Relacionamento gay, dois anos e meio de namoro


Domingo, 19/08 passaram-se dois ano e meio de namoro, prova é que relacionamentos gays são possíveis e não são somente passageiros. De lá pra cá muita coisa mudou na relação. Deixo um pouco do meu relato pessoal para que os gays tenham de referência e entendam um pouco mais o sentido de um relacionamento. Sei que o que a gente vê por aí tange a maioria das vezes a falta de comprometimento e a superficialidade. Pelo menos é isso que os gays costumam “vender pelas ruas”. Os motivos desse modelo mais transitório estão descritos em outros posts, as vezes são suposições, outras vezes são intuições e na maioria das vezes é um olhar crítico sobre o meu repertório de vida de 12 anos fora do armário.

Existem dois aspectos principais na relação que vivo e que tenho levado junto com meu namorado há dois anos e meio. O primeiro aspecto é que encontrei uma pessoa com bastante afinidade. O encontro não se resumiu ao desejo físico, aquele tipo de idolatria que a gente cria por alguém pela beleza que as vezes até cega e não faz conhecer a pessoa que é inside. Atração é importante para o começo. 99% das vezes nos sentimos atraídos, ficamos, transamos e a história não dura uma semana. Por que será que normalmente é assim?

Creio eu porque na grande maioria das vezes não buscamos pelas afinidades no outro. Ficamos fixados a estética, num tipo de encantamento, que nos tira a habilidade do reconhecimento. Reconhecimento de afinidades, de gostos, jeitos e maneira que o outro se coloca no mundo. Reconhecimento de valores, conduta e compatibilidades ficam para o segundo plano.

Esquecemos de buscar entender tudo isso do outro e continuamos fixados no belo, na pegada do beijo e na sintonia do sexo. Na hora de entrelaçar as intimidades, os valores e a personalidade nos sentimos despreparados. Já comentei bastante sobre essa nossa tendência em outros textos.

O segundo aspecto que entendo como interessante é que eu, com 35 anos, mudei muito. Quando temos 23 ou 24 anos não somos tão diferentes de pessoas com 18 ou 17. Quando temos 27 ou 28 anos, permanecemos em sintonia com outros de 22 ou 23. Mas quando passamos da marca dos 30 anos a gente muda, ou pelo menos eu mudei.

A partir dos 33 anos iniciei uma nova jornada na vida, diferente de tudo que eu já tinha vivido e repetido algumas vezes. Pontuo aqui alguns aspectos que dizem respeito à resoluções e definições:

– É inegável que a libido e os efeitos dos hormônios dentro da gente nos afetam menos. Homens, gays ou heterossexuais, e brasileiros adoram erguer uma bandeira de que a virilidade é um dever eterno, uma regra para a nossa masculinidade e auto estima. Bem, estou negando essa afirmação e dizendo que a minha vontade de sexo não é mais como antigamente e que bom que seja assim. Se eu estivesse tão conectado aos efeitos dos hormônios muito provavelmente não chegaria há dois anos e meio de namoro envolvido pelo meu namorado. Estaria ainda numa necessidade de “caça”, de experimentar outros corpos, ser visto e ser desejado. Me sinto resolvido nessa parte, ou pelo menos essa nova fase mais tranquila que se iniciou aos 33 anos tem perdurado até hoje com muita tranquilidade. Não dou no coro mais como antigamente mas não deixo de cumprir a tarefa (rs). A frequência caiu mas a vontade de ser e estar para meu namorado não;

– Existia um tabu muito grande dentro de mim, de me sentir um gay ativo nato e que a passividade poderia me descaracterizar. Pois bem, pura bobagem de pós-adolescente, ou melhor, de alguém ainda menos amadurecido. Hoje em dia tenho sido muito mais passivo na cama e assim me sinto completo, resolvido e esclarecido. O efeito “flex” é excelente para falar a verdade. Nos torna pleno em quatro paredes e nos possibilita descobrir prazeres novos, sem rótulos, sem preconceito, sem travas. E, quando a gente destrava, tudo flui melhor. Tudo flui sem medo e tudo é mais aberto (rs) fisicamente e emocionalmente. Essa tipo de liberdade me permite uma vida sexual constante sem que me exija tanto um modelo, do ativo. Sou um pouco de tudo quando quero e quando meu namorado quer e posso até negar o sexo quando não estou a vontade;

– Já não tenho grandes questões quanto a homossexualidade. Me defini com clareza em meio a sociedade GLS com muita naturalidade e aprendi a viver hoje sem me preocupar se amanhã será diferente. Mas para isso, precisei ir a fundo nas minhas fantasias mais íntimas. Permiti meu lado promíscuo e curioso a entrar noite a dentro e praticar. Hoje sou gay, homem e ser humano, sendo o último o que predomina. Já fiz a linha “super homem” bem vestido, perfumado, de músculos torneados e cabelo ajeitado, época que eu me produzia para o mundo. Meu olhar era uma flecha para o sexo. Hoje os músculos que formam meu corpo e meu coração são para garantir a minha saúde. Os perfumes e as roupas, elementos simbólicos da minha apresentação para o mundo servem mais para meu trabalho. Dou preferência a estar com roupas surradas quando não estou atuando profissionalmente. Ou seja, prefiro ser 1000 vezes o Clark Kent! rs

– Não preciso mais provar talento para superiores, valores para meus pais e carisma para meus amigos. Atuo há 15 anos no meu segmento, trabalhei com meus próprios pais a necessidade de me enxergarem como adulto e não preciso criar amizades a todo momento para mostrar que sou uma pessoa legal, que precisa de atenção ou precisa ser ouvida. Em outras palavras, tenho sido cada vez mais provedor da minha própria auto-estima. Aprender a lidar bem com a rejeição nos fortalece;

– Já fui namorado de outros homens um punhado de vezes. Com isso, veio pacote de pais, irmãos e amigos. Bem ou mal, a experiência acumulada de convívio com familiares nos assegura e faz a gente aprender a se socializar com pais, irmãos e amigos do namorado sem muita exposição nem muita introversão. Aprendemos a nos colocar como namorado sem “odiar” nem se “apaixonar” pelos parentes. Porque de fato, a gente não precisa ser o namorado mais querido da família, nem ter um certo tipo de cansaço de nem querer conviver. Dá para assumir um pouco de tudo sem ultrapassar nossos limites, sem criar uma indiferença. E confesso: conviver com família não é fácil pois mãe, pai e irmãos do namorado sempre vão querer dar algum tipo de pitaco, seja direto, seja nas entrelinhas (rs)! Mas ao mesmo tempo, esse tipo de convívio é também uma das fontes mais ricas de relacionamento. Nada melhor pra gente aprender a virar gente grande;

– Por fim e não menos importante eu me aceitei. Me aceitei como um homem adulto sem medo de ficar velho ou chato. As vezes ouço do meu namorado que estou sendo velho, principalmente aquelas vezes que nego uma folia ou uma viagem de turma (rs). Antigamente, ao ouvir esse tipo de afirmação eu ficava “puto” e fazia a vontade contra vontade. Hoje, olho para meu namorado e digo: “Velho e bastante consciente das coisas que quero e não quero fazer. Vai você e aproveite. Vou ficar com as minhas ‘velhices'” (rs). A bem da verdade é que, com 25, 35 ou 45 anos, quando a gente se sente bem como as coisas são, com uma auto-consciência mais elevada, com aquela faísca de vida que a gente não precisa ficar exibindo mais para os outros e feliz com a reputação que a vida vai tomando, a opinião do outro nem dói nem nos contenta. São apenas opiniões que as vezes a gente compartilha e as vezes não.

Comemoro esses dois anos e meio de namoro por ter encontrado alguém com muita afinidade, que entendeu a importância do convívio e da troca de intimidades. Comemoro esses dois anos e meio de namoro por ser adulto e feliz das coisas que se tornaram hoje.

Nunca esqueci que somos mais autores de nossas vidas do que mero espectadores. E quem me ensinou isso não foi nem papai, nem mamãe, mas sim a própria vida.

4 comentários Adicione o seu

  1. Márcio disse:

    Olá!Parabéns pelos dois anos e meio de namoro.Eu em novembro completo 8 anos.Quando comecei a namorar tinha 23 e meu namorado 25.Muita coisa mudou de lá prá cá,me sinto muito mais confiante e decidido.Parabéns pelo blog,sempre que posso dou uma passada por aqui.Forte abraço!

    1. minhavidagay disse:

      Obrigado Márcio!
      Muita coisa muda mesmo, não é verdade?
      Parabéns pelos oito anos de namoro! Mais uma prova de que homens podem ter um relacionamento duradouro!

      Abraço!

  2. Luan Salomão disse:

    Parabéns pelo Blog e estou adorando esse Blog e principalmente por esse Blog não me fazer com que eu me sinta sozinho kkkkkkk. Afinal a maioria dos blogs gays “prega” aquela coisa de Macho Másculo versus Macho Másculo, esquecendo de falar sobre os EFEMINADOS – AFEMINADOS.
    E gostei de saber da sua PERSPECTIVA em relação á EFEMINADOS.
    Abraços e continue assim , descobri o blog por acaso e pronto já gostei e até me inscrevi para receber os POSTS no email. Abraços l

    1. minhavidagay disse:

      Oi Luan!
      Desculpe não ter respondi antes mas por algum motivo esse seu comentário se perdeu na parte administrativa do blog!

      Que bom que gostou do blog. Espero que continue tendo como leitura!
      Afeminados/Efeminados, Másculos/Masculinizados, ativos e passivos são alguns rótulos que nós mesmos nos colocamos. E no final, somos todos mais iguais do que diferentes.

      Abraços!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s