O que a gente aprende vivendo um relacionamento gay?

Relacionamento na maioria das vezes são todos iguais. Mas como o MVG é destinado principalmente ao público gay, o viés se justifica.

São 12 anos fora do armário, ou melhor, meu processo de aceitação comigo mesmo começou há 12 anos e posso dizer que hoje estou resolvido como tal, quando o assunto é a minha homossexualidade. Nesse tempo, somando todas as fases de vida solteira não dá três anos. Já namorando, casado ou com algum comprometimento com outra pessoa ficam os outros nove anos.

Nunca trai e o fato de nunca ter me arriscado a seguir pela “tradição da traição do meio” já é um primeiro aprendizado. A sensação de estar isento dessa experiência, além de ser um óbvio diferencial pessoal que até eu poderia ostentar num exercício de auto-afirmação juvenil, me garante uma proximidade de pessoas, heterossexuais e gays, adultos e jovens, que tendem pela mesma escolha. Quem trabalha com empresa própria como eu que tenho sócios, estagiários e lido diariamente com um grupo de clientes, o valor de fidelidade (para quem não lembra, fidelidade é o oposto de traição) agrega muito mais poder para formar uma equipe íntegra e para criar relações de confiança com clientes. Tão óbvio quando escrito nessas linhas e tão não praticado quando percebemos a vida nas ruas.

Bom que eu escolhi por não deixar me levar por essa atitude que é mais um descontrole, um sintoma de baixa auto-estima e uma necessidade de auto-afirmação de poder. Sim, porque no meu ponto de vista, trair ou não trair é escolha. Ou a gente escolhe por seguir por esse tipo de corrupção (e a gente reclama dos políticos!), dando vasão a desejos egoístas que coloca a representatividade do parceiro abaixo de nós, ou “lutamos” para manter essa identidade de igualdade. Na pior das hipóteses sempre terminei quando percebia que a voracidade e os desejos por outros saltavam às minhas veias. Duro, sofrido, mas justo e honesto, sem consolo, sem subentendidos, sem desculpa. Para mim, não é o tipo de coisa que se deve pegar leve. Integridade é difícil pela natureza de ser íntegro!

Nos relacionar intimamente com outro, ou namorar, ou ter um relacionamento sério, ou whatever a maneira que cada um gosta de classificar, é um caldeirão de aprendizado. Enquanto a maioria das pessoas temem ou protelam a ideia de comprometimento e sustentam esse estado por achar que comprometimento é coisa antiga ou limitante, aqueles que se permitem relacionar e não enxergam o ato de se comprometer como uma desculpa pseudo-independente, passam a enxergar-se melhor no “espelho”.

Como já comentei em algum outro post inspirado, relacionamento é espelho. É a oportunidade que nos damos para entender nossas inseguranças mais profundas e íntimas e é a oportunidade de superá-las. Com essa frase, não quero afirmar que só se relacionando intimamente e com profundidade é que podemos nos conhecer 360 graus. Mas certamente demora-se mais tempo pois aqueles que visam relacionamentos mais superficias postergam o exercício da intimidade.

Uma coisa é estar em paz sozinho, que é possível e também pode levar a vida inteira para atingir esse estado. Outra coisa é ser feliz sozinho. Daí, fica a simbologia de uma das últimas cenas do filme “Into The Wild” (Natureza Selvagem): “Felicidade só faz sentido quando é compartilhada”.

O exercício da intimidade nos expõe e com o tempo nos mostra por inteiro e essa é uma das poucas verdades máximas que o Blog MVG reafirma. Expostos, nos deparamos com características, fragilidades e defeitos que nem sempre gostamos de apresentar para o mundo, mundo esse que ultimamente tem privilegiado a embalagem das pessoas, embalagens saudáveis, austeras e que não envelhecem jamais!

A intimidade nos desarma, tira nossos recursos de proteção e não tem jeito: o mix de tempo, convívio e intimidade apresenta ao outro não somente o corpo nu (esse é muito fácil de mostrar no meio gay em algumas horas depois de uma troca de olhares) mas o lado que nem sempre é belo, encantador ou sedutor. Nos tornamos simplórios, humanos perante o outro e vice-versa e esse estado que não é super, nem hiper, nem ultra, que nem sempre é viril, nem sempre é disposto ao sexo e nem sempre está satisfeito, os gays morrem de medo de assumir. Gays, na aparência, vendem disposição na maioria das vezes.

Será que isso é coisa só de gays? Claro que não. O bicho-homem morre de medo de se apresentar dessa maneira plena quando inclui suas limitações. Mas como disse no começo do post, o MVG é para gays, e são para os leitores que ficam esses pensamentos.

Assim passamos longos anos da vida incompletos. Incapazes de amadurecer partes do ego, assumindo um estado individualista, imersos num tipo de orgulho infantil de achar que legal é ser jovem para sempre e que nessa juventude não cabe relacionamento. Confundimos conceitos achando que a jovialidade “morre” se a gente se adultifica, se a gente compartilha com outro.

Jovialidade perdura a vida toda se a gente quiser. Mas normalmente quem se encontra com essa jovialidade na vida adulta não auto-afirma para o mundo. Simplesmente vive.

Esse post é fruto de 9 anos de relacionamentos e 3 de vida solteira. De alguém que se humanizou centenas de dias para o outro.

7 comentários Adicione o seu

  1. Paulo disse:

    Hoje voltando para casa eu conversava com o meu pai sobre o relacionamento dele com a minha mãe, 28 anos conturbados de casamento, e disse que muitos hoje o criticariam se soubessem as dificuldades de entendimento entre ambos, julgando a separação como melhor caminho. É perceptível que a nossa sociedade ojeriza qualquer tipo de sofrimento, criando mecanismos e ferramentas para afastar qualquer indício de suposto afastamento da felicidade e do prazer material, mas as pessoas não percebem que sofrer é uma importante ferramenta de formação, nos tornando fortes para as dificuldades da vida. Não estou fazendo campanha para que as pessoas busquem o sofrimento, mas às vezes temos que enfrentar certas situações das nossas vidas que vão nos causar sofrimento, sem buscar meios alternativos de saída. Hoje muitos fogem dessas situações e criticam que as enfrentam, mas não percebem que acabam enfraquecendo e tornando-se extremamente volúveis as intemperes da vida, deixando-se abalar pelo mais sutil problema do cotidiano, cobrando de Deus, ou sei lá de quem, medidas para superar essas situações, mas não percebendo quantas vezes deixaram para trás a oportunidade de crescerem como seres humanos, tornando-se mais fortes para enfrentar a vida.

    1. minhavidagay disse:

      Oi Paulo!
      Tudo bem?

      Complementando seu post, eu diria que realmente a ideia não é supervalorizar situações de sofrimento. Mas dificuldades, sofrimentos, desentendimentos, desilusões, decepções, desacordos e qualquer outro nome que se dê para quando vivemos situações que nos coloca em dificuldades são importantes. As vezes ou muitas vezes passar por necessidades ou ser desafiados dão sentido para a palavra superação.

      O ser humano precisa desse tipo de combustível, do sentimento de superação. Eis um valor muiro forte que nos amadurece, nos deixa mais plenos e conscientes de nós mesmos.

      “Crescer como seres humanos” como você mesmo cita ou evoluir, no meu ponto de vista, exige que o ser humano entenda o sentido maior de superação.

    2. Oi Paulo,
      Sim, vivemos em uma sociedade do mais gozar, corrompida pelo prazer imediato, de futilidade e aparências.Ser “feliz” é a nova ordem mundial (se me compreende) No primeiro obstáculo de um relacionamento é tão mais fácil, cada um sair para um lado, afinal, “a fila anda” , isso é ser feliz? Não é o que presencio em meu consultório e nos grupos de estudos terapeuticos dos quais participo. As pessoas estão cada vez mais solitárias,depressivas, síndrômicas; drogam-se cada vez mais; ( a indústria farmacêutica agradece); o sistema cria e inventa o remédio para as suas próprias doenças, conveniente;.o crescente aumento da violência comprova tudo isto;, este desamor, esta falta de compreensão e tolerância e de respeito nos relacionamentos. Não é necessário um alto nível de criticidade para perceber que algo não se encaixa, Bom momento para se questionar; Somos sujeitos de um discurso, ou um discurso do sujeito? Abraço

      1. Desculpe, apenas uma correção ” Somos sujeitos de um discurso ou o discurso de um sujeito?
        Abraço.

  2. Olá!
    Parabéns, pelo texto, inteligente e sensível como todo ser humano o é, porém negam, não assumindo a sua essência, deixando atrás de si,um rastro de infelicidade em repetidas relações frustradas. não assumindo a sua essência. É fato, como Lacan bem já anunciou, nos amamos, nos vemos através do outro, nosso espelho, portanto amar, requer enfrentar nossa própria megera, o que requer uma luta, um embate com nosso ego e vencedo-o, atingimos não só a maturidade psicológica emociona e assim assumimos o nosso verdadeiro “self”, passamos de simples atores coadjuvantes, para autores, sujeitos da nossa própria história.
    Abraço.

    1. minhavidagay disse:

      Muito bom o seu depoimento Ilza!
      Obrigado pelos elogios.

      E realmente, passamos a ser sujeitos de nossas próprias escolhas, nos tornamos mais auto-suficientes, sem barreiras ou dificuldades para nos relacionar. A busca da auto-suficiência por intermédio do auto-conhecimento deveria ser uma busca de todos! Tenho certeza que o mundo teria mais harmonia com isso.

      Abraço!

      1. É muito bom saber que não estou sozinha, bom saber que existem pessoas como você neste mundo.
        Grande abraço

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