Gays e Trans-Homens: normalidade, identidade ou naturalidade?

Recentemente no Blog QGSE, que compartilho reflexões e pensamentos com uma amiga lésbica, fizemos uma crítica sobre a entrevista de João W. Nery no “De Frente com Gabi”, mulher que se transformou em homem – Trans-Homem – e que a há 30 anos vive essa identidade.

A entrevista é muito interessante e nos impulsionou a trazer algumas reflexões sobre sexualidade, gêneros, sociedade, comportamento e humanidade. Transcrevo aqui meus comentários que achei que ficou bastante pertinente ao Blog MVG e deixo aqui o vídeo para que os leitores reflitam um pouco mais sobre os valores sociais, o que nos é base até hoje e quais são os novos conceitos que podem se revelar numa sociedade mais amadurecida.

Abstração e Transcender

Normalidade ou identidade. Prefiro dizer naturalidade. O vídeo que a querida Ela fez a crítica, dos 30 anos como trans-homem (ex mulher que virou homem) de João W. Nery mostra que os conceitos sociais de gênero (masculino e feminino) e sexo (homem e mulher) são formados pelas bases da heterossexualidade. Valores seculares que estão mudando a medida que nos desprendemos de modos tradicionais, morais e religiosos que não mais se aplicam à vida contemporânea, do hoje. Diga-se “vida contemporânea” aquela que possibilita a difusão da informação, de um reconhecimento plural da humanidade e que retoma ou enxerga pela primeira vez o ser humano acima de classificações antiquadas que a própria sociedade formou.

Os seres humanos pela necessidade de sobrevivência aprendeu em tempos remotos que o convívio social, em grupos, o tornariam mais hábeis e aumentariam as chances da sobreviência contra os inimigos naturais e outros grupos rivais que disputavam pela sobrevivência ou valores de poder. Só que com essa aglutinação, para criarem regras e condutas entre os próprios indivíduos, foram definidos valores, conceitos, políticas, hábitos, modos e cultura para que a própria sociedade se concebesse e se preservasse no próprio estado de sociedade. Nesse processo, na questão de sexualidade, a heterossexualidade que parecia garantir uma segurança em um mundo de muitos rivais numa luta constante pela sobrevivência, possibilitaria a perpetuação da própria sociedade. Nada mais natural e óbvio num cenário de desespero para sobreviver.

Esse modelos tiveram poucas variações e definitivamente se perpetuou por gerações e milênios. O que acontece é que nessa sociedade contemporânea o sentido visceral de sobrevivência está cada vez mais distante. Pois bem, se é assim, o que de fato as outras sexualidades que não a heterossexualidade podem causar à sociedade, mesmo que ela ainda preserve a necessidade de sobreviência e poder? Com a clareza e informação que temos hoje, vindas da ciência, da sociologia e das próprias relações diárias de um indivíduo perante seu próprio grupo íntimo, sexualidade diferente da heterossexualidade reprodutória não quer mais dizer enfraquecimento ou, muito pelo contrário, a compreensão e a inclusão da diversidade numa sociedade contemporânea representa mais força. Principalmente nessa sociedade globalizada com tanta gente!

Abstraindo: essa coisa da preservação da espécie, ou da própria sociedade, me cheira forte o cheiro de grupos construídos por traumas de perdas, de entes, filhos e amigos que morriam inicialmente nos processos naturais, nas bocas de predadores e depois nas mãos de rivais até bem recentemente. Em outras palavras, o trauma ou o medo da desgraça era forte e movia a própria sociedade a se formar. Hoje não precisamos nos pautar mais nesses medos para nos entender em sociedade.

Utopia? Talvez, mas uma maneira bem resumida de alguns por quês das coisas serem o que ainda são hoje.

Pouco se pára para pensar do por quê de seguirmos modelos, métodos e regras e essa inércia acontece diariamente em nosso universo íntimo, nas famílias e no cotidiano. Por que afinal de contas uma mulher precisa casar de vestido branco na igreja, perante um padre idolatrando o altar sendo que muitas delas nem são mais efetivamente católicas? [Valorização do clássico]. Por que temos que louvar por um Jesus iluminadamente branco, de olhos claros, aloirado digno de um top model das passarelas do SPFW, cuja imagem idolatrada se formou pelo Renascimento? [Alienação pelo poder do belo]. Por que temos que acreditar no Papai Noel de roupas vermelhas, que nos visita todos os finais de ano, que em sua origem vestia-se de azul e foi a Coca-Cola que o tingiu de vermelho para associá-lo a marca? [Consentimento da manipulação].

Eis alguns hábitos culturais, dentre muitos outros que raramente paramos para pensar, que herdamos a milênios dessa sociedade que precisava se fortalecer. E nesse fluxo, de Jesus top model, noivas não católicas mas dentro de vestidos brancos e papai noel azul, levanto a questão: por que tão e somente a heterossexualidade? Para nos manter numa condição de procriação e perpetuação da espécie em situações constantes de ameaças? Para nos proteger do medo da perda, da desgraça e da diluição da força da coletividade?

Gente, esses valores se foram a milênios! Mas teimosos, tapados ou conformados com a sociedade da inércia seguimos. Ser gay, trans e bi exige um espírito crítico talvez maior do que aqueles que cumprem o menu social. Nos cobramos mais (ou é isso que se espera) para compreender os por quês de estarmos fora das “regras” e entender para onde devemos ir se é nosso interesse fazer parte das regras.

Muito do que estabelecemos a séculos atrás ainda são alicerces para hoje. Mas será que precisa? Creio que não. Podemos até devanear, afirmando que a sociedade atual é tão predatória como foi no passado. Mas não é bem assim. Não precisamos caçar com machadinha e defender o quadrado na base da porrada porque o vizinho pode roubar a plantação de cenoura! Pelo menos não deve ser assim nos países ou microcosmos mais evoluídos. Fora disso é estagnação, que também é uma condição humana.

Me parece que vivemos num universo muito mais apto a oferecer do que tomar posse, mas a tendência é querer enxergar o lado vazio do copo. Antigamente, as pessoas se apossavam dos terrenos para construir feudos. Apossavam na base do facão. Matavam “bruxas” porque desenvolviam remédios fitoterápicos e homeopáticos.

No tempo do meu pai, compravam terrenos como investimento e um tipo de garantia de status ou garantia para a velhice. No meu tempo e um pouco mais recentemente, o jovem anda pensando diferente. O jovem tem serviços a sua disposição de pousadas, hotéis e resorts. Os jovens coletivizam aluguéis de apartamentos e quiçá, muito em breve no Brasil, comprem juntos formando famílias de amigos e não famílias heterossexualizadas no modelo “propaganda de margarina”.

O mundo está mudando ou pelo menos busco viver essa parcela da mudança que não são poucos e não são somente gays, lésbicas e trans. Gosto da parcela desapegada que se enobrece em contraponto ao modelo de riqueza que definha. Obviamente o mundo é vasto e tem espaço para todos os jeitos. Eis o olhar: todos os jeitos que não quer dizer anarquia nem jogar todos os séculos de formação de sociedade fora.

Nesse fluxo de abstração, reflexões e pensamentos, primeiro vêm o “olhar mais natural” aos/às gays e depois aos trans. Não porque gays, como eu, são mais privilegiados. Mas porque numa escala de choque social, estético, ético, que inclusive inclui a transformação das próprias genitálias, o trans precisa martelar mais nessa sociedade da inércia (que odeia sair do tradicional) para a conquista de inclusão. Mudar os movimentos para o que aparentemente já funciona a milênios sempre vai dar mais trabalho. O que funciona há tanto tempo acomoda e exige muita clareza e disposição para mexer. É o mesmo que a lógica do novo ser mais capaz de mudar que o velho. Mas posso dizer que se existe necessidade todos mudam.

Continuo otimista acreditando que o antigo seremos nós, gays e trans. Em outras palavras, um dia seremos os contrários as novas ondas evolutivas porque deu tanto trabalho para ser assim. É tão seguro estar assim, por que temos que mexer? Achar que nos resumimos ao que somos, sem aceitar o que vier de novo, é o passo para aceitar a nossa própria condição de inércia.

3 comentários Adicione o seu

  1. Que post rico! Adorei as reflexões!!!

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado, Dois! :D

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