Por que gays e homens heterossexuais são tão ligados em sexo?


Todo mundo sabe e ouve-se muito por aí da boca de psicólogos, médicos e sexólogos que o homem, fisiologicamente e biologicamente, tem essa forte libido de natureza meio animal, da procriação e da perpetuação da espécie.

Mas como seres racionais, conscientes da vida em sociedade e conscientes do mundo, que dizem ser as diferenças que nos fazem homem e não animal, o que deve ser considerado além dessa natureza primal?

A verdade, doa a quem doer, por mais que o homem gay tente criar uma imagem mais “evoluída” ou descolada do homem heterossexual é que nascemos e vivemos fortemente as referências dos modelos sociais, da conduta, do comportamento e até mesmo do machismo.

Nesse contexto, o homem independentemente de sua sexualidade – que só vai ter contato com isso a partir da adolescência e nisso já sofreu durante alguns anos influências das referências de pais, parentes e amigos – aprende desde muito pequeno que deve suprimir sentimentos e deve ter determinados comportamentos e posturas apontadas pela educação. Impossível é querer assumir uma realidade totalmente desprendida da sociedade, do convívio de pais, amigos, parentes, e dos modelos dessa grande rede que inevitavelmente nos coloca padrões.

Cobranças, exigências e modelos vêm do pai e vem da mãe a princípio. Da mãe que até pensa em direitos iguais, mas na prática cobra do pai uma “postura de homem” como se o gênero homem precisasse realmente ter uma definição de postura. Do pai que tem um filho homem e que coloca desde muito cedo a questão de “ser macho”, de pegar a mulherada e de curtir a vida, e assim por diante.

Dois exemplos bem óbvios, comuns e que aparentemente são lições “bonitas” no processo de educação de uma criança. Bonitas não são, mas é como o comportamento social geral tendencia.

Homens, gays ou heterossexuais, crescem aprendendo que numa relação afetiva não podem demonstrar muita “fraqueza” ou expor sentimentalidades porque isso é “coisa de mulher”. Sonham com o status de carros porque a potência que esse produto oferece tem ligação direta e psicológica com o desempenho no sexo. E, talvez, a maioria dos gays só se desapegam um pouco da mania por futebol porque o esporte, a arena, remetam ao lado primal do homem. E gay abomina coisas truculentas no geral (embora não deixe de reparar nas coxas dos jogadores de futebol).

E assim, concepções de “ser homem” estão tão comumente arraegadas em gays e homens heterossexuais.

É como ser homem e gostar de sexo – perante essa nossa sociedade – fosse uma relação imexível que descaracterizaria a própria concepção de homem, da potência, da masculinidade. E isso é cobrado por homens e por mulheres também e ensinado desde que uma criança é muito pequena: “meninas devem ser delicadas, meninos não devem chorar se ralam o joelho”.

Digo que isso é um peso bastante grande para um homem carregar e não acho que esse peso faz com que existam mais gays no mundo porque o próprio gay carrega essa carga e, com alguns fatores que confundem mais porque o gay, muitas vezes, se identificam também com a figura feminina. Taí a explicação de tantos gays buscarem “converter” colegas heterossexuais idealizados. Queremos “homens” ao nosso lado e esquecemos que também somos homens porque a “desculpa” é que somos gays!

Em conversa ontem com a “Fer”, parceira do Blog QGSE chegamos a concordar que o homem, seja gay ou heterossexual, usam muitas vezes a desculpa do sexo ou a prática do sexo como modelo masculino justamente porque é formado para suprimir sentimentalidades. Como o homem é educado para não conversar mas agir, ou conversar menos, não sabe por para fora com clareza suas questões e até muitas vezes se engana quando o assunto gira em torno de carências e frustrações próprias, aprende a ser orgulhoso e “firme” mas, como humano, de alguma maneira precisa estravar. Os homens estravasam com amantes, mas cumprindo o papel “bonito” de pai de família e de sucesso na carreira. Estravasam com travestis, em saunas ou com garotos de programa na surdina, mantendo sua identidade masculina no trabalho e na conduta perante o que a sociedade (família, chefes e amigos) define como “menu das coisas de homem”. É aí que a vontade de sexo – válvula de escape – pode se justificar, que não na própria natureza animal do homem, mas no reflexo, como reação prazerosa de uma pressão social destinada ao ser homem.

O heterossexual que tem amantes é igual ao gay enrustido que escapa para uma sauna ou o gay assumido que chifra o namorado na balada. Mudam um pouco os valores morais de acordo com cada ponto de vista, mas o impulso para estravar é o mesmo: a necessidade de liberar no sexo o que ficou acumulado.

O que quero dizer é que o próprio modelo social faz com que o homem, gay ou heterossexual, fareje mais o sexo. Sexo é como um descarrego, um relaxamento, um prazer que compensa a falta de prática em verbalizar, de não conseguir dividir sentimentalidades e uma forma bastante óbvia de auto-afirmação e de diminiur carências, mexendo diretamente na auto-estima, de ser desejado. Em outras palavras, uma boa foda mexe com o ego e ajuda a tirar aquele vazio da noite solitária de domingo. Assim, a partir de segunda poderemos assumir de novo todos os modelos e padrões que a sociedade nos cobra, sendo homens gays ou homens heterossexuais.

Gays e homens heterossexuais são mais parecidos do que, nós gays, gostaríamos ou tentamos diferenciar. Sacar essa semelhança é um bom começo para buscar resoluções próprias.

5 comentários Adicione o seu

  1. Resolvi experimentar o wordpress hoje e acabei de descobrir seu blog. Li alguns posts e gostei bastante. Parabéns pelo conteúdo!!!

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado “Dois”!
      Li rapidamente o seu e promete ser bom.
      Parabéns pelo relacionamento duradouro, que mostra que dois homens podem ser felizes juntos por longo tempo, focando na intimidade e em conquistas a dois, muito além do que parece óbvio.

      Abraço!

  2. Darkbringer disse:

    Bem, achei o post interessante e essa questão dos sentimentos é uma besteira e infelizmente eu aprendi. Queria ter a facilidade de demonstrar os meus sentimentos, mas é como se o que me foi ensinado estivesse enraizado em mim. É difícil, pois por vezes eu queria chorar e chorar, seja por tristeza ou por alegria, mas sou frio. Extremamente frio. Por dentro, a emoção querendo sair. Por fora, uma barreira que a impede. Me parece que preciso reaprender a chorar. Reaprender a me emocionar na frente das pessoas sem vergonha, receio ou preconceito. Emoção é ser humano.

    Agora vou correr para ver Avenida Brasil, novela que faço questão de não perder um capítulo.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Darkbringer!
      Emoção é totalmnte humano e até as novelas tem essa função: aguçar nossas percepções e emoções.
      Uma dica simples que dou é que, de repente, se você quiser se humanizar um pouco mais e entender que a dificuldade de chorar, por exemplo, é um problema, você pode tentar consultar uma terapia. Ajuda bastante! Bastante mesmo.

      Claro que você sente, todo nós sentimos, mas algumas pessoas têm realmente dificuldade de por para fora, principalmente os homens.

      Bem, é isso! ;)

      Abraço!

  3. Darkbringer disse:

    Uma pergunta: agora, como podemos reverter isso? Algo que nos foi ensinado desde pequenos… É difícil, muito difícil.

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