Quando o gay tem mais naturalidade em ser gay


Em um ano recebendo relatos gays por e-mail e lendo depoimentos pelo Blog pude me aproximar mais do público gay de uma maneira diferente, bastante diferente de quando nos aproximamos de pessoas nos guetos gays, nas baladas, bares e afins. Percebo diversas situações de vida, as diferenças das gerações e os casos dos gays enrustidos, dos indefinidos, dos gays que vivem relacionamentos longos e passam por alguns problemas, dos relacionamentos resolvidos, do gay solteiro “inato”, do heterossexual que é pressionado para ser gay e de gays que “acidentalmente” caem no MVG com outros interesses e acabam voltando pelo tipo de assunto e valores que aqui são referenciados.

O Blog MVG é um exemplo de que homossexualidade pode ser levado mais a sério sem ficar propriamente chato. Sem ter que me esforçar para ser “divertido” e acabar me descaracterizando.

Nessa trajetória curta de 12 meses, algo bastante interessante me chamou a atenção: existe uma diferença bastante evidente dos gays que passaram dos 35 anos para os gays que hoje tem 14. A diferença fica óbvia quando citamos a subjetividade das gerações; quem tem 35 ou 40 anos vivia um “outro tempo” em relação a quem tem 14 hoje.

Mas o que é esse “outro tempo”? Qual a realidade do gay que nasceu em 1998 para o gay nascido em 1975?

A educação transmitida hoje é mais pautada no respeito à diversidade e a tolerância ou permissão. Não há como negar que a sociedade está mais flexível. Certa vez, um menino de 14 anos me enviou um e-mail narrando sua paixão platônica por outro menino da escola. Contava sobre seu encantamento e envolvimento com toda naturalidade possível de alguém que está apaixonado por outra pessoa sem colocar a sua sexualidade como um inconveniente. O relato se resumia nas inseguranças e aflições de alguém que tem vergonha ou timidez, que sente a trivial insegurança da exposição e nada mais.

Noto que a recém criada e reestruturada Comunidade Gay do MVG no Facebook trouxe como primeiros participantes, jovens abaixo dos 20 anos! Essa facilidade, agilidade e segurança de lidar com as redes sociais funcionam assim para quem nasceu nesse contexto da ávida Internet. Quem viu a transição e não nasceu inserido nessa rede tem lá suas dificuldades, restrições e incertezas quanto a exposicão em mídias sociais, quanto ao apoderamento do Google, entre outras questões de ausência de privacidade (rs).

Eu mesmo cometi um leve equívoco e comecei na sexta-feira passada uma Fanpage que teve um resultado pífio com uma página para curtir. Aconselhado pelo usuário “Bruno” mudei para uma página de perfil, executei todas as configurações para deixar a comunidade reservada para os participantes e, nisso, em algumas horas a “Turma MVG” conquistou 5 integrantes!

[Detalhe para o nome da comunidade: não sei se “Turma” é o termo que mais me agrada. Mas como bem sabemos (ou não), criar um nome de perfil no Facebook está cheio de restrições. O Mark Zuckerberg faz assim justamente para que comunidades, empresas e negócios criem fanpages e não perfis de usuários. Então, “Turma” foi a palavra mais próxima que o sistema aceitou por “acreditar” ser um nome.]

Acredito que essa facilidade, desenvoltura e naturalidade dos gays muito jovens, que se revelam por aí, são referências bastante positivas para os “maduros”, acima dos 28 anos. Pessoas de 27 ou 28 anos para frente acreditam menos na virtualidade, se sentem mais inseguros temendo uma exposição, que na verdade nada mais é que falta de afinidade e conhecimento.

Deixar de acreditar nessas novas dinâmicas de relacionamento é também nos restringir um pouco mais. Trabalho na área, que me faz ficar antenado nessas questões, mas tenho amigos – por exemplo – que pouco usam e-mail.

Tenho percebido que o acesso a Internet, como comentado em alguns posts, traz para todos muita tranqueira, lixo virtual e quinquilharias. Mas se procurado com foco traz facilmente o conhecimento, referências positivas, conceitos e traz o próprio acesso a pessoas e as realidades que, embora virtuais, são extensões de realidades offline. Realidades sociológicas, antropológicas e comportamentais, nesse estilo MVG de “filosofia de botequim” (rs) mas que ao que me parece, cumpre uma função.

Nesse contexto, incluo totalmente a nossa realidade homossexual: ser gay hoje em dia está mais simples. Mas é claro que a nossa cabeça e nosso contexto familiar podem desfavorecer esse cenário favorecendo as nossas complexidades.

Sinto que o jovem gay cada vez coloca menos a sexualidade como questão, o que me leva a crer que a bissexualidade, como já teorizei, pode virar uma realidade processual, do jovem que está se descobrindo e que não tem barreiras em transitar entre os gêneros.

Claro que existem educações diferentes, “fora do tempo”, assim como o estagiário da minha empresa que tem 18 anos e gosta de Chico Buarque e Elis Regina. Para mim, muito prazeroso poder trocar uma ideia com ele sobre esses figurões que estão inclusive alguns anos além da minha geração. Não sei como pensam seus pais sobre a homossexualidade, mas da parte dele, foi uma das poucas pessoas que me assumi e não me questionou: “Mas como é? Você é ativo ou passivo?”, coisa que ouvia demais das pessoas da minha geração.

No geral, os jovens de hoje antenados nas coisas novas estão muito mais desapegados às questões morais, religiosas ou preconceituosas que acabam nos colocando em caixinhas. O lema “seja o que for” me parece menos apreendido e mais inato.

Posso estar equivocado ou falando de uma parcela de pessoas que não retrata o geral. Mas algo não sai da minha cabeça, e cada vez mais: as nossas questões e dificuldades, por ser gay ou por outras coisas, moram mais dentro da gente do que do lado de fora.

Afinal de contas, que tamanho damos aos nossos monstros?

2 comentários Adicione o seu

  1. Dark disse:

    Mais um post excepcional. Estou gostando das matérias que estão sendo postadas no Turma MVG, são todas muito interessantes. Sem puxar-saco, mas já puxando, o MVG e o QGSE são melhores que qualquer “Wikipédia” por aí. Aproveitando a oportunidade, queria parabenizar pelo Turma MVG, a ideia foi muito boa e espero ótimos resultados por lá! Nada melhor que a interatividade do blog combinada com o Facebook, que é a minha rede social predileta.

    1. minhavidagay disse:

      Bacana Darkbringer-Dark!
      Fico feliz pela receptividade e apreciação. Acho muito bacana tudo que está fluindo por aqui, por lá e pela recém-nascida “Turma MVG”, nossa comunidade no Face. Vamos ver se fluirá com qualidade sem se perder. :)
      Valeu pela presença e pelos comentários.

      Abs!

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