Monogamia entre casais gays é difícil

Recentemente li uma reportagem sobre a questão difícil que é manter a monogamia entre os casais gays e o psicólogo Klecius Borges justifica essa dificuldade pelo fato da monogamia fazer parte do modelo heterossexual.

A reportagem fala da dificuldade do gay em encontrar um namorado, do por quê dos gays se envolverem por heterossexuais e sobre a dificuldade do casal estabelecer um relacionamento monogâmico.

Para os pontos da “dificuldade gay em encontrar um namorado” e dos “por quês dos gays se atrairem por heterossexuais”, muito dos conceitos coincidem com os pensamentos do Blog MVG, do meu olhar crítico e de minha vivência na prática.

Porém o psicólogo joga luz para essa dificuldade entre casais atestando que a monogamia é fruto dos modelos da heterossexualidade e tenho que discordar. No meu ponto de vista tem mais a ver com a cultura ocidental e com as influências da religião. Se a monogamia fosse atrelada a conceitos da heterossexualidade, do casal hétero, o que justificaria homens heterossexuais em algumas regiões do oriente possuírem mais de uma esposa, senão a própria cultura e as influências da religião?

Realmente, concordo que a monogamia é algo mais difícil de conquistar quando o assunto gira em torno do relacionamento afetivo entre dois homens que têm uma natureza da vontade do sexo mais aflorada. E isso é genético e fisiológico, mas de maneira nenhuma se resume a isso.

Uma traição passa a ser traição quando existe a importância da monogamia entre o casal e um dos parceiros ou os dois infrigem essa regra. Acordos mais abertos são realmente possíveis mas não sei até que ponto administráveis por longo tempo.

E o que fazer quando a parcela “sexo” na relação não anda bem entre um casal gay?

É aí que entra meus ideais, que não tem a ver com referências heterossexuais, reforçando minha discordância de que a monogamia está atrelada ao modelo heterossexual de convívio.

Sexo é importante? É, mas socialmente e culturalmente, o sexo no Brasil é diretamente associada à potência masculina, das vertentes machistas de nossa sociedade. “Homem bom é homem que dá no coro e não recusa”.

Será mesmo? É uma cobrança boba, antiga e que muitas vezes a gente cai. Cai a ponto de banalizar o próprio sexo no momento que é tão fácil transar hoje em dia. Melhor dizendo, sexo entre gays quase não tem mais a ver com intimidade porque a gente sai facilmente da balada e corre pro motel. Onde tem intimidade nisso se nunca foi tão fácil ficar pelado na frente do outro? Intimidade, pelo próprio sentido da palavra tem a ver com o que não se abre, é próprio e não diz respeito ao outro com tanta facilidade.

Intimidade no mundo moderno, no meu sincero ponto de vista, quase não tem mais a ver com a nudez ou propriamente ao sexo. Nudez já não é mais íntimo. Intimidade se concentra em desvendar uma pessoa, nas qualidades, manias, caráter, personalidade e defeitos. E como já mencionei em muitos outros posts, leva-se tempo e as vezes a vida toda.

Gay assumido não quer dizer resolvido e um indivíduo pode levar mais tempo do que se imagina para entender a sua própria intimidade, que vem desde as limitações em ser ativo ou passivo, em ser afemindado ou masculinizado, do valor que dá para a beleza física, entre outras questões que dificultam esse gay a se esclarecer de sua própria intimidade. Imagine então revelar a um parceiro?!

Então, no meu sincero ponto de vista, por que a monogamia é mais difícil entre os casais gays?

É mais difícil não porque o homem gay projeta valores da monogamia do modelo heterossexual e seguimos essa regrinha. Mas porque quando o sexo não é mais intenso, e que costuma ser intenso somente no começo de qualquer relacionamento, o gay tem uma dificuldade grande em perceber os outros atributos que garantem qualidade na relação, principalmente nas questões relacionadas a abrir a intimidade que, definitivamente, nutre a própria relação. Mulheres são muito mais hábeis para isso. Homens, pela própria sociedade brasileira, “não precisa de intimidade”.

Querido Klecius Borges, adorei seus pensamentos. Mas nesse ponto enxergo as coisas dessa maneira.

13 comentários Adicione o seu

  1. De forma bastante resumida, acredito que a monogamia depende quase que exclusivamente da existência de um forte traço conservador na personalidade do indivíduo, seja ele hétero ou gay.

    1. minhavidagay disse:

      Interessante sua afirmação. Mas gostaria que descrevesse um pouco mais. Em que níveis ou situações o conservadorismo segura a monogamia?

      1. Nesta situação específica, indivíduos conservadores são aqueles que conservam a ideia de família como uma valiosa fonte de bem-estar e segurança. Criam uma base sentimental tão forte no início do relacionamento que conseguem facilmente acioná-la quando sentem vontade de trair. Conservadores de verdade querem apenas chegar em casa no final do dia e ter alguém fixo para conversar, abraçar, beijar e fazer sexo quando der vontade. Eles sentem atração por outras pessoas como qualquer poligâmico, mas, como o sentimento pelo parceiro permanece conservado, então ficam só na vontade de trair e são capazes de desabafar tranquilamente para preservar a cumplicidade do relacionamento.

      2. minhavidagay disse:

        Gostei da explicação que me dá um coceirinha para perguntar: você e seu namorado seguem esse modelo?

      3. Sim, seguimos esse modelo. Só não digo que somos integralmente conservadores porque praticamos sexo virtual de vez em quando, rs.

      4. minhavidagay disse:

        Ah, bacana… obrigado pela resposta. Aliás, “Sexo Virtual” é um bom tema para postar por aqui! Vou preparar algo sobre isso. rs

      5. Oba… queremos ler!

  2. Quem disse que os heteros são monogâmicos?????????
    A traição corre solta, casal fiel e momogâmico é só na fachada.
    HOMEM é poligâmico. PONTO.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Marcelo!
      Para você ver que gays e homens heterossexuais têm mais em comum do que se imagina ou gostaria! rs
      Mas eu não diria que todos os homens são poligâmicos nem que a monogamia é fachada. É muita generalização e seria o mesmo que assumir que o lado primal/animal do homem fosse uma verdade absoluta. Acredito que, o que inclusive nos faz homens é a inteligência, a razão e a consciência. Com isso aprendemos a dividir um pouco as coisas, aprendemos conceitos e inclusive o valor de fidelidade que é algo bastante digno como ser humano inclusive.

      De qualquer forma, “polêmica” a sua afirmação! Vamos ver se os usuários também interagem! ;)

    2. Como assim “ponto”? Eu sou o que? Um extraterrestre? Nunca senti necessidade de múltiplos parceiros! E até apoio quem prefere manter relacionamentos abertos desde que seja um acordo do casal. O que eu jamais vou apoiar é a traição. Nunca apoiaria algo feito pelas costas do parceiro. E mais: Poligamia não é exclusividade dos homens não! Existem mulheres que são adeptas.

  3. Darkbringer disse:

    Bem, se fosse assim meu pai machista seria poligâmico. Coisa que ele não é. Realmente, uma afirmação bem polêmica. A monogamia está sim presente no casal formado por ele e sua cônjuge. E o mais interessante é que a fidelidade e o companheirismo deles são um modelo a ser seguido. O problema é o tempo que eles passam juntos: 24 horas por dia. Já percebi que de certa forma isso cansa e não dá abertura para a traição, se ela realmente fosse interesse deles, mas me refiro à traição individual e não aquela consentida, onde o casal pula a cerca sem problema algum. Bem, quando se quer trair, sempre se dá um jeito, mas outro fator importante é a incapacidade de mentir. Um é muito verdadeiro com o outro, e confesso que os dois me admiram por estarem a um bom tempo juntos e até por todas essas qualidades. Nesse casal, definitivamente, a fidelidade existe e não é meramente fachada. O que não me admira é: ele se sobrepõe sobre ela, no que se refere à vontades e desejos. Exemplo bem simples: ele sempre liga o rádio na hora das refeições, e sempre é num programa de futebol que é do interesse dele, não dela. Nas decisões ela já tem certa influência, mas como os dois estão em sintonia, a discordância não faz parte do dicionário deles.

  4. Schwl Weiss disse:

    A monogamia existe sim. Eu não me resumo a uma noite, ou ao vazio de uma escapada com o gatinho que apareceu por aí. Eu acho que cada casal deve saber o que quer, e ser Homem de verdade é ter coragem para poder ser sincero com o parceiro de dizer do que realmente está realmente a fim. O que não falta neste mundo é gente, então, se um cara quer coisas e o outro não, eles devem procurar pessoas que se encaixem melhor. Não acho que ninguém deva mudar sua personalidade pra ficar com namorado.

    Eu acho muito fraco dizer que homem trai apenas por ser homem. Trair na verdade significa ser um covarde e mentir pro parceiro. Mas se tem casais que gostam, e concordaram entre si, o sexo com terceiros não é uma traição. Eu sei que eu sou fiel, e espero o mesmo do parceiro, especialmente por questões de saúde.

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado pelas reflexões, Schwl!

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