Menos gay, mais humano


Vira e mexe recomendo nos posts que os gays precisam fazer do diálogo um hábito, seja sobre questões entre um casal num namoro, seja o gay enrustido que está saindo do armário.

Creio que, apesar de seres humanos evoluídos e racionais, muitas vezes esquecemos dessa parte que é conversar, ou melhor, saber expressar o que está passando por dentro. A juventude, por exemplo, hoje em dia me parece mais hábil teclando do que numa conversa cara a cara. Claro que o olho no olho é mais intimidante. Mas também é mais autêntico ou quiçá mais adulto.

E a gente tende a não querer ser adulto. Ser adulto parece coisa velha, da falta de ânimo e é como se não combinasse com ser gay, com ser jovem.

Na grande maioria das vezes o casal gay “cansa” e cada um vai acumulando frustrações, inseguranças, desconfianças e esquece do diálogo, como se um ao outro tivesse a obrigatoriedade de estarem prontos. Chega uma hora que sentimentos ruins ultrapassam a razão e o próprio senso que a gente tem do companheiro se perde e surgem as brigas, os desgostos e os desentendimentos. Tudo muito fruto de nossa incapacidade de transformar sentimentos em palavras. As vezes é muito difícil transformar orgulho e rejeição em conversa. Talvez porque como gays, erguemos muita a bandeira do ego e convivemos com bastante rejeição durante a vida e aí, quando é para por pra fora esses tipos de sentimentos que também podem acontecer em um namoro, a gente fica perdido, escorrega, esquiva, não sabe como expor e talvez nem pense que precisa expor.

“Para que me ‘humilhar’ perante ao outro?”.

Mas o papel da expressão é determinante para a qualidade de qualquer relacionamento. Precisa e acho estranho esses namoros gays a distância que tenho visto por aí, que as pessoas se encontram uma vez por mês ou por semestre e constróem a relação pela Internet, por exemplo. Tão cômodo seguir esse modelo. É como viver fantasias e, sem querer, dar ênfase ao total despreparo de se relacionar. A ação de se relacionar, num sentido literal da palavra, implica fundalmentalmente no presencial. E-mails, redes sociais e programas de bate-papo deveriam ser apenas complementos a um relacionamento e não a base. A gente pode até achar que nos completa. Mas de fato nos acomoda a um nível inferior da habilidade de nos relacionar que deveria ser desenvolvida.

Tenho pautado meu namoro em muito diálogo, na ideia de além de sermos namorados, de nos atrairmos e de convivermos com o amor, somos capazes de ser confidentes, amigos. De fato para o mundo inteiro a gente pode vender uma imagem, criar uma estampa e atuar sendo assim ou assado. Mas para o namorado ou marido temos a oportunidade de nos tornarmos amigos, amantes e confidentes. Normalmente o gay pára e termina somente na “etapa amantes”, que é a primeira, que parece ser a única que dá prazer. Se a paixão acabou ou ficou duvidosa o gay tende a pular fora do barco para não ter que exteriorizar sentimentos como frustração, decepção ou orgulho, ou não ter que passar por algum tipo de rejeição, ou não ter que discutir, brigar, rever conceitos e valores. Mas afinal de contas, será que não é na hora que existem as discordâncias, conflitos e desentendimentos que temos a oportunidade de evoluir como indivíduos?

Assim, boa parte dos gays preferem viver na solteirice, alimentando-se apenas de intensidades ou namoros a distância que não nos coloca em exposição. Fugimos do cara-a-cara, do olho no olho que muitas vezes um relacionamento afetivo exige para nos tornar maior, que representa a superação de etapas e nos “adultificar”.

Pode existir cirurgia plástica, dinheiro e status em paralelo. Mas não há ser humano até hoje que controle a força do tempo, que nos faz envelhecer, perder a libido e a voracidade da juventude. Pensando que a vida tem começo, meio e fim, o gay no geral vive acreditando no eterno começo e esquece que o crescimento que nos leva a “paz no coração” é quando vivemos efetivamente histórias em nossas vidas de começo, meio e fim, de assumir por exemplo uma relação, assumir que o orgulho limita, assumir que a beleza física nos coloca como objetos, assumir que aceitamos a condição de objetos, assumir nossas imperfeições e assumir que nascemos sós e um dos desafios da vida é aprender a compartilhar o que somos com alguém de maneira muito mais íntima. Não dá para ser íntimo sem a proximidade, sem o convívio e sem entrega. Em outras palavras, vamos envelhecer e essa letargia de querer viver sempre o começo das histórias que nos parece mais excitante e boa vira uma armadilha: quando nos damos conta estaremos inevitavelmente velhos.

Me preocupa ver a “minha classe” vivendo essa frequência de um eterno começo, deixando abertura e possibilidades com tantas pessoas mas, de fato, não concebendo nem realizando nada em profundidade. Apenas numa aparente “intensidade”.

Precisamos sim nos preocupar com o lastro de relacionamentos. Lastro, nesse ponto, significa a vivência que nos torna experientes, confiantes de nós mesmos a ponto de não nos sentirmos desconfiados a todo momento.

Talvez, num futuro nem tão distante, com meu espírito empreendedor, montar uma franquia de asilo para gays pode ser uma boa. Serão clientes idosos, endinheirados, nível A e sozinhos.

Felicidade me parece mais um bem estar que vem de dentro e nos traz um tipo de paz íntima, do que aquela imagem aparente, “reluzente” e que “sem querer” tem o propósito de atrair o olhar alheio.

4 comentários Adicione o seu

  1. Darkbringer disse:

    Bem, estou pensando seriamente em me assumir completamente, mas ainda sou um adolescente e apesar de achar que é um pouco cedo, sofro muita pressão, principalmente pela ansiedade e expectativa de que eu arranje uma namorada ou então uma simples pergunta: “Vc já está namorando?”. Isso machuca um pouco, porque as pessoas esperam de mim uma namorada, não um namorado. E agora resta a dúvida: deixar o tempo dizer por si só, ou assumir agora? =/

    1. minhavidagay disse:

      Oi Darkbringer!
      Você que acompanha o MVG nota que estou constantemente incentivando os gays a saírem do armário.

      Creio que você tem a certeza, ou melhor, não há mais dúvidas sobre a sua sexualidade.

      Entendo também a certa cobrança de namorada e como isso nos pressiona.

      Esse é o contexto, bem resumido.

      Apesar da decisão ser totalmente sua, penso também que temos uma certa autonomia para assumir as coisas da vida, não somente a sexualidade. Deixar o tempo dizer é um caminho, mas se nesse tempo nos camuflamos totalmente e não deixamos algumas “pistas” podemos viver por longos anos nesse anonimato sexual.

      Assumir tende sempre a ter prós e contras e na vida é assim, como um efeito borboleta, uma atitude que tomamos pode reverberar em outras coisas.

      Eu, por exemplo, decidi tomar a atitude de ter uma empresa há mais de 12 anos. Assumi essa história e tenho levado até hoje. E se eu tivesse continuado no meu último trabalho como funcionário? De imediato acho que estaria frustrado. Mas quem garante que não poderia ter seguido outros caminhos tão diferentes do que vivo hoje? Nada garante a não ser a realidade do que vivo aqui e agora.

      Não assumir coisas pode nos deixar num eterno estado de inércia. Mas também é uma opção.

      Na realidade não existe a certeza total de uma melhor escolha. Existe a nossa capacidade de lidar com o que esperamos de bom – que é fácil – e de ruim que costumamos não planejar totalmente mas que, se estamos na chuva precisamos nos molhar e buscar resolver da melhor forma, seja molhando mais, seja nos abrigando.

      Isso serve para qualquer grande decisão na vida que nos tira da segurança do que é estabelecido, seja uma escolha de um novo emprego, seja uma viagem, sair de casa ou também assumir a sexualidade. Raramente agradamos gregos e troianos nas decisões importantes da vida.

      Mas para que a gente escolha por decisões conseguimos medir alguns riscos, ou melhor, o quanto queremos lidar com a parte imprevista ou ruim de uma decisão. Você sabe no seu íntimo, se reconhece as pessoas próximas a você, quais seriam as reações possíveis de se assumir como homossexual. Tirando uns medos daqui, outros receios dali, o que será que fica? Seria um caoz total e eterno ou mais uma etapa de seu crescimento ou reconhecimento? Crescimento inclusive das pessoas que você teme em magoar? Só você saberia dizer.

      Jamais falaria assuma ou deixa a coisa rolar. Só você sabe o que passa por dentro de você e por fora.

  2. Darkbringer disse:

    Muito obrigado, MVG. Apesar de todas as dicas e incentivos, às vezes fico em dúvida. Suas palavras foram confortantes e agora já sei o que devo fazer!

    1. minhavidagay disse:

      Que bom! Coragem.
      Felicidades para você e mande notícias. :)

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