Vida gay: apego à estética, síndrome de Peter Pan e derivados!

Voltei a postar no MVG e me percebo muito crítico ao nosso universo gay. Pode ser algo de uma personalidade que está se tornando ranzinza (rs), mas vejo mais como uma maneira de enxergar e buscar uma consciência das coisas que a gente não pára para pensar. Muito é reflexo da minha vida, que ferveu, esfriou, namorou um punhado de vezes, casou, ferveu muito, amornou e adulteceu.

Acho que uma das principais funções do Blog Minha Vida Gay é trazer assuntos, temas e informações que a gente não perde muito tempo para refletir. Buscar por um espírito crítico não é diferente de fazer uma viagem ou sair de férias. São nesses bons momentos que me proporciono a frear a minha inércia, as vezes fundamental para o sustento, as vezes que me tira do balanço.

Relatos, casos e sintomas da vida gay

A cultura brasileira e moderna já tem uma tendência a incentivar uma vida na base das emoções, do tipo de osmose de costumes, do esquecimento de fatos importantes e da alegria sem medida que serve como uma barreira ou bloqueio para evitar se deparar com algumas realidades que podem ser indigestas, sofridas ou que invariavelmente nos tiram do conforto e nos tornam adultos.

Ninguém quer sofrer mas esquecemos que viver os sentimentos dos desafios é uma experiência que nos humaniza, ou melhor, dá a validade para ser humano.

E o gay quer se tornar adulto? Muitos não querem.

Primeiramente cito aqui nossa tendência a nos apegar fortemente à estética, ao vício da academia, de roupas e marca, de lugares que enaltecem a beleza, da segregação de determinadas baladas pelo poder estético e não necessariamente do poder aquisitivo ou do bom gosto, mas dos excessos do culto ao belo tão notório para quem é GL. Querer estar bem e saudável funciona quando é moderado. Mas já ouviram falar no conceito de “escravos da beleza”? Pois bem, alguns homossexuais se engessam tanto em determinados modelos que, se abdicarem de alguma rotina é como se estivessem abrindo espaço para um vazio interior. Vazio tão óbvio para os terapeutas mas tão evitado pelo gay.

Nos tornamos escravos viciados nos padrões instituídos pelo próprio meio. Queremos ser aparentemente e constantemente felizes e esquecemos que para chegar perto disso precisamos superar e resolver as questões que provocam as nossas infelicidades. Dessas, temos aos montes mas não assumimos, não superamos!

Muitos gays acabam priorizando demasiadamente a beleza porque a coisa bonita dá uma falsa impressão de incontestavelmente sadio e sexualmente viril, dá uma impressão do bem resolvido e do harmônico, e esse gay não concede ao seu próprio espaço a afeição por valores de vida, sentindo de companheirismo e parceria, tão claramente pregado enquanto profissionais de empresas, mas tão dificultosamente praticado na vida pessoal. Gays nos geral costumam ser ótimos profissionais ou buscam se auto-afirmar bastante no trabalho!

Nem tão distante assim, para o amigo gay quando definitivamente amigo, esses valores se aplicam com certa facilidade. Mas na hora da entrega para um amor, medimos em primeiríssimo lugar o sexy appeal e em segunda importância o desempenho na cama. E, quase todas as vezes acaba assim, começa e acaba assim no próprio vai e vem do sexo, escravos da estética e dos modelos, pouco hábeis para auto-conceder outros aspectos da vida que normalmente experienciamos quando se convive mais intimimamente com o outro.

Ao mesmo tempo, um temor da velhice ou uma vontade imensa de ser jovem para sempre parece ser a nuvem que escurece ou clareia nosso céu de tempos em tempos. Medo de envelhecer ou disposição para ser jovem, a ordem não altera o resultado: síndrome de Peter Pan em diversos níveis, não muito diferente do cantor Michael Jackson mas que, quando se associa ao gay, a boa desculpa é de “querer viver a vida intensamente”, “ser feliz para sempre”, como se isso fosse algo bonito ou maravilhoso, como robôs ou super-homens que aceitam parcialmente sua humanidade já que tristeza, solidão, desilusão e idade são as partes (negadas) que dignificam a nossa humanidade. Intensidade, intenso, intensamente, três palavras que viram a boa desculpa para a maioria de nossas atitudes “joviais”.

Assim, alguns gays gostam de ser incompletos e acho, sinceramente, que é muito difícil ser feliz vivendo por anos e anos essa vida de apegos a beleza, a contabilidade de picas, a sensação de ser eternamente jovem e se possível com bastante dinheiro na conta.

Hoje em dia não precisamos mais ser diferentes para ser iguais. Me contento e me esforço para ser sem distinção, mas a maioria busca ser sempre algo mais.

2 comentários Adicione o seu

  1. Felipe disse:

    Interessante! Uma análise assertiva e pitoresca do cenário gay brasileiro. Mas cabe uma nota: esse é o mesmo cenário que todos os seres humanos vivem, independentemente de ser homo ou hetero! É na verdade, uma consequência que experimentamos por vivermos o paradigma de liberdade, sem nenhum conhecimento realista de seu preço inevitável.

    1. minhavidagay disse:

      Concordo Felipe!
      Porém, no meio gay essa “ansiedade” por ser jovem eternamente parece se intensificar. No meio heterossexual as mulheres são mais assim. Curioso… mulheres e gays têm essa necessidade de permanecerem jovens. São os casos das “senhoras periguetes” como a Susana Vieira. E não é só uma vontade estética, mas uma realidade do não enfrentamento de questões que possam nos adultificar! Medo! rs

      Acho um pouco esquisito um mundo de adultos infantis. Vale refletir que, em meio à adultos infantis, são os adultos-adultos que possivelmente tomarão as rédeas! De que lado ficar?

      Abraço! :)

Deixe uma resposta