Projeções cinematográficas do homem heterossexual


Muito recorrente é o gay que se envolve por um hétero ou tem a mania de querer converter um amigo “ht”. Não raro encontrar casos de casais gays quando um deles vive um tipo de vida dupla, é “hétero” para a sociedade e reserva um relacionamento com um homem em quatro paredes.

E por que será que esses casos de gays envolvidos por heterossexuais ou pela imagem do homem hétero é bastante comum no meio gay?

A explicação é bastante óbvia, embora muitos possam negar: homens gays projetam em heterossexuais a imagem da masculinidade, do “ser homem”, num tipo de negação própria na qual gay quer homem e não quer outro gay. Acontece só que a gente esquece que homem gay também é homem.

Tem gente que passa meses ou até mesmo anos vivendo essa projeção e expectativa. Alguns adolescentes, muito mais justificável por ser adolescentes, criam um tipo de amor platônico em que o desejado nem faz ideia do envolvimento. Outros jovens, pós-adolescentes e adultos continuam a projetar na figura masculina do homem heterossexual um desejo, uma vontade.

Tudo isso acontece porque, primeiro, o homem gay faz uma referência feminina num relacionamento e espera do companheiro a masculinidade traduzida em características, comportamentos e atitudes que vão desde a forma masculinizada de falar, gesticular, do tom de voz grave, da força física até a sua postura perante pessoas, o tratamento, as reações e o jeito de pensar. E esse homem para os gays tem nome: bofe, visto como pejorativo para alguns e idealizado por outros, eis o termo mais comum para caracterizar o homem aguardado por muitos gays.

Mas é curioso que essa idealização do homem pelo gay é bastante subjetivo e particular porque, de fato, somos todos homens! Claro que algumas características de “bofe” são de consenso como a ausência de trejeitos, altura e músculos, que nada mais é do que o esteriótipo, o óbvio da aparência do príncipe. Fora isso, a idealização do homem hétero acaba sendo bastante particular e subjetiva e sempre ou quase sempre esses ideais vem do repertório de vida de cada um, daquilo que cada um absorveu como “características almejadas no homem”.

Alguma atitude como o cavalheirismo, ou a pegada, uma ação protetora, ou a maneira de agir ou reagir diante determinada situação traz de nosso imaginário a sensação de masculinidade. Mas, de fato, nem sempre é de masculinidade mas é como a classificamos porque achamos que é.

Entendo essas projeções como processos comportamentais dos gays que tendem a evoluir com o tempo, quem sabe daqui a 500 anos! Acho que gays que se submetem a esses modelos e passam meses ou anos “amarrados” a um heterossexual tendem a formar uma imagem bastante negativa ou desiludida de relacionamento ou até mesmo do que é ser homem. Ficam buscando sempre encontrar algum indício em outros héteros, daquele pequeno escorregão que o caracterizaria como gay. E para mim, particularmente, é um modelo bastante cansativo, que não leva a nada, com tanto gay solteiro nesse mundo!

Por outro lado, o gay faz essa projeção por negar suas próprias características masculinas que, na sua formação, tomou como algo ruim ou negativo. Esse seria um ponto bastante certeiro para tentar “ajustar” numa terapia, por exemplo, para que rompesse com o modelo de caça-hétero.

Vendo muitos gays assim, e me colocando na situação, fico com bastante receio de seguir nesse modus operandi que só nos oferece migalhas, nada concreto ou indefinidamente realizado. Embora muitos gays fiquem anestesiados nisso, eu tiraria meu cavalo dessa chuva fácil, fácil. Talvez pelo fato das minhas referências, formação, repertório, educação e genética terem me proporcionado um interesse por relações mais contínuas e frequentes com homens gays, mais afeminados e mais masculinizados, sem idealizar o que não é possível ou o que é possível só em fragmentos. Definitivamente sou alguém que gosta de algo concreto quando o assunto é relacionamento.

Uma dica que dou para qualquer um que vive esse modelo: saiam dessa o quanto antes ou corram o risco de se tornarem descrédulos dos próprios homens, fazendo a linha “não acredito mais e nem confio” mas no fundo esperando o eterno príncipe encantado que, detalhe, não virá jamais.

As vezes leva-se a vida inteira para perceber que esse homem está dentro de cada um e não em projeções cinematográficas.

1 comentário Adicione o seu

  1. Darkbringer disse:

    eu me identifiquei com o post e posso dizer que isso acontece comigo, mas não fico sofrendo porque sei que nunca vai rolar e que não vale a pena. Então, vivo minha vida sem me preocupar com isso. Se eu pudesse, ficaria com vários héteros que já admirei. Mas sei que não vale a pena. Vou logo para o que realmente importa: um gay de verdade. Um homem que possa me proporcionar aquilo que eu quero. Um homem que me ame. Que me dê carinho. Aquele carinho especial, diferente do carinho de mãe, aquele que só o amor pode proporcionar. E eu não quero viver um futuro solitário. De solitária já basta a adolescência. Estou um pouco desiludido com esse fato, pois sei que um gay da minha idade não vai bater na minha porta. Procurar também é difícil, principalmente porque eu sou menor de idade. Existem limitações. Devo satisfações aos meus pais, sendo que meu pai nem imagina que eu sou gay. Sorte a minha de ter me assumido cedo para minha mãe. Um grande passo já foi dado. Mesmo assim, ainda falta muito. O jeito é olhar para frente e rezar para encontrar alguém. Nem que seja daqui a 3, 4, 5 anos. Mas que encontre. E que não seja apenas “pegar, ficar e largar.”

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