O vício de Manhunt, Gaydar e Grindr


Sites e aplicativos para contato entre gays são garantia de muitas visitas, centenas de milhares de perfis fakes e verdadeiros, famosos “camarões” sem cabeça, fotos de membros, peitos e bundas até onde a fantasia permitir. Acontece de tudo um pouco e as vezes as ações terminam em encontros para o sexo. Porque existe essa fixação? O que nos leva a essa mania?

Acho um pouco simplório demais resumir que o homem gay é ávido por sexo apenas pelo fato da existência do instinto animal. Resumir o assunto nessa afirmação é quase como um consolo e uma eterna desculpa, como se essa ligação do homem gay e heterossexual com o sexo fosse algo inevitável, regra absoluta, imutável.

(Curioso falar em imutabilidade quando gays aparentemente procuram sempre dinamizar a vida, não?)

Poderia ser assim enquanto animais. Mas e hoje que há milênios já somos dotados de consciência?

A medida que vou refletindo sobre o assunto, vejo essa realidade como um tipo de sufocamento, uma inércia. É como se fôssemos dependentes, acorrentados e fadados a uma putaria. É como se esse tal de DNA primitivo dominasse a nossa essência e, na fachada, restasse-nos apenas o jogo de aparências, o apelo excessivo à estética, o status e o poder. Jogo das aparências porque raros são os gays que assumem sua frequência no Manhunt, Gaydar e Grindr. Mas a sensação que fica é que muitos estão com seus perfis falsos, verdadeiros ou limitados, numa espera, numa busca ou sabe-se lá o quê.

É como se a circunferência de nossa vida íntima não tivesse mais de 10cm de diâmetro ou a nossa individualidade se resumisse apenas a isso: um tipo de prazer obscuro, quase maníaco e perturbador, digno da representação no filme “Shame“.

Poucos ou pouquíssimos são aqueles que numa tentativa remota procuram conhecer pessoas. Muitos ou quase todos se envolvem pelo prazer virtual de corpos, figuras, dotes e chats. Privilegia-se a fantasia mais uma vez, negando o contato mensurável. Alguns se desencorajam a conceber um encontro real e alguns outros vão até o fim, que pode ser profundo ou raso, dependendo do peso de consciência. Eis um movimento transitório, do tipo de nem lembrar o nome.

Manifesta-se as vezes até um prazer por não lembrar o nome, o que ridiculariza ao extremo a si mesmo.

Gays, como todos ou na marioria das vezes tem pais, convívio familiar, colegas de trabalho e amigos. Quando estão próximos a esses atuam bem. Quando solitários em frente ao notebook ou ao celular optam por esses relacionamentos virtualizados, contabilizados e fichados como se na esfera da individualidade a tela ligada nesses canais fosse a única porta para o prazer ou para o outro íntimo, rápido e volátil.

Entra-se uma vez como curioso. Entra-se duas, três e de repente imita-se os padrões: rosto, corpo sem cabeça, pinto, bunda, “casal procura”, peitos e passamos a esperar ansiosamente por uma audiência, uma aceitação alheia que nos atraia e um texto do tipo: “Gostei de vc. Quer tc?”.

E é assim, sempre assim e somente assim há décadas. Sexo fácil para aqueles que se dispõem a se encontrar. Sexo virtual garantido e asséptico para quem puxa para a webcam e casos raros do “algo mais” daqueles que buscam incansavelmente pelo “algo mais”. A lista de MSN fica infindável, pautada na quantidade e depois de um tempo sem valor algum.

Responsabilizar esse estado simplório nos instintos animais? Na realidade, me parece que a vida anda muito desinteressante.

Responsabilizar a sociedade que nos repreende e nos enche de bloqueios? Já tomou alguma atitude hoje para mudar sua condição?

A vida pode ser muito mais do que isso. Mas parece que homem gay é vítima de sua falta de confiança. Vítima de uma necessidade constante da auto-afirmação. Vítima do medo de ser além.

De segunda à sexta, sábado e domingo, depois da balada que termina em carreira solo, ficam essas opções.

Vazio e uma limitação eterna para o comprometimento.

7 comentários Adicione o seu

  1. Marcos disse:

    Oi, MVG! Ah, eu curto o Grindr. Já fiz amizades com ele. E qndo digo amizade, digo amizade mesmo! Qndo viajo, gosto de acessar e ver qm está por perto pra combinar uma cerveja e bater papo. Já conheci uns 3 caras assim e de verdade saímos só pra tomar umas cervejas e bater papo. Acho mto útil. Tbem conheci um vizinho meu!, somos amigos hj.
    Mas é claro que tem todo tipo de gente ali. Tem os enrustidos, os que estão excessivamente carentes, os que estão só a fim de transar, etc, diversos tipos. Mas naturalmente os perfis vão se encaixando, o papo vai mostrando do que cada um tá a fim…

    1. minhavidagay disse:

      Concordo com você Marcos!
      Mas a maioria das pessoas usam Grindr, Gaydar e Manhut para outras finalidades. Não somente os simples encontros.
      De qualquer forma, eis a tecnologia… cada um utiliza para um propósito!

      Valeu pelo comentário! :)

  2. romulo disse:

    Você é contra ou a favor do uso desse tipo de tecnologia? O que faria se ao invés de morar em uma cidade global como São Paulo, morasse em uma cidade provinciana em que houvesse gays “8 ou 80”: Ou são afeminados e andam em grupo, ou são os enrustidos. Estou nesse dilema, não sou afeminado nem enrustido( me refiro ao fato de não ver problema em falar pras pessoas sobre mim, mas ao mesmo tempo não vejo vantagem alguma em banalizar ou gritar que sou gay) e quero um cara como eu, mas está difícil…Já se viu nessa situação? Você recorreria à sites como UOL( lá rola muita promiscuidade). Abraços.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Romulo!
      Tudo bem? Sou a favor da utilização desses recursos como parte dos meios de nos relacionar com outras pessoas. Mas sou contra ao vício que pode acontecer, desses meios virarem fonte exclusiva de contato!

      Seu caso, que mora numa cidade pequena, é mais complicado mesmo. Talvez nem esses recursos te judem. Precisa tentar para ver.

      Sites como UOL não são diferentes do GRINDR ou Manhunt. Podemos até fazer uma busca de vez em quando. Mas se virar entretenimento todos os dias, algo não anda bem!

      Abs,
      MVG

  3. Pedro disse:

    Pra mim é bom porque eu curto comer prostitutas, quando brigo com a minha namorada. Tem a opção das periguetes, que também tão aí … mas preciso de uma noite toda pra ir pra balada, catar a perigosa e comê-la no motel. Fora que ela fica querendo ligar depois … pois paixão de cu é rola.

    Pra mim, o Grindr tem sido uma boa opção pra comer gays. É uma coisa bem animal e mais rápido que com a periguete (que vc precisa jogar uns caôs e vender umas mentiras pra elas) e também não tem o custo da prostituta, que com 200 reais tu pega uma boa e gata tipo panicat. Sem falar que pegando um gay pra comer tu divide a conta do motel, já com a periguete vc paga tudo.

    O Grindr é ótimo pra mim porque é um cardápio de cu e sigilo total, pq gay não liga no dia seguinte como a periguete. Mas acho que pros gays é degradante, pois sempre vejo os caras querendo ser meus amigos e me levar pra vida deles, o que é impossível. Sei dos gays adorarem um cara hetero e terem até certa predileção por caras que não são do meio, mas num dá. Essa história a gente já sabe: o cara quer ser seu amiguxo, amante e tal. Não dá certo ter um cu-ceta pra comer sempre. Melhor nisso, é uma amante mesmo com buceta mesmo. Fora que ela gruda fiel em vc com a promessa dela ser titular e vc terminar com a sua oficial, o que é outra coisa impossível.

    Podia existir um Grindr pra periguetes. Seria mais simples que ir no puteiro. Mas puteiro é bom porque vc pega aquela gostosa panicat. Bem, o legal é comer todo mundo mesmo e ir curtindo.

    1. Pedro disse:

      E uma coisa que eu tava pensando é que, apesar de já ter gasto muita grana com prostituta gostosona tipo panicat, nunca pensei em pagar um michê. É palha isso. E tem uns caras modelo querendo dar de graça no Grindr.
      A periguete ela até dá fácil e rápido, se comparado a minas normais (minha namorada eu levei 2 meses pra comê-la), mas vc tem que impressioná-la com grana e carro. Quanto mais $$$ e carro, mais rápido ela abre a perna. O bom com os gays é que vc não precisa dessa estrutura de grana, carro, relógio cara, camisa polo de marca … pra impressionar. Só mostrar o corpo e ser malhado e já tá de boa. Ser somente ativo, não beijar, também é uma referência boa, já percebi. É tipo mulher … elas se amarram em vc ser mau na cama e dar umas coça nelas pra apimentar (e não pra agredir, lógico).

  4. Leo disse:

    Adorei o texto. Me senti descrito em toda ansiedade e no esvaziamento da vontade de relacionar ao sexo… estou quase mudando a foto do perfil por uma parte de corpo… kkkkk

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