Como se caracteriza um gay bem resolvido?


Melhor do que dizer um “homem gay bem resolvido”, prefiro conceituar como um indivíduo bem ou mal resolvido.

Ser bem resolvido está somente relacionado a aceitação ou condição sexual? Não necessariamente. Faria uma comparação com uma pizza. Ao todo e normalmente uma pizza inteira é formada por oito pedaços. Imagine que a pizza inteira é você na totalidade e cada pedaço é um aspecto fundamental da sua vida. Diga-se fundamental porque cada parte é base para a nossa própria felicidade. A existência da harmonia, do equilíbrio e da aceitação das condições de cada fatia nos tornam pessoas bem resolvidas.

Neste momento você é uma pizza!
Neste momento você é uma pizza!

Nessa comparação com “fatias”, vamos por partes:

A sexualidade

Sexualidade é uma das questões evidenciadas pelos gays e a razão é bastante óbvia: ser gay, no geral, não é visto com tanta naturalidade pela sociedade, ao contrário da heterossexualidade que é a regra. Nos sentimos “a bolacha fora do pacote”, ou “o patinho feio” ou a “ovelha negra” diante um rebanho inteiro de ovelhas branquinhas. Ser diferente pode ser ruim para quem é e estranho para quem vê de fora. Um gay sexualmente bem resolvido é aquele que aceita sua condição sem dúvidas. É aquele que não tem a necessidade de se auto-afirmar demais, muitas vezes virando um personagem de si mesmo, nem reprimir demais, deixando os desejos borbulhando por dentro. O equilíbrio está aí: um gay sexualmente bem resolvido é aquele que é gay mas não coloca isso como uma diferenciação nem como motivo de auto-flagelação. Normalmente um gay que se reprime demais tende a “odiar” o gay que se personifica e vice-versa, como se fossem espelhos quebrados um ao outro. Até natural essa relação já que o gay reprimido tende a querer perder um pouco do controle como é notado no gay exposto. E o gay-personagem gostaria de se livrar, as vezes, do modelo esteriotipado de si mesmo, ser mais “normal”, com mais controle.

A tendência é que um gay bem resolvido não se incomode tanto nem com um, nem com o outro. O resolvido pode conviver bem com ambos colocando os devidos limites, não sofrendo influências das angústias daqueles que se reprimem, nem se incomodando com os excessos daqueles que muito se auto-afirmam.

A relação com pais e irmãos

Eis uma “fatia” tão importante senão mais importante do que a própria sexualidade. A harmonia entre pais e irmãos acaba sendo necessária para qualquer indivíduo. Bem ou mal, certo ou errado, família é base para qualquer um e não existe um vínculo direto com a sexualidade. O querer bem entre pais e filhos, e irmãos, o aconchego, o porto seguro se não existe ou é ausente acaba dificultando bastante os processos de “adultificação” das pessoas. O bem estar e o equilíbrio, com afeto e amor na família é importante para todos!

A verdade de nossa sexualidade as vezes pode agir diretamente no balanço entre os familiares. Mas família que ama não se perde de vez com isso. Temos que acreditar mais no amor resistente de nossos pais e irmãos do que no impacto da realidade de nossa sexualidade. O choque tende a ser natural porque todos nós somos formados numa sociedade que exclui qualquer tipo de orientação que não a da heterossexualidade. Normal o revelar trazer ruídos nesse equilíbrio, que tende a voltar a uma estabilidade com o tempo. Tendências, tendências e tendências. O que vale a pena é ter coragem e confiar no próprio amor entre as pessoas da família!

A relação com amores

O mundo gay pode até erguer uma bandeira do individualismo e de relacionamentos voláteis. Mas como seres sociais que somos, buscamos constantemente encontrar uma cara metade. Se somos capazes ou hábeis para tal é um outro assunto refletido em diversos posts por aqui no MVG.

O modelo desse relacionamento afetivo pode ser diferente, ou melhor, como gays podemos criar em cima desse tipo de relação entre um casal. As variações são diversas, desde um relacionamento de casamento, seguindo as tradições sociais e heterossexuais, assim como casais que vivem em casas separadas, casais que abrem a relação as vezes para dar uma “aquecida”, namoros virtuais ou a distância, entre outros.

Podemos até contestar os reais ganhos de relacionamentos que não sigam os modelos mais tradicionais, mas a verdade é que o gay que só vive relacionamento de alguns meses não vive nenhum relacionamento. A resposta é simples para isso: nos tornarmos pessoas experientes subentende-se viver algum tipo de experiência com frequência e profundidade. Isso fica bem claro quando falamos de trabalho pois a relação de experiência com o tempo de dedicação e envolvimento é evidente. Para relacionamento afetivo gay é a mesmíssima coisa. Dedicação, reconhecimento de intimidade e profundidade é o que vai garantir experiência. Só a experiência em relacionamento afetivo é que é capaz de trazer a cada um o contato do ser íntimo e de nos revelar com mais clareza quem somos. Pessoas que não vivem relacionamentos perdem a oportunidade de amar ao próximo e de descobrir a si mesmo. O vazio que dá a ausência de um amor nos tira bastante do equilíbrio, nos inquieta e nos deixa numa eterna sensação de superficialidade.

Inquietação constante é o mesmo que falta de balanço.

A relação profissional

Seres de carne e osso e que precisam viver na sociedade capitalista aprendem que trabalho traz como consequência os ganhos materiais para nos manterem vivos. Gays, particularmente, tendem a gostar de gastar. Mas para poder gastar é fundamental aprender a gerar riqueza.

Muitas vezes optamos por escolhas profissionais sem ouvir direito nosso “eu interior”. Com isso, priorizamos profissões que podem dar aparentemente mais dinheiro ou que os pais idealizaram para a gente. Em outras hipóteses, deixamos de seguir algumas carreiras que no íntimo são as que desejamos com o medo do preconceito: “homem é engenheiro ou advogado. Essa coisa de designer ou arquiteto é coisa de boila!”.

Muitíssimo importante a longo prazo qualquer indivíduo se encontrar na profissão. Se encontrar subentende-se felicidade. E se encontrar, doa a quem doer, é fazer acima de tudo aquilo que se é apaixonado. É fazer aquilo que se gosta e não ter medo de trabalho. Antigamente os homens dividiam o tempo para trabalhar e o tempo para curtir a vida e a família. Hoje em dia, essa cisão é antiquada. Pessoas que descobrem que trabalho também é vida tendem a ser mais realizadas.

Não tem como escapar. Para conseguirmos ter bens materiais é importante trabalhar. E acima de tudo, trabalhar com aquilo que nos realiza pode demorar um tempo para dar frutos mas é definitivo para trazer felicidade.

A relação com amizades

Amigos, amigos e amigos. Muito importante, mas menos na quantidade e muito melhor se tiver intimidade, fidelidade e autenticidade de amizade. Muitos gays tendem a contabilizar amigos para além dos 10 dedos da mão. Muitos outros substituem a carência de um amor inexistente pelos amigos e erguem a bandeira de que amizade é tudo na vida! Mas será que é? Bem, acho que até funciona, mas as vezes a gente se conforma e fica com a “pizza” faltando um pedaço.

Bons amigos, amigos íntimos podem até substituir fragmentos de um relacionamento afetivo. Mas algumas carências não se substituem e é por isso que amizades gays as vezes são tão complicadas. Basta um pouquinho de carência a mais e pronto: de repente estamos apaixonado pelo amigo!

Sou partidário ao esforço de dar sentido real para cada “fatia da pizza”. Amigo bom é autêntico e fiel e é aquele que sabe dividir as coisas. Amigo não é namorado!

Muitos dos meus amigos gays se conformam na própria amizade pela incapacidade de criar um relacionamento afetivo. Tantos auto-afirmam a própria amizade nessa coisa de que “amizade é tudo na vida”! Mas o fato é que amizade não substitui um namorado.

A gente percebe que é um indivíduo bem resolvido quando sente que não precisa auto-afirmar nem sexualidade, família, namorado, profissão ou amizades. Se a gente vangloria muito uma dessas partes ou supervaloriza demais é porque está faltando algum tempero na pizza!

Gays bem resolvidos, ou melhor, indivíduos bem resolvidos não precisam contar vantagem em nenhum aspecto da vida. O silêncio dentro da gente é o sintoma da paz no coração.

Quando estamos de bem com a gente nada do que é externo é mais importante do que a gente mesmo. Paz no coração é o que caracteriza um gay bem resolvido. Paz no coração é o que caracteriza um indivíduo bem resolvido.

4 comentários Adicione o seu

  1. José Lucas Martins disse:

    Você está de parabéns! O texto é ótimo.

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado José Lucas! :)

  2. Sammy disse:

    Esse post é bastante esclarecedor. Eu sempre pensei que ser bem resolvido estava relacionado somente a aceitação da sexualidade, mas realmente tem todos esses aspectos envolvidos. Bom, vi que ainda estou longe de ser bem resolvido nesses termos, mas já estou bem melhor do que quando comecei a frequentar o blog e isso me mostra que é algo que se alcança com o passar do tempo conforme vamos amadurecendo e compreendendo melhor as coisas que aconteceram. Percebi que não adianta eu querer acordar amanhã sendo bem resolvido, mas só de ter aprendido mais essa lição, já me sinto mais próximo da paz de espírito que tanto procuro :)

    1. minhavidagay disse:

      Legal Sammy! E o importante é seguir em frente com consciência! :)

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