos padrões brasileiros. Pergunte se lá fora, nos países desenvolvidos, esses conceitos são tão definidos assim? Não são a ponto de limitar um relacionamento.

      Quantas vezes já não vi frustrações de gays que não evoluíram relações pelo fato de sua “regra” ser a mesma do parceiro? É nesse ponto que critico esses nossos posicionamentos. Como gays, que já temos tantas restrições, precisamos nos fracionar entre ativos e passivos, sendo que de fato fisiologicamente qualquer homem pode ter prazer anal com simples estímulos no ânus e na próstata?

      Não vejo problema nenhum de um gay se identificar com a figura feminina ou masculina. Realmente essas identificações são naturais e acontecem muito no nosso meio. Mas nem sempre um gay afeminado é passivo, e nem sempre o gay masculinizado é ativo. Ser afeminado ou masculinizado nem sempre tem uma correspondência óbvia e direta com atividade ou passividade e o leigo acaba achando que afeminado é sempre passivo e masculinizado é sempre ativo. Mas não é. São coisas diferentes.

      Bom, aguardo seus comentários e veja o exemplo do relato do usuário que escreveu ao MVG em seguida.

  2. Jorge disse:

    Olá, preciso de uma opinião, antes que eu enlouqueça.

    Tenho 29 anos e sou casado há 8 anos com um rapaz de 26. Ao contrario desse post nao temos problemas nenhum com essa coisa de ativo e passivo, isso nunca foi discutido entre nós, ele é somente passivo e eu somente ativo, é assim que gostamos das coisas e isso nunca vai mudar,eu gosto da feminilidade dele, ele é uma especie de Kurt do glee, misturado com a Taylor Swift, tambem gosto do jeito que ele faz eu me sentir homem, mesmo eu sendo gay.

    O problema, é que eu nao vivo mais minha vida, vivo a vida dele, deixei meus sonhos, pra viver os sonhos dele. Há 5 anos deixamos o interior pra vim pra sp pra ele estudar moda, eu tinha uma academia de artes marciais, acabei fechando, virando a cara pra minha familia, pra segui-lo. Eu pensava secretamente que essa faculdade seria uma fase, que ele se formaria e nós voltariamos pro interior, onde ele voltaria a me ajudar na academia. Mas ele se formou como 1° da classe, conseguiu um ótimo emprego e quer ficar aqui. Eu nao quero ficar aqui, tambem nao gosto da vida que ele leva agora, indo pra varios eventos a noite, chegando tarde em casa, mal conversamos, há 3 meses nao transamos. Sem contar que ele ganha 10 vezes mais que eu ganho dando aulinhas de defesa pessoal, e isso me incomoda bastante. Sei que minha visao é meia primitiva e ignorante, mas eu o amo muito e nao quero perde-lo pra “são paulo”. Eu até já cheguei a pensar que ele tem vergonha de mim, pois nunca me leva pra esses lugares, e já até cheguei a desconfiar que ele tira a aliança pra sair, pois varias vezes já vi no bolso dele.

    Como eu faço pra ele notar meu desconforto? Eu queria muito ter mandado um email, pra ninguem ver, só vc, mas achei melhor comentar aqui. Como eu faço pra ter uma conversa com ele?

    Abraço e agradeço desde já.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Jorge!
      Primeiramente agradeço por você dividir seu relato no Blog Minha Vida Gay. É uma história bastante interessante e deve trazer identificação com diversos usuários. Ajuda a enriquecer o blog com novas referências e expressa bem a diversidade.

      Curioso como você compartilhou essa sua história no post que comento sobre o perfil do “homem” e o perfil da “mulher” em um relacionamento gay…

      Em segundo lugar, darei minhas opiniões de maneira bem objetiva e prática. Daí você vê se é um tapa de luva Prada ou um golpe de Kung Fu (rs). Brincadeiras a parte, só para descontrair…

      Me parece que você é o bom “marido” do interior, de valores, gentil e que abriu mão da carreira e das raízes para tornar real os sonhos da sua “esposa”. Sua esposa escolheu por cursar a área de moda, que é estética pura, imagem, mulheres desumanamente magras, uma vida profissional sem horário certo, de madrugada a dentro, cheio de concorrências e ambições.

      Há 8 anos atrás existia uma pureza da juventude no interior. Você tinha 21 anos e uma academia de artes marciais. Já estava estruturado profissionalmente e tinha sua reputação. Seu namorado tinha apenas 18 anos, não estava ainda nem formado e possivelmente idealizava um homem para a vida: você, másculo e professor de artes marciais. Não tem coisa melhor quando idealizamos um homem “macho” para a vida?

      A compatibilidade “padrão heterossexual” supriu muitas vezes vocês dois, um cumprindo o papel masculino e o outro o feminino. E na realidade do interior esse modelo funcionava bem, longe ainda das ambições do seu marido que ainda não tinha uma visão mais clara da vida, nem você.

      Como um bom “marido”, acompanhando os desejos de sua “esposa”, e quase num ímpeto PATERNAL você abriu mão de suas bases, “negou” sua família e veio para São Paulo para dar todo apoio para o jovem que queria virar “estrela da moda”, da vibe “Project Runaway”, das concorrências, das vaidades, do status e da máxima estética.

      Acontece que 8 anos se passaram e o jovem, que é seu marido, está virando um homem adulto e está se encontrando. É ambicioso, respira a essência da moda e todas as manias, boas e ruins, que é trabalhar numa área que é um tanto concorrida e insana de horários.

      E, de repente, não afirmo mas imagino que, para a sua “esposa”, que o via antes como o homem másculo e ideal, o enxerga agora como o “simples sem ambições”. E que a vida dele tem muito mais estrelato. Na vida dele, talvez hoje não caiba casamento. Então, talvez, seja melhor esconder a aliança porque não combina com as pessoas da moda carregar esse tipo anel no dedo.

      Sabe o filme “O Diabo Veste Prada”? Me parece uma história bastante semelhante. Por um lado temos a menina ingênua que descobre um universo imenso, cheio das regras, concorrências, necessidades de status, ambição, imagem e riqueza. Ela se encanta, se identifica, é desafiada e começa uma jornada de auto-afirmação para se posicionar naquele meio de beleza, luz, movimento e aparência. Fragilidade, ingenuidade e pureza não cabem. Por outro lado, temos o namorado, da vida simples, dos amigos, das raízes de uma vida pacata que começa a desacreditar que a sua namorada está se entregando àquela realidade.

      Um fosso entre você e seu marido começa a abrir porque, de repente, parece que suas realidades e seus mundos não são mais os mesmos. Você se chateia porque foi marido e até pai, abriu mão da sua vida e de suas vontades para dar vasão aos sonhos de sua esposa. Ele, da maneira individualista e egocêntrica, como a moda pede para ser, não mais valoriza as bases que valorizava antes. Ou talvez esteja cego numa necessidade atual de se firmar como um profissional da área de moda.

      E de quem é a responsabilidade agora da relação estar se fragmentando? Sua por abrir mão da sua vida, de ter sido o bom moço e o bom homem para atender as expectativas da sua “mulher” largando tudo ou quase tudo que era seu. E do “Kurt” por essa necessidade incontrolável de virar “o cara da moda”, do estrelato, do sucesso e do status esquecendo-se de dar atenção para a relação que inclusive ajudou a chegar onde chegou.

      A realidade é que vocês são dois HOMENS, com desejos e estilos de vida. E homens quando querem construir uma vida em conjunto precisam ter uma consciênca muito grande das individualidades e de saber onde colocar a relação muito bem. Homem com homem não tem a natureza de poder ter filhos naturais. De repente você pensa em filhos e seu marido não. Mesmo porque seu marido hoje está num momento muito forte de se firmar como profissional. Filho adotado nem cabe.

      Desculpe se peguei pesado, Jorge.

      Está na hora de você abrir o jogo, chamar para a conversa e ver onde vocês estão colocando a relação! Será que a relação tem sentido ainda? Onde está você na relação? Onde ele está? Jorge, converse com o rapaz! Apesar de “homem na relação” você tem suas carências e necessidades! 8 anos pode já ter bastado, ou pode ser a chance de ser mais 8! Mas me parece que a “mulher” virou gente grande, é homem e está seguindo atrás das próprias ambições. Dá para conciliar os desejos?

      De certa maneira ou de todas as maneiras, é muito bacana você ter um marido que é independente, que tem desejos próprios e corre atrás.

      Por outro, o modelo “bonitinho” marido e mulher não parece estar se aplicando mais… relacionamentos gays moldados nesses modelos heterossexuais traz esses tipos de problemas. E falo isso por experiência própria. A diferença é que a minha “ex-esposa” se tornou extremamente dependente de mim.

      Qualquer coisa grita!

      Abraço!

      1. Ekial disse:

        Bom, já me introduzindo na conversa, fiquei curioso para entender a parte onde o “heterossexismo” da relação de ambos atrapalhou, de fato, e como isso seria diferente numa relação “não-heterossexista”.

      2. minhavidagay disse:

        Oi Ekial!
        Não posso responder pelo Jorge, mesmo porque talvez todos esses conceitos e ideias sejam novos a ele. Vamos deixá-lo a vontade para interagir se quiser.

        Mas posso relatar um pouco das minhas referências e de minhas próprias experiências.

        Relações “heterossexistas” entre os gays costumam colocar o “masculino” da relação como o provedor estrutural e apoio emocional para o “feminino”, remontando um pouco da relação heterossexual das antigas, quando as mulheres eram dependentes dos homens, da “casinha de bonecas”, do “papai voltando do trabalho e mamãe fazendo o jantar”.

        Na minha opinião, a ideia do príncipe encantado e da princesa na masmorra é um conceito falido, anterior à revolução feminista, mas que quando casais gays se apropriam, buscam algo próximo e não da forma atual e moderna de casais indepentendes e emancipados.

        Falo por mim que tive um casamento no qual passei a ser o provedor moral, material e emocional do meu marido no decorrer do casamento. Passamos a ter um vínculo de dependência enorme e, a medida que ele ia “forçando” o modelo feminino das sentimentalidades e do emocional aflorado, em contraponto para existir um equilíbrio na relação eu passava a assumir uma postura mais racional e objetiva.

        Em outras palavras, quando ele tinha suas crises existenciais e dificuldades, eu buscava pensamentos e conselhos críticos e racionais rapidamente para que a crise não transbordasse e a própria maneira de enxergar a vida não virasse um mar de sentimentalidades que poderia se materializar em depressão, negação ao trabalho, falta de apetite, entre outros sintomas. Mas e quando eu tinha as minhas carências e minhas questões? Não era possível ter apoio da parte dele que lançava por cima das minhas nessecidades as questões dele como se os seus problemas fossem mais importantes que os meus e a minha característica de pessoa mais “forte” ou “macho” fosse desculpa para me virar sozinho.

        Aos poucos e até mesmo sem querer fomos assumindo esses perfis: eu o “macho” racional, “impávido” e preparado para qualquer questão. E ele fragilizado, sujeito a se deparar com qualquer advento que pudesse ser crítico, que pudesse tirá-lo do controle e que ele buscaria evitar.

        Na prática, ele foi assumindo um perfil “dona de casa” e eu do “homem que traz o dinheiro para o sustento da família”. Quando me dei conta que estava vivendo um modelo heterossexual e antigo, tomei um susto. Eu olhava para um homem que se comportava como uma mulher e ainda ciumenta, cheia de vaidades e dependente!

        Teve até um evento que serve de exemplo: saímos com amigos para um bar e na época meu marido não mais trabalhava. Ele tinha muita sorte de sempre ter rapidamente oportunidades de emprego, mas sempre havia uma desculpa para não seguir em frente. Assim, no bar, quando fui pagar nossas comandas ele havia gastado mais do que o dobro do que eu. Fiquei aborrecido com a situação, do fato das contas serem todas minhas e ainda ele não ter a noção do cuidado de não abusar. Como ensinar uma coisa dessas para um homem adulto? Tratando-o como uma mulher imatura?

        Podem até exisir homens gays que gostem de assumir esse papel do “macho”. Mas para mim não dá mais. Eu meio que assumi durante 3 anos, mas na realidade moderna que vivo, não busco nenhuma mulher, muito menos um homem que torne-se dependente dessa forma. Acredito na divisão de papéis de maneira mais igualitária, focada em responsabilidades para com a relação, mas sem projeções de papéis masculinos ou femininos idealizados.

        Assim, no meu ponto de vista, o modelo heterossexista na maioria das vezes quando aplicado entre gays, assume uma postura antiquada, antiga, como se houvesse uma responsabilidade de “príncipe” por um lado e de vaidades de “princesa” por outro, formando um tipo de círculo vicioso e limitado. Em determinadas circunstâncias, no convívio diário e nas nuances do cotidiano do casal – na prática – algumas ou muitas coisas nesse modelo começam a entrar em choque. Na realidade são dois homens que estão juntos. Se fosse para ter essas possibilidades de homem-macho-provedor estaria me envolvendo com uma mulher-submissa-antiga (rs).

        Um outro exemplo para reforçar minhas reflexões é que tive contato com um menino numa de minhas fases solteiras. Esse menino estava casado com um rapaz e cumpria todas as “funções da dona de casa”. Estava desgostoso pela desvalorização, pelas críticas e pelos desgastes no relacionamento. Recorria a mim para uma possível traição, para que eu assumisse um papel de amante (na circunstância) e para que resgatasse um pouco de sua auto-estima comigo. Neguei assumir o papel de amante mas ofereci minha amizade.

        Com a minha referência do casamento, e com as identificações óbvias na relação desse amigo, fui acompanhando toda a trajetória, assumindo o “ombro amigo emocional” até o momento que ele se encorajou para terminar. Suas grandes dificuldades para romper com o marido, e que ele pontuava, era que estava num apartamento que não era dele mas estava confortável, teria que voltar para a casa dos pais no interior e “recomeçar” a vida de novo pois não teria condições de se estabelecer em São Paulo.

        E conseguiu. Hoje tenho contato apenas por Facebook e vejo como ele está bonito. Bonito sempre foi, mas bonito no sentido da auto-estima no lugar novamente que dá para notar pelas fotos e posts. Voltou a gostar dele mesmo, de novo. E viveu uma relação heterossexista.

        O que quero dizer com isso é que, dois homens juntos, não é um homem e uma mulher por mais que queremos assumir esse perfil. Homens são competitivos, homens costumam ter hormônios mais aflorados, homem é diferente de mulher em suas naturezas e, por exemplo, diferenças de ganhos profissionais e renda mexem com a moral. Mesmo o ex-marido do meu amigo não jogando na cara que ganhava melhor e tinha um bom status no trabalho, o amigo se sentia inferiorizado por ganhar menos ou por não ter um emprego tão estável. Se sentia menos por não ter um imóvel e por não poder chegar em casa com roupas novas como o ex-marido fazia.

        E é difícil. Casais de gays homens precisam saber colocar as competitividades em “lugares saudáveis” porque quando o clima não está bom, quando a relação está fora de compasso é muito fácil esse tipo de coisa vir a tona.

        Por fim, minhas verdades não são absolutas! (rs) Vale sempre mais a pena fazer aquelas coisas que a gente acredita. O que temos aqui são somente referências…

      3. Jorge disse:

        Olá, já me decidi, vou falar com ele amanha. Mas confesso que tenho medo de ser ridicularizado por ele. Hoje é domingo, estou aqui sozinho, passei o dia sozinho. Ele saiu e nem disse aonde ia, só disse que ia trabalhar. Ele pode estar em qualquer lugar de sp e eu não sei onde é, pode estar fora de sp e eu também não sei, pode até estar na China. O que mais me chateia é que nossa vida era perfeita antes, minha academia nao rendia muito, mas era suficiente pra vivermos bem e dar um certo luxo pra ele. Me encantava a simpatia que ele tratava os clientes, a maneira de como ele atraia novas pessoas com sua simpatia.
        Mas enfim, nao tenho amigos aqui, muito obrigado por ter me ouvido e respondido, na verdade eu já estava com a decisao tomada, só queria ter a sensaçao que desabafei e alguem me ouviu. Vou falar com ele, embora ele vai rir e usar girias tipo “OMG, aqui nao é ribeirao preto, é sp, wake up, he-llo-ow” rsrsrss, brincadeira! rsrs
        Abraço, muito obrigado e boa sorte!

      4. minhavidagay disse:

        Legal Jorge.
        Boa conversa entre vocês. Espero que tenham muito diálogo e quanto aos deboches do tipo “He-lo-ou”, ou “OMG”, ou “Wake up”…rs. Bem, você preferiu se envolver com um Kurt que faz moda! rs. De qualquer forma, você o conhece há 8 anos e isso é bastante significativo. Parabéns pelo longo relacionamento e espero que se acertem da melhor maneira.

        E não se esqueça: apesar de você ser o “macho”, você tem suas inseguranças, fragilidades e receios! He-lo-ooou, hora de abrir o jogo pro marido que me parece ter sido MUITO mimado! rs

        Abraço!

  3. Will disse:

    Essa de ativo e passivo, é uma das minhas MAIORES raivas que tenho no meio gay.
    Já vi muitos relatos de gente que terminou um relacionamento, se dando MEGA BEM, mas por questões de ativo x ativo/passivo x passivo terminaram. Acho ridículo essa classificação de gay.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Will!
      Deu para sentir o seu desgosto por esses conceitos! rs. Mas são estigmas muito fortes ainda no Brasil, muito provavelmente fruto da cultura machista que ecoa entre os homens gays. Creio que levaremos um tempo para rever esses valores. De qualquer forma, estamos aqui mostrando pontos de vista. Abraço!

  4. Darkbringer disse:

    Finalmente consegui uma brecha para comentar aqui no blog! É difícil ficar escondendo das pessoas que eu visito o site e que eu sou gay. Às vezes dá vontade de gritar para todo o mundo ouvir: “EU SOU GAY COM MUITO ORGULHO!”
    Ai, ai… Não aguento mais perguntas do tipo: “Você é ativo ou passivo?” Sou flex pô! rs
    Voltando um pouco à questão do post, já vi um casal gay de perto e posso dizer sem precisar analisar muito quem é o “macho” e quem é a “fêmea” da relação nesse sentido que foi abordado no post: o homem trabalhador, e a mulher dona de casa. Que tristeza. Acho bonito os dois juntos e penso como deve ter sido para eles assumir a homossexualidade e o namoro aos pais. Infelizmente, nenhum dos dois assume que são um casal. Ambos sempre dizem que são apenas amigos, mas é algo que está na cara. Talvez eles estejam querendo evitar o falatório das pessoas. E também, venhamos e convenhamos, eles não devem satisfação à ninguém.
    Acho que todos esses problemas são apenas reflexo da falta de informação e de conscientização. O que eu sempre digo é: nunca podemos generalizar sobre nada, pois toda regra tem sua exceção. Já é tão difícil com heterossexuais que despejam estereótipos sobre nós… Com os gays reforçando isso, fica ainda mais difícil. Vou rezar para que minha futura relação gay não tenha esse tipo de coisa que eu considero uma grande besteira e que traz problemas desnecessários.

    1. minhavidagay disse:

      Pois é Darkbringer! Os esteriótipos são muitos e de todos os lados que, quanto mais pudermos evitar ou amortizar, melhor. Bem ou mal contribuímos com a formação da imagem que a sociedade tem do gay. E os esteriótipos, os “personagens” ainda são nossos representantes na sociedade brasileira. O MVG talvez tenha um pouco desse propósito: quebrar um pouco com as parcialidades e tentar mostrar um pouco mais do todo que são os gays.

  5. Ekial disse:

    Olá MVG! ;D

    Poxa, confesso que essa imagem de casal formado pelo “homem que trabalha” e a “mulher que fica cuidando de casa” é estranho até mesmo em casais heterossexuais, mas eu acho que entendi o que você quis dizer.

    Não fui criado à base de leite com pêra, mas não vejo essa imagem de casal com maus olhos, pois não necessariamente é ruim. Tantos e tantos casais heterossexuais vivem e viveram essa realidade, muitos sendo tristes, claro, mas muitos sendo felizes assim também. Não pode ser esse modelo de relacionamento especificamente o problema em questão.

    A questão da submissão, obviamente não ocorre de modo forçado, como no caso de mulheres que apanham de seus maridos, são forçadas a ficarem dentro de casa e terem uma vida medíocre para reforçar a submissão negativa. Numa “visão moderna”, eu diria que ser submisso ao companheiro(a) não é ser dele um escravo, mas satisfazer-se, até certo ponto, simplesmenteao satisfazer as vontades do outro, talvez como o caso do Jorge, que pelo menos no momento da decisão, decidiu deixar a própria vida pra trás em nome do companheiro. Naturalmente ninguém gostaria de ser sempre submisso ao outro de tal forma, afinal, todos temos nossos desejos e vontades próprias, mas é só para demonstrar que nem sempre essa submissão é negativa: negativo é o fato dela ser uma submissão de mão única!

    Mas entendi a parte que você falou sobre o desequilíbrio da relação devido ao fato de na verdade não existir um “macho” e uma “fêmea” num relacionamento homossexual, mas sim duas pessoas que compartilham sentimentos e desejos similares, se bem entendi. E, nesse caso, o mesmo pode ocorrer a casais heterossexuais, onde não necessariamente sempre ocorre aquele modelo tradicional de relacionamento. Onde trabalho mesmo há uma senhora de 52 anos que há 25 é chefe da família enquanto seu marido é “dono-de-casa” (não, ele não é mal caráter ou um gigolô): imagine na década de 80 o tamanho do tabu que este casal gerou entre familiares, amigos e conhecidos!

    Enfim, talvez o que falta em qualquer relação onde os cônjuges, independemente do papel ou desejos, é diálogo. Não sei os demais, mas ultimamente acho muito difícil parar e conversar com qualquer um porque as pessoas em geral não estão mais acostumadas a ouvir o outro. O próprio Jorge reclamou da falta de comunicação entre ele e seu companheiro.

    Não vejo o MVG como verdade absoluta e nem tenho verdades absolutas a impor a ninguém: apenas adoro uma boa conversa (talvez regada a um pouco de provocação, rs). Acho que aqui é o lugar certo: tem o que não se encontra por aí.

    Obrigado MVG pelo espaço!

    1. minhavidagay disse:

      Bacana Ekial!

      A fundo mesmo o que falta é diálogo. Eis a base. Só “condeno” um pouco esse modelo pois pode forçar esteriótipos dependendo dos interlocutores e as referências sociais. Falta de diálogo, esteriótipos, dois temas que podem complicar relacionamentos e uma maior abertura da realidade gay à sociedade.

      E realmente, amigo Ekialwassa, as boas discussões no MVG enriquecem àqueles que lêem! Agradecido pela participação e pontos de vista! :D

  6. Jorge disse:

    Olá, sou eu de novo. Só queria dizer que conversei com ele e deu tudo certo. Na verdade eu me senti muito culpado por julgar ele assim. Ele disse que estava fazendo turnos dobrados porque queria comprar roupas melhores e de marca pra mim, e esse era o motivo que ele me “escondia”. E disse tambem que sofria muito no emprego por seu um novato, ele disse que faz tudo, carrega coisas pesadas, passa roupa, lava roupa, costura etc… ou seja, glamour zero.. rs, mas se ele quer assim, que assim seja. Eu mesmo cheguei a conclusao de que quero ficar aqui, nao quero abandonar a escolinha de karate da comunidade. Infelizmente, ou felizmente sei lá, ainda vamos continuar no mais perfeito modelo hetero, nao é nada que possamos mudar, é o jeito dele ser afeminado e o meu ser macho, em 2004 quando nos “juntamos”, nós nem sabiamos o que significava essa coisa de ativo e passivo, aconteceu naturalmente. No domingo eu pensei seriamente em uma separaçao, mas eu sou um homem com bastante principios, e meu pai nao me ensinou o divorcio, apenas o casamento, por isso, por mais que eu queira, nunca vou conseguir me separar. Alem de que, eu amo ele muito haha e nem sei o quanto eu to feliz por ele ter voltado ao normal…
    Cara, sinceramente, continue com esse blog, ele é otimo, com uma linguagem super simples, enfim, obrigadoe boa sorte!

    1. minhavidagay disse:

      Muito bom ter essas boas notícias!
      Não passou de um mal entendido e a emoção está em vocês! Então que esses 8 anos vire 16!
      Felicidades, caro Jorge! Felicidades para ambos!
      Um abraço!

      1. Leonardo disse:

        Gostei muito do blog e estou feliz com os comentários, histórias e relatos. Contente também por saber o quanto você, responsável pelo blog (não sei seu nome heheheeh), ser bastante solícito e atencioso nas respostas aos visitantes. Muito obrigado pela iniciativa.
        Sou do Rio, cidade maravilhosa, e mando um abraço fraterno a todos os gays, lésbicas, travestis e transgêneros que existem no mundo. Estamos enfim conquistando nosso espaço merecido.

      2. minhavidagay disse:

        Oi Leonardo!
        Muito obrigado pelos elogios e pela apreciação do blog!
        E que os camaradas cariocas também dêem o ar da graça por aqui. :)

        Abraço!

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