De gay para gay


Pensa e reflita: que gay é você?

Existe uma diversidade dentro da diversidade gay que amplia a nossa realidade para além de nossas convicções. Tudo que acontece em nossas vidas, tudo que somos hoje e seremos amanhã é fruto de nossas experiências, escolhas e a maneira como optamos por enxergar o mundo. Tenho reforçado bastante a consciência que devemos ter de que antes de sexualidades ou gêneros, opções ou orientações, somos seres humanos com desejos, caráter, personalidade, ambições e sonhos. Essas qualidades são iguais para todo mundo e se dermos luz a essa realidade, de que somos uma somatória de coisas e não somente a sexualidade, nos desprendendo do julgamento alheio, as coisas podem ficar mais claras ou simples. As vezes podemos até mesmo esquecer que somos gays.

Esse post serve como uma compilação das principais reflexões apresentadas nos últimos textos, das divergências e concordâncias que existem entre nós, gays.

Monogamia VS. Poligamia

Por um lado, existem homens gays que depositam bastante crédito na poligamia, que o homem no geral é poligâmico, sejam os heterossexuais ou homossexuais. Provavelmente esse gay que não acredita na monogamia tem um histórico de vida, personalidade e experiências que o faz pensar assim. E realmente, se observamos as realidades dos gays “mainstream” que frequentam o meio gls, a grande maioria percebe a realidade dos relacionamentos dessa maneira poli. A permissividade e a promiscuidade é facilmente acessada, passamos a acreditar nesses conceitos de relacionamentos múltiplos passageiros e contabilizamos transas num eterno exercício de autoafirmação.

Por outro lado, o que não aparece ou que aparece menos são os casais que vivem relacionamentos mais íntimos e maduros, que abandonam os modelos e padrões do meio GLS. Pelo MVG, se o leitor fizer uma pesquisa nos comentários dos usuários, perceberão relatos gays de relacionamentos de 3 a 5 anos que obviamente tem seus problemas compartilhados aqui no blog, mas que o tempo de experiência tem um cheiro diferente de poligamia. Como é o caso do usuário “doishomossexuais” que, a que tudo indica, vem pautando na intimidade e na fidelidade um longo tempo de relacionamento, ultrapassando os estereótipos e modelos descrédulos que o poligâmico entende como verdade.

Poligâmicos tendem a rebater a permissividade (ou promiscuidade) alegando que os homens heterossexuais também são assim, promíscuos. E concordo: gays e homens heterossexuais tem mais em comum do que gostaríamos. Por mais que a gente queira se fazer de diferente dos héteros, na estética, no “ar descolado”, em essência temos a mesma voracidade pelo sexo, ou, somos homens condicionados a modelos sociais impostos a milênios.

Monogâmicos tem menos necessidade de se autoafirmar nesse sentido porque, talvez, o ciclo social para quem a gente se autoafirma não existe ou tem menos influência. Afinal, monogâmicos vivem mais o próprio relacionamento, os desafios de convívio entre duas pessoas que nos exige tempo, paciência e muita vontade.

Ambos os modelos têm suas vantagens e desvantagens. Mas, me parece que muitos poligâmicos se sentem um pouco frustrados por não conseguir desenvolver um relacionamentos de mais confiança. “Homem é sacana” é a máxima.

Gay Ativo VS. Gay Passivo

Eis um tema bastante recorrente e a grande maioria dos usuários tem dúvidas sobre esse assunto. No meu ponto de vista, como afirmo nos posts que trato sobre esse tema, atividade e passividade não deixa de ser um reflexo do modelo heterossexual de relacionamento, do homem (“ativo”) e da mulher (“passiva”) na hora do sexo. Por mais que os gays busquem se definir socialmente diferente em “gênero” ou na “sexualidade”, não deixamos de ser homens ou mulheres que, sim, temos casos que transitam nesses dois gêneros, como os transgêneros, travestis e cross-dressers, ou vir de uma “essência de alma trocada” como os transexuais. Mas gays e lésbicas são homens e mulheres respectivamente. E como nos comportar sexualmente? Quais são os modelos? Os modelos vêm do que predomina, da heterossexualidade e de conceitos machistas de sociedade.

Trato essa divisão de homens gays passivos e homens gays ativos como uma submissão ao padrão heterossexual. Homens podem ter prazer anal indiscutivelmente pois a sensibilidade na próstata é fisiológica. Mas aí, entram as questões do psicológico e social,  que nos divide em dois: ativos e passivos / gays homens e gays “mulheres”.

Precisa ser assim? Mediante a sociedade precisamos nos encontrar. Os modelos heterossexuais são como imãs, mas quando o assunto é homem com homem, poderíamos no mínimo tentar pensar um pouco diferente, nos desprender desses padrões e ampliar as possibilidades no próprio relacionamento. Assim evitaríamos situações de dois ativos que se gostam ou dois passivos que se atraem nem tentarem alguma coisa mais séria. Dá para ser ativo ou passivo em momentos diferentes em uma relação.

Eu Masculino VS. Eu Feminino

Homens e mulheres, gays ou heterossexuais, possuem aspectos masculinos e femininos inside. Essas referências que podem ser positivas e negativas e normalmente vem primeiramente de nossos pais e parentes, para depois vir da escola, da relação com professores, amigos e colegas de trabalho nos influenciam. Somos todos um pouco homem e um pouco mulher.

Mas no contexto de sociedade, e na maneira que recebemos as referências, aceitamos ou negamos essas características.

Homens heterossexuias e homens gays nascem e são educados desde muito pequenos que “homem não chora, não expõe fraquezas nem precisa apresentar intimidades em palavras. Homem age”. Assim a sociedade diz, de maneira geral. Homem, gay ou heterossexual, aprende desde sempre que a melhor válvula de escape para problemas, cansaços e baixa autoestima é o sexo. Mulheres aprendem maneiras diferentes de encontrar a autoestima além do sexo. Homens tendem a buscar o sexo para resolver ou esquecer boa parte dos problemas. E isso é igual, na maioria das vezes para qualquer homem, no geral.

Só que existem homens gays e heterossexuais que se permitem transcender um pouco mais esses modelos. São heterossexuais e gays que liberam mais um tipo de lado feminino, o tipo de quem dividem angústias e frustrações com parceiros, conduzem a relação com diálogo, ou conversam mais, antes de agir. Compartilham mais as frustrações, as fantasias e as expectativas antes de, por exemplo, trair. Humanizam a relação a ponto de aceitar com naturalidade os detalhes das vivências do cotidiano, os defeitos e as não-virtudes. Diferente do que o homem gay costuma vender na sociedade: a beleza estética, a imponência, a riqueza, a saúde e o “pavão atrás do sexo” que não têm chulé, não têm necessidades, nem fraqueza. Ou seja, desumano.

Os homens gays que chegam nesse nível de intimidade tendem a ter relacionamentos mais consistentes e autênticos, relacionamentos que não morrem depois que o fervor da paixão e sexo acaba. São homens que se permitem humanizar perante ao outro, tirando a imagem vendida socialmente, e trocando a roupa de marca por a camiseta velha do fundo da gaveta. Não só troca de roupa como também, se tem algum problema na relação, sabe discutir. Sabe deixar exercer esse seu lado feminino.

O homem gay ou heterossexual que “odeia” DR, na realidade, odeia se relacionar porque discussões fazem parte de um relacionamento. Vai preferir provavelmente uma relação do “fale menos e haja mais. Na cama”.

——————

Queridos leitores, esses foram os temas apresentados nos últimos posts. O exercício do MVG continua a ser uma tradução das experiências da minha vida em conceitos que possam ajudar a abrir um pouco mais a mente ou esclarecer sobre os pontos que todos os dias nos angustiam. São referências de como enxergo o mundo.

Somos seres sociais, vivemos em sociedade e dependemos dela, inclusive, para estabelecermos uma constante de felicidade. Muitas vezes as amizades gays suprem, mas outras vezes nos acomodam, justamente pela nossas inseguranças relacionadas a investidas em histórias afetivas. Inseguranças que vêm, normalmente, porque nos calcificamos em modelos estabelecidos, verdades universais que viram desculpa do tipo “homem não presta” e esquecemos, inclusive que, antes de sermos gays somos também homens.

Gays e heterossexuais, no final, são semelhantes em virtudes e defeitos, mais do que paramos para imaginar.

19 comentários Adicione o seu

  1. Nick disse:

    Também acho que homens gays e hetero tem mais características parecidas, que diferenças. Foi feita uma pesquisa que constatou que homens ht e gays se excitam eroticamente mais visualmente, diferente da mulher que usa outras percepções, e etc. Muitos comportamentos claro que são baseados em modelos já existentes, como o de que o homem não pode chorar. Mas eu acho que em relação ao sexo, até biologicamente o homem procura mais quantidade, não que não existam mulheres assim. E acho que isso não é por causa de um modelo. Homens são naturalmente mais predispostos ao sexo. Mas isso também envolve idade tb,. Veja vc msm que já teve um período de mais “liberdade” sexualmente e depois se acalmou.

    1. minhavidagay disse:

      Legal seu ponto de vista, Nick! Concordo com você, embora muitos gays da minha idade ou mais velhos continuam com a “piriquita acesa” e se o fogo abaixa ficam morrendo de medo! rs.
      Benvindo ao blog com seu primeiro comentário. Espero que participe e colabore com seus pontos de vista sempre que puder ou quiser.

      Abraço!

  2. Adorei o post (pra variar né? rs) e aproveitando a sua citação, quero dizer que amanhã, 07 de junho de 2012, iremos comemorar 5 anos de casamento e estamos bastante felizes. Sabemos que, por diversos motivos, infelizmente é muito raro dois homens que se amam ter coragem de procurar um cartório para assinar uma Escritura Pública de União Homoafetiva como fizemos em 2010 (um estava com 25 e o outro com 27 anos). Também é muito raro um gay ter coragem de solicitar ao chefe a inclusão de seu parceiro no plano saúde, como fizemos ano passado. Somos um casal que, sem assumir verbalmente a nossa orientação à sociedade, decidimos viver não simplesmente como gays, mas como dois HOMENS que se amam e que se encontraram para somar, multiplicar e principalmente dividir todos os momentos possíveis nesta vida. E muito amor, união e prosperidade é o que desejamos a esse meio tão carente de atenção e (auto)respeito!
    Obs: A comemoração do nosso aniversário de casamento será amanhã às 20 horas, ok? Estão todos convidados! rs

    1. minhavidagay disse:

      VAMOAE GAYLERAAA! Todo mundo junto na balada dos “dois”! rs rs
      Meus sinceros parabéns pelos 5 anos de fidelidade e bigamia, contrariando a imagem comum de que gay só curte pegação, relações superficiais e sexo sem compromisso!
      Baita aula de troca de intimidade e objetivos em comum, não, “Dois”?
      Legal também pela opção da união homoafetiva, pela coragem de pedir a inclusão para os chefes e pelo exercício de cidadania.

      O meio gay precisa um pouco mais dessas referências. Está aí um relato verdadeiro e autêntico de que homens não são sempre promíscuos e poligâmicos. Temos desejos sim, fantasias e uma tendência a ser mais ligados em sexo.

      Parabéns pelo esforço, conquistas e crescimento aos dois.

      Na vida não existe verdades universais. Mas são verdades absolutas quando acreditamos.

      Abraço!

      1. “todo mundo junto na balada dos dois!” kkkkk
        Muito obrigado pelas palavras, MVG!
        Acredito que esse blog também tem um papel muito importante na luta contra a ignorância. Parabéns e um grande abraço!!!

      2. minhavidagay disse:

        Obrigado, querido “dois” e boa festa! ;)

  3. Sammy disse:

    Tenho 25 anos, só agora estou me descobrindo gay e seu blog com certeza está me ajudando nesse processo todo. Depois quero escrever um e-mail com mais calma, mas, sabe, eu sou do tipo totalmente careta que acredita numa relação humanizada, íntima e monogâmica entre dois homens. O problema é que é tão difícil achar alguém que pense assim ou pelo menos aceite que eu pense assim… Talvez pela minha criação meio rígida, eu não aprendi que a melhor válvula de escape é o sexo e até hoje nunca encarei dessa forma. E, claro, como já dá pra imaginar, por causa disso eu sou do tipo que se apaixona e sofre. Sofro por causa de gente que faz sexo e depois não me liga, sofro por causa de gente que simplesmente começa a me ignorar… Mas eu sou assim e não pretendo mudar. Eu até acredito (ou é utopia minha?) que existam outras pessoas que pensem como eu. O único problema é que não sei onde estão… Na balada é que não é, nem nos chats por aí… Enfim, é complicado =/

    1. minhavidagay disse:

      Oi Sammy!
      Tudo bem?

      Pode crer que você não é o único que pensa assim rs. Sei que é um pouco difícil encontrar pessoas que estejam numa sintonia como a nossa, principalmente aqueles que já entraram no mundo gay e se desiliduram pouco com as coisas que se vê por aí. Mas eu sugeriria que você continue persistindo com seus ideais, a exemplo de alguns relatos e casos que a gente vê comentados por aqui, pela minha experiência e pelo acredito possível.

      Se eu tivesse o segredo de onde as pessaos que pensam como você já teria montado um novo negócio rs rs.

      Tradição, conservadorismo, criação rígida, não importa muito o rótulo. Importante que você tem seus valores e sentimentos. Persevere com seus ideais que vale a pena.

      E benvindo ao blog! Espero que continue participando, deixando seus relatos e seus pensamentos sobre os temas.

      Abraço!

    2. Sammy, com certeza também existem outros gays que sofrem as mesmas coisas que vc está sofrendo, que eu sofri e que meu companheiro também sofreu, rs. Por causa do nosso sentimento e respeito pelo próximo, temos um trabalho extra de viver sempre nos procurando por aí. Dos três relacionamentos que tive, dois foram muito valiosos e eu os encontrei em salas de bate papo. Geralmente conversávamos uns três meses no msn até acontecer o encontro real. Precisamos acreditar sempre! Boa sorte pra vc!!!

      1. Sammy disse:

        Obrigado!!! Dá um ânimo saber que ainda há esperança! rs

  4. Darkbringer disse:

    Por isso que eu digo com orgulho: sou versátil! Sou flex!

    Gostei do post. O MVG é como uma Parada Gay para mim. Me faz feliz. (apesar de que nunca presenciei uma parada gay). Claro que comparar os dois é algo meio… Louco. O bom do MVG é que é um blog discreto e não escandaloso como a Parada Gay. E me entristece ver o quanto a sociedade é limitada, principalmente nas camadas mais humildes da população, onde, na minha concepção, o acesso à informação é mais difícil. Seria muito mais fácil se todas as pessoas do mundo pudessem se entender (#Narutofeelings).

    1. minhavidagay disse:

      Acho que estamos a caminho desse entendimento. Pensar que o Brasil tem um pouco mais de 500 anos (criança) e já chegamos onde estamos. País grande, diverso geograficamente e culturalmente. Muitas linguas, muitas cores, muitas formas. Lindo pela diversidade e também difícil pela diversidade, sem um senso de nação, de um olhar mais focado. Muitos focos, muitas vontades, muitos interesses em níveis diferentes.

      Mas calma Drakbringer! Tudo vai dar certo! ;)

    2. Até hoje eu não sei como demorei tanto para descobrir o poder terapêutico e interativo dos blogs. E até hoje não sei como demorei tanto para descobrir a existência de blogs gays tão interessantes como este!

      1. minhavidagay disse:

        Obrigado “dois”!
        Fico feliz pela apreciaçnao ew interatividade. Continue participando com seus relatos e pensamentos.
        Abraço! :)

  5. Darkbringer disse:

    Bem, sinto muito pela duplicata de comentários que estou fazendo agora, mas me sinto no dever de parabenizar o “Dois” pelo aniversário de casamento. Se tem uma coisa que acho muito bonita é justamente o casamento. Para mim, todas as pessoas deveriam casar. E sonho com o dia que poderei dizer: “Eu sou casado. Eu sou feliz.” Claro que isso também vai depender do meu parceiro, que mora no futuro. E eu espero que nesse futuro eu possa sentir a emoção de um casamento. De uma vida a dois. Não nasci para curtição. Nasci para amar. E que assim seja!

  6. Obrigado por nos parabenizar, Darkbringer!
    Nós sempre ficamos muito felizes quando sabemos da existência de mais gays que pensam de forma estável também. E o nosso maior sonho é ver os gays cada dia mais seguros e corajosos, pois acreditamos que só ama de verdade quem tem coragem.
    Desejamos muitas felicidades a você e saiba que as coisas acontecem sempre como deveriam acontecer e no momento certo, ok?
    Um grande abraço!

  7. João Vitor disse:

    Perfeito, é exatamente como acho que certas pessoas se prendem a rótulos, sabendo que pode aproveitar muito mais se libertando disso.

  8. Eduardo disse:

    Encontrei seu blog esses dias para trás … Realmente fantástico. Infelizmente, nossa sociedade cobra os famosos e temíveis rótulos … Para quê? Sempre que conto a alguém, já vem os rótulos: “ativo ou passivo?” ou senão acham que vivo apenas de curtição. Hoje em dia, a pegação se tornou muito mais importante do que o conhecimento do parceiro, tornando muitas vezes, sensações como passageiras. Mas ainda acredito em relacionamentos sérios …

    1. minhavidagay disse:

      E continue acreditando!

      As pessoas no geral, as novas gerações estão meio “perdidas” quando o assunto é relacionamento sério. Falta coragem e um certo jeito.

      Os jovens no geral estão sempre esperando que o outro tome uma atitude. As pessoas querem se envolver mas querem também um tipo de garantia.

      A verdade é que a “garantia soy jo”. Acho importante as pessoas agirem mais, com menos inseguranças, se a ideia é um relacionamento sério!

      Abraço e não desista! :)

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